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Direitos de TV da Libertadores custaram 10% do valor do Brasileirão à offshore

Quanto custa os direitos de TV da Libertadores? Por muitos anos nós nos perguntamos isso, mas nunca conseguimos descobrir uma resposta. Em diversos países da América do Sul , a mesma pergunta era feita e nenhuma resposta era dada. O escândalo Fifagate começou a colocar um pouco de luz nesse mistério e os Panamá Papers, no Brasil publicados por Estadão, UOL e Rede TV, finalmente relevaram os valores. Uma empresa offshore comprou os direitos da Libertadores para revender às emissoras por cerca de 10% do valor atualmente pago pela Globo pelo Brasileirão.

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Quando o escândalo Fifagate começou a prender executivos e dirigentes, começaram a surgir indícios que a caixa preta seria aberta. Os Panamá Papers começou a liberar documentos, mais desse mistério começou a ser revelado. E os participantes são conhecidos: Alejandro Burzaco, José Hawilla – ambos presos no Fifagate -, Fox e dirigentes da Conmebol. Tudo isso envolvendo diversas empresas offshore, em uma complexa rede de pagamentos e direitos de transmissão que passam de empresa em empresa.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, em apuração conjunta com o UOL, o banco de dados do Panama Papers mostra que 42 pessoas assinaram contratos por firmas que tinham negócios no futebol. Há também 15 empresas offshore que participam de negociações envolvendo futebol. Isso significa que o que estamos vendo ainda é uma camada fina na cobertura. Há muito a ser revelado.

A principal offshore que precisa ser destacada é a T&T Sports Marketing Ltd, uma empresa com sede nas Ilhas Cayman. É essa a empresa que detém os direitos de transmissão da Copa Libertadores. De acordo com os contratos que a reportagem do Estadão e do UOL tiveram acesso, os valores pagos começaram com US$ 22 milhões de 2008 a 2010, US$ 22,5 milhões de 2011 a 2014 e US$ 25,3 milhões por ano de 2015 a 2018. Além disso, havia um bônus de assinatura de contrato de US$ 4 milhões. O valor total do contrato é, portanto, de US$ 370 milhões, algo em torno de R$ 1,3 bilhão, na cotação atual, por um contrato de 10 anos.

Para se ter ideia do quanto esse valor é pequeno, só pelo Campeonato Brasileiro, o grupo Globo declarou que pagou R$ 1,1 bilhão em 2015, somando todos os clubes, com direito a exploração de TV aberta, fechada, pay per view e internet. O contrato sofre um reajuste a partir de 2016 e custará ao menos R$ 1,23 bilhão, com alguns contratos ainda em negociação.

Levando em conta os bônus por assinatura, o valor passa doe R$ 1,3 bilhão. Só que esse é um valor anual. O valor pago pela T&T pela Libertadores é de R$ 1,3 bilhão por 10 anos de contrato. Ou seja: o valor pago pela T&T à Conmebol pelos direitos da Copa Libertadores é de cerca de 10% do valor pago pela Globo aos clubes pelos direitos de TV do Brasileirão.

Isso explica porque a competição paga tão pouco aos clubes há tanto tempo. O dinheiro que chega na Conmebol é pouco. O lucro mesmo vai para a T&T Sports Marketing, que é quem revende os direitos para quem de fato irá transmitir, como a TV Globo. A emissora brasileira pagou US$ 20 milhões a essa empresa sediada nas Ilhas Cayman pelos direitos da Copa Libertadores em TV aberta no Brasil. Ou seja: só o que a Globo paga já cobre a maior parte do gasto da empresa na compra dos direitos mundiais da competição mais importante das Américas. E esse é só um país, em TV aberta. Sem contar TV fechada e todos os demais países que compram os direitos da Copa Libertadores, não só na América do Sul, México, Estados Unidos e Canadá, mas também na Europa e Ásia. O potencial de lucro é imenso.

Além de pagar pouco à Conmebol pelos direitos de transmissão, a T&T ainda tinha vários benefícios no contrato. Uma delas começa no valor. Indica que se as condições macroeconômicas da América Latina se deteriorarem, os valores do contrato poderão ser revistos “de boa fé”. A empresa também tem preferência na renovação do contrato em 2018, data de encerramento do acordo assinado.

As cláusulas que beneficiam a empresa chegam até o campo: exige que os clubes joguem a competição com ao menos sete jogadores que foram titulares nos últimos 15 jogos dos times nas suas ligas nacionais. A Conmebol pode ser punida se isso não acontecer.

A T&T ainda tem uma cláusula que lhe dá um poder enorme: ela deve estar incluída na definição dos lugares, datas e horários das partidas da Libertadores com a devida antecipação. E mais do que isso, os representantes da empresa precisam ter passagem livre dentro dos estádios onde serão jogadas as partidas.

Fox e TyC, sócias na T&T

O mais curioso, entretanto, é quem está por trás da T&T. Segundo os documentos dos Panamá Papers, os donos da empresa são a Torneos y Competencias, empresa sediada na Argentina e que controlava boa parte dos direitos de transmissão de esportes na América Latina. O seu principal executivo, o CEO, era Alejandro Burzaco, preso pelo FBI no Fifagate. A outra sócia da empresa é a Fox Pan American Sports, uma subsidiária da rede de televisão americana Fox em Delaware.

Não por acaso a Fox é quem não só transmite como co-organiza esta e todas as competições sul-americanas de clubes. A Fox, porém, disse que não participa da gestão da T&T. A versão, segundo o Estadão, é desmentida por um contrato na Mossack Fonseca, que diz que a emissora de TV indicou três diretores da T&T. A T&T já teve como sócio também a Continental Sports Marketing, empresa sediada também nas Ilhas Cayman e que era um braço do grupo Traffic, de José Hawilla. A participação da Continental foi vendida há mais de 10 anos, porém. É só uma das muitas relações que a T&T teve.

A T&T negociou com várias outras empresas para distribuir o dinheiro dos direitos de transmissão. Vendeu em 2012, por exemplo, para a Torneos & Traffic, uma empresa com sede na Holanda e controlada, como o nome nem faz questão de esconder, pela Torneos y Competencias e pela Traffic, os direitos de transmissão da Libertadores no Brasil. Assim, essa empresa foi quem negociou com as emissoras – e, portanto, lucrou. Foi com a Torneos & Traffic que a Globo assinou contrato, em 2013. A emissora brasileira nega que tenha cometido qualquer irregularidade.

O Fifagate fez com que a Conmebol refizesse os contratos e tirasse da Torneos y Competencias os direitos da Copa Libertadores. Renegociou com a Fox para que a emissora americana continuasse como detentora dos direitos, dizendo que o valor agora seria maior. A Globo fez novos contratos para a compra dos direitos da Libertadores sem intermediários, no início de 2016, por causa do rompimento dos contratos anteriores, assinados por empresas intermediárias que foram indiciadas pelo FBI.

Mas é na Torneos & Traffic que surgiram outras empresas offshore que mostram uma rede de empresas que se beneficiaram. José Marguiles, indiciado pelo FBI e que não foi preso, está ligado a três offshores que participaram de contratos. Ele e seus parentes controlavam a Somerton, empresa nas Ilhas Turks e Caicos, que recebia US$ 1 milhão por ano por edições da Libertadores entre 2007 e 2014. Foi substituída pela Valente Corporation, também ligada a Marguiles, que recebeu US$ 1,6 milhão por ano. A Spoart Promoções e Empreendimentos Artísticos e Esportivos LTDA recebeu outros US$ 800 mil no esquema. O argentino inclusive já admite uma delação nos Estados Unidos, segundo o Estadão.

O problema fica ainda maior. Há uma outra empresa que está ligada ao esquema. A TyC International, como o nome diz, é a versão internacional da Torneos y Competencias. Tem sede na Holanda e é licenciadora da Fifa para comercialização dos direitos de TV da Copa do Mundo de 2018. É aqui que a trama pode se complicar. A ligação com a Fifa seria a primeira empresa investigada com uma ligação direta com a principal entidade do futebol, e não só com dirigentes e confederações. Isso depois devermos que a Uefa e Gianni Infantino, ex-secretário da entidade europeia e eleito presidente da Fifa, também apareceu no Panamá Papers.

É bom pegar a pipoca, porque a trama deverá ter muitos novos capítulos. E com um potencial emocionante.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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