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São Paulo sobrevive comemorando bico para frente. E é bom sinal

O que a torcida do São Paulo viu no Morumbi nesta quarta-feira à noite não foi uma grande atuação. E mesmo assim, não se importou. O time, na berlinda, fez o que se esperava dele: lutou, jogou com as armas que tinha em mãos, se dedicou. Os problemas costumeiros apareceram – o time ficou espalhado demais em campo, muitas vezes sem criatividade e sem um jogador que chame a responsabilidade para decidir os jogos. Mas na noite de quarta-feira, isso tudo era um detalhe.

O importante era ganhar. Era resgatar o orgulho do time, da sua torcida, até do técnico, já contestado. O que importava era classificar. E foi por isso que os torcedores jogaram junto, gritaram, apoiaram e comemoraram chutão para lateral, carrinho dado no adversário e até bico na bola depois que ela já tinha saído (né, Carleto?). Porque o são-paulino já sabia que o time não passaria a jogar de forma fantástica de um dia para o outro. Mas esperava que o time fizesse o seu papel de clube grande, com história na Libertadores, uma camisa pesada e em um estádio de 50 mil e vencesse o jogo. Por que se o time achava que seria difícil demais ganhar jogando em casa, contra qualquer adversário, é porque o time não era digno de se classificar.

O time não teve uma atuação brilhante, como era esperado. Mas teve um Osvaldo inspirado, que desmontou defesas. Teve muito chutão para frente, sem brincar na defesa e não correr o risco de errar na saída de bola (o que fez bem, considerando os erros infantis que os zagueiros têm cometido). Teve Wellington e Denilson, que se não foram brilhantes e também cometeram erros por nervosismo, correram e se dedicaram a desarmar incansavelmente os atleticanos. Teve um time que se recusou a dar o vexame de não se classificar jogando em casa. Teve Ganso participando de maneira decisiva do jogo. Teve gol do capitão em momento importante.

O Atlético apostou no nervosismo do São Paulo, que ficou evidente nos primeiros 25 minutos de jogo. Sempre que era desarmado, o São Paulo se dedicava muito para recuperar a bola. E esse foi um fator importante do time, que marcou muito forte Ronaldinho. O camisa 10 do Galo tornou-se um atacante, bem marcado. Duramente marcado, com divididas e entradas duras sobre ele. E não conseguiu aparecer.

O São Paulo teve Aloísio no lugar de Luís Fabiano. Não dá para esperar que o atacante, ex-Figueirense, faça uma grande jogada ou se movimente de maneira surpreendente. Mas dá para esperar uma luta sem igual, uma briga contra os defensores de maneira intensa e chata. Aloísio é desses jogadores chatos de enfrentar. Fez Leonardo Silva e Réver terem que jogar muito fisicamente contra o jogador de 1,76 metro. É bom lembrar que Leonardo Silva e Réver têm 1,92 metro. Aloísio continua sendo um jogador limitado, mas fez por merecer sair de campo, substituído por Ademilson, tendo o seu nome cantado pela torcida. Fez o que está dentro da sua capacidade: lutar.

Ganso esteve bem quando teve a bola nos pés. Ele teve tranquilidade para começar o jogo quando era necessário e deu cadência. Mas a sua falta de movimentação facilitou a marcação de Pierre, especialmente no primeiro tempo. Mesmo assim, apareceu de maneira decisiva para o time, começando a jogada do segundo gol, que matou o jogo e selou de vez a vitória. Ainda é preciso melhorar, se movimentar. Mas mostrou que pode ser decisivo, como foi pelo Santos em 2011, em um jogo contra o Cerro Porteño que o time da Vila também precisava ganhar para se manter vivo. Ganso mostrou fagulhas de um grande jogador.

Quem merece os elogios é Osvaldo. O atacante foi novamente o melhor jogador do time em campo. Começou no seu local habitual, no lado esquerdo do ataque, mas logo Ney Franco viu que ele poderia render mais no outro lado. Inverteu de posição com Douglas, que foi novamente pouco útil em campo, e passou a ser mais perigoso. No segundo tempo, foi dali que saíram os dois gols do São Paulo. Foi o camisa 17 que levantou a bola na área para Aloísio dominar no peito e ver Leonardo Silva cometer um pênalti tolo. Pênalti não desperdiçado por Rogério Ceni. E que proporcionou ao time uma confiança que faltava.

São Paulo comemora o gol de Rogério Ceni (AP Photo/Andre Penner)
São Paulo comemora o gol de Rogério Ceni (AP Photo/Andre Penner)

Confiança unida à vontade que o time demonstrou no jogo todo. Com esse cenário, Ganso recebeu a bola e fez um lance digno dos seus bons momentos. Na linha do meio-campo, girou em cima da marcação, deixando os marcadores perdidos. Colocou um bom passe para Osvaldo, que fez mais uma vez uma boa jogada levando até a linha de fundo e tocando para trás, onde Ademilson estava bem posicionado para mandar para as redes. O gol selou a vitória e o Atlético desistiu do jogo ali.

O Atlético teve a sua primeira decisão na Libertadores. Tinha a faca e o queijo na mão para eliminar um time capaz de lhe causar problemas. Não o fez, mesmo sabendo que era certo que, se o São Paulo se classificasse, seria o adversário do próprio Atlético. O São Paulo ganha moral e segue vivo em uma competição que conhece bem e onde sabe ser forte. É claro que isso não é suficiente para passar pelo Atlético, um time que já mostrou ser forte e com jogadores capazes de decidir. Mas era uma chance de garantir a eliminação de um concorrente direto. Não o fez. E terá muito mais trabalho nas oitavas de final. Apesar da excelente e impressionante campanha do Atlético, não há favoritos no duelo com o São Paulo. Mas os paulistas devem lembrar que Diego Tardelli e Bernard estavam fora. Será outro jogo com os dois, ou com ao menos um deles. E devem ser dois jogaços. Ou, ao menos, é assim que se espera.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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