América do Sul

Reinaldo Rueda reassume a Colômbia após 15 anos e tentará redescobrir a identidade do time num ano primordial

Quando demitiu Carlos Queiroz, a seleção da Colômbia já tinha um nome forte para assumir o comando do time na sequência das Eliminatórias. A saída de Reinaldo Rueda do Chile nesta semana reforçou as pistas e, nesta quinta-feira, o veterano foi confirmado como o novo comandante dos Cafeteros. Rueda não realizou um trabalho tão reluzente assim na equipe chilena, mas possui um currículo recheado e dirigiu o último clube colombiano a conquistar a Copa Libertadores. Assim, chega com prestígio para treinar seu país pela segunda vez e recuperar o início de campanha ruim em busca da Copa do Mundo de 2022.

Nascido em Cali, Rueda trabalhou primeiro nas seleções colombianas de base. Formado em educação física e pós-graduado na Alemanha, o treinador começou sua carreira como técnico principal no Cortuluá, no Deportivo Cali e no Independiente Medellín, mas já tinha dirigido rapidamente a Colômbia no Mundial Sub-20 de 1993 e depois assumiu as seleções menores em definitivo a partir de 1999. Trabalhou em diferentes níveis, do sub-17 ao sub-23, e conseguiu bons resultados – como o terceiro lugar no Mundial Sub-20 de 2003. Foi assim que se credenciou para se tornar o técnico principal dos Cafeteros a partir de 2004, com a saída do histórico Francisco Maturana, dando sequência a uma necessária renovação do elenco.

Rueda conseguiu alcançar as semifinais da Copa América em 2004, mas não recuperou o mau início nas Eliminatórias sob as ordens de Maturana. Apesar de flertar com a vaga no Mundial, não cumpriu sua missão principal por um ponto. O técnico foi mantido no cargo por mais um ano, enquanto a federação decidia se ia mantê-lo ou se buscava um substituto. Rueda permaneceu sob os desmandos dos dirigentes locais em amistosos pouco significativos e, diante de um conflito na alta cúpula da federação, acabou demitido em 2006. Faltou consideração profissional com o treinador.

Depois da frustração na Colômbia, Rueda levou Honduras e Equador a Copas do Mundo consecutivas. Ganhou moral para retornar ao Atlético Nacional em 2015 e realizar um trabalho louvável, conquistando a Libertadores em 2016. Depois, teve sua passagem morna pelo Flamengo, até dirigir o Chile a partir de 2018. A estadia de Rueda na Roja foi conturbada, com problemas internos. Mesmo assim, o time eliminaria a Colômbia para alcançar as semifinais da Copa América de 2019.

Já nos últimos meses, depois de enfrentar problemas com a paralisação do futebol no país e sofrer para empreender a renovação pretendida, Rueda viveu um começo apenas razoável nas Eliminatórias. O Chile somou apenas quatro pontos em quatro partidas, embora merecesse melhor sorte em alguns destes compromissos. Com uma vitória a cada três jogos sob as ordens do técnico, não foi problema aos chilenos liberarem sua saída. Apesar disso, jogadores enviaram mensagens carinhosas ao comandante e Arturo Vidal realizou críticas públicas pela falta de esforço dos dirigentes, assim como por análises pesadas da imprensa sobre o técnico, que avaliou como “medíocres”. Segundo o jornal La Tercera, Rueda não se sentiu respaldado por dirigentes e nem querido pela opinião pública. Assim, preferiu deixar a seleção local.

Rueda havia passado antes pela seleção da Colômbia em tempos nos quais os Cafeteros contavam com uma equipe de melhores opções defensivas. Desta vez, o cenário será bastante diferente, com os principais jogadores concentrados no ataque. Potencial há à disposição para que os colombianos melhorem seu desempenho nas Eliminatórias e briguem realmente por uma vaga no Mundial. A seleção local também conquistou apenas quatro pontos nas quatro primeiras rodadas, deixando preocupação pelos péssimos números defensivos e pelos 6 a 1 sofridos diante do Equador no último compromisso de 2020.

Ficou claro como Carlos Queiroz não se deu bem no novo ambiente e não conseguiu construir bases sólidas a um bom trabalho na Colômbia, como o feito no Irã. Neste sentido, Rueda parece mais capaz de entender a identidade do futebol colombiano e tirar o melhor de seus jogadores. É um técnico com vasta experiência, que sabe como levar um país à Copa do Mundo e com trânsito na própria seleção colombiana. Suas perspectivas neste momento parecem bem mais favoráveis do que as encontradas em 2004, quando precisou contornar problemas em tempos de talentos mais escassos. Não é o caso de agora.

Aos 63 anos, além disso, Rueda se mostra mais preparado ao desafio do que em 2004. Sua carreira caminhou bastante desde então e o técnico ganhou mais respeito de seus compatriotas, especialmente por aquilo que liderou no Atlético Nacional. Está claro como o comandante pode montar um time produtivo e ofensivo, como aconteceu nos Verdolagas. O ambiente tende a favorecê-lo e não seria exagero dizer que essas serão suas melhores condições rumo a um Mundial, superiores às encontradas em Honduras para 2010 ou no Equador para 2014. Talvez seja o principal momento da carreira de Rueda. Mas também terá que superar certas desconfianças, como as vividos no Flamengo ou no Chile.

Redescobrir uma ideia de jogo será um passo fundamental a Rueda. A Colômbia rendeu bastante sob as ordens de José Pekerman, apesar do desgaste no fim do ciclo. Com Carlos Queiroz, não havia uma direção e isso ficou claro pelas debilidades defensivas. O técnico precisará reconstruir o time. Ao mesmo tempo, também há um conflito nos vestiários, com o noticiário local apontando para rachas no elenco. O veterano precisará gerir tais conflitos e buscar a união do grupo.

A Colômbia retomará sua campanha nas Eliminatórias enfrentando jogos difíceis. O primeiro compromisso, em 24 de março, será contra o Brasil em Barranquilla. Depois, a equipe visita o Paraguai em Assunção. O time também encara Peru e Argentina no início de junho, antes de receber a Copa América em seu território. Como anfitriões do torneio, certamente os Cafeteros serão mais pressionados em 2020. Rueda também possui peso para lidar com essas cobranças e expectativas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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