América do Sul

‘Aqui eles têm coração’: Como o Racing virou o terror dos times brasileiros

No intervalo de um ano, La Academia foi dor de cabeça para gigantes do Brasileirão em competições sul-americanas

O Brasil virou o protagonista do futebol de clubes da América do Sul nas últimas temporadas. Entretanto, a hegemonia nos torneios da Conmebol sofreu um baque após o Racing se provar um rival à altura no continente.

Desde a última temporada, La Academia ficou frente a frente com diversos gigantes brasileiros. Entretanto, ninguém foi incapaz de impedir o sucesso do Racing na Copa Sul-Americana, cujo título encerrou um jejum de 36 anos sem conquistas internacionais.

Para erguer a taça, a equipe de Gustavo Costas superou quatro clubes da elite do Campeonato Brasileiro em seu caminho até a final: Red Bull Bragantino, Athletico Paranaense, Corinthians e Cruzeiro. E para quem achava que o domínio de La Academia estava limitado à Sul-Americana, a campanha de 2025 mostra que o clube de Avellaneda agora briga pela Glória Eterna.

Seja na Recopa Sul-Americana, ou na atual fase de grupos da Copa Libertadores, o Racing segue sendo o “terror” brasileiro. E para entender a ascensão desse novo bicho-papão da Argentina, a Trivela conversou com os jornalistas Diego Louzan, da “Radio La Red AM 910”, e Sofía Antonacci, do portal “La Comu de Racing” — ambos setoristas de La Academia.

Racing e o ponto de virada contra brasileiros

Racing, campeão da Recopa Sul-Americana 2025 Foto: (Imago)
Racing, campeão da Recopa Sul-Americana 2025 Foto: (Imago)

Tanto Louzan, quanto Antonacci reforçam que o Racing só chegou onde está a partir da gestão de Víctor Blanco. O presidente assumiu o cargo em 2013 em meio a uma crise institucional e esportiva, porém, passou a disputar com frequência torneios da Conmebol.

Com isso, o Racing montou equipes cada vez mais competitivas. Outra consequência de ter um calendário internacional foi o aumento exponencial das receitas, permitindo reforçar o elenco com nomes importantes a cada ano.

De lá para cá, o Racing fez campanhas de respeito tanto na Copa Sul-Americana quanto na Libertadores, chegando pelo menos ao mata-mata. Entretanto, na visão de Sofía, o ponto de virada contra equipes brasileiras aconteceu em abril de 2016.

À época, o Racing faria o primeiro jogo das oitavas de final da Copa Libertadores contra o Atlético-MG, em casa. Na preleção, o goleiro Sebastián Saja — ídolo da torcida e atual diretor esportivo do clube — bradou palavras de motivação para os argentinos.

— São brasileiros, se cagam! Vamos fazer com que sintam como o futebol é vivido na Argentina! Como é a vida aqui no estádio do Racing! Se não os fizermos sentir isso, eles ficarão maiores, então não vamos deixá-los crescer.

Dentro de campo, o Galo segurou o empate sem gols em Avellaneda e garantiu a classificação às quartas de final. Apesar da eliminação, o Racing já tinha plantado a semente de seu segredo contra os brasileiros — cujos frutos foram colhidos em 2024.

— O Racing tem uma identidade que lhes permite acreditar no impossível. Acho que a motivação que vem com essa identidade pode levar a mostrar sua força contra times brasileiros, que há um tempo são os (rivais) mais difíceis — analisa Sofía Antonacci.

Retrospecto do Racing contra times brasileiros desde 2024:

  • 10 jogos
  • 7 vitórias
  • 1 empate
  • 2 derrotas
  • Nenhum brasileiro sequer empatou no El Cilindro
  • Red Bull Bragantino, Athletico-PR, Corinthians, Cruzeiro, Botafogo e Fortaleza já foram vítimas

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Gustavo Costas, um treinador que sabe o que é ser Racing

— A chave para o sucesso do Racing de Costas foi o senso de pertencimento que o treinador incutiu em seus jogadores. Um treinador fanático pelo Racing —.

É assim que Diego resume o papel do treinador para o crescimento do time. Muito antes de assumir a equipe, Gustavo Costas foi mascote de La Academia em 1967 — ano dos títulos da Libertadores e do Mundial. Isso ajuda a resumir a profunda ligação do argentino com o Racing.

Revelado em Avellaneda, Costas passou boa parte de sua carreira como jogador vestindo a camisa do Racing. No início do ano passado, ele assumiu como técnico do clube para acabar com o longo jejum na América do Sul.

Gustavo Costas, técnico do Racing, foi um dos principais responsáveis pelo título da Sul-Americana 2024 Foto: (Imago)
Gustavo Costas, técnico do Racing, foi um dos principais responsáveis pelo título da Sul-Americana 2024 Foto: (Imago)

— Tem uma equipe muito sólida. […] Ele não é um técnico moderno, com esquemas táticos revolucionários, mas, mais do que isso, ele transmite essa positividade aos jogadores, e é isso que o time reflete em cada partida, principalmente contra brasileiros — diz Diego.

O sonho da Libertadores é possível

Garantido nas oitavas de final da Copa Libertadores, o Racing recebe o Fortaleza em casa nesta quinta-feira (29), às 21h30 (horário de Brasília), pela última rodada do Grupo E. Enquanto visa manter a liderança da chave, o Leão do Pici sabe que um tropeço pode significar a eliminação precoce.

Sofía Antonacci e Diego Louzan apontam que o domínio recente do Racing sobre clubes brasileiros expressa seu favoritismo ao principal título da Conmebol nesta temporada. E os argentinos se sentem mais confiantes em solo tupiniquim.

Racing faz campanha promissora na Copa Libertadores 2025 Foto: (Imago)
Racing faz campanha promissora na Copa Libertadores 2025 Foto: (Imago)

“Acredito que não só no nível dos clubes, mas também nas competições de seleções, o nível do futebol brasileiro vem caindo. E com os títulos da Copa do Mundo e da Copa América, a Argentina ganhou destaque em relação ao sempre difícil Brasil”, argumenta Antonacci.

“O futebol argentino se tornou muito forte ultimamente indo jogar no Brasil. Não estou dizendo que são melhores, mas acho que tem muito a ver com a mentalidade do jogador argentino e o que o Racing fez naquela Sul-Americana vencendo muitos brasileiros”, defende Louzan.

Por sua vez, Diego colocou o clube entre os favoritos à taça da Copa Libertadores. Mesmo que o Racing não possa se comparar ao poder de investimento de gigantes brasileiros, Gustavo Costas e companhia já provaram que é possível desafiar os favoritos.

— Estão brigando de igual para igual com os times brasileiros. O Racing não tem o orçamento do Flamengo, do Palmeiras, nem de outros times, mas eles podem brigar, porque aqui (eles) têm coração, que torna esse time mais perigoso.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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