América do Sul

Pulso firme demais

No dia 24 de fevereiro de 2011 começava uma nova era para a seleção chilena; a era Cláudio Borghi. O treinador argentino, tetracampeão nacional com o Colo Colo e campeão com o Argentinos Juniors, chegou ao comando da Roja com a difícil missão de substituir ninguém mais, ninguém menos que Marcelo Bielsa, ídolo nacional após a excelente passagem pelo selecionado. Um ano e meio depois o Chile não mostra a qualidade de outroral e, embora ainda haja espaço para avanço, um fator mudou radicalmente de Bielsa para Borghi: a administração do grupo. O último episódio desabonador para a gestão atual aconteceu nesta semana, com o treinador se envolvendo pessoalmente em uma briga com a Universidad de Chile.

Por causa do calendário do futebol chileno e das participações em torneios internacionais, La U pediu à federação do país que seus quatro jogadores convocados – Aránguiz, Rojas, Mena e Osvaldo González – se apresentassem para a seleção em 4 de setembro, um dia depois do previsto pelo técnico da seleção. Embora diretores da Universidad de Chile tivessem certeza de que o acordo havia sido aceito, Borghi anunciou na segunda-feira que os quatro atletas estavam cortados por uma “requisição do clube” e que não fariam parte do grupo que vai confrontar a Colômbia pelas eliminatórias no dia 11. O técnico ainda foi além e disse que “por diversas vezes atendeu a pedidos da Universidad de Chile, mas que desta vez não haveria como”.

A decisão causou espanto e rumores de que se devia mais à rivalidade de Borghi com Sampaoli – uma vez que o técnico de La U já chegou até a declarar que gostaria de dirigir a seleção – do que ao mérito da questão. Após saber do ocorrido a Universidad de Chile alegou que a proposta de que os jogadores se apresentassem um dia após o combinado havia partido da ANFP, braço da federação que organiza o campeonato, quando da remarcação do jogo, e lamentou que Borghi não soubesse do que estava previsto. Convicto em seu julgamento, o treinador chamou três atletas para o lugar dos cortados, ampliando o mal-estar entre ele, a Universidad de Chile, a Federação e, claro, os jogadores. Perguntado sobre o sentimento de ser excluído da lista, Charles Aránguiz não poupou palavras: “sinto raiva por ficar fora da seleção sem ter feito nada para isso”.

Durante a semana o presidente da Universidad de Chile e da Federação se reuníram e acertaram os ponteiros, mas o impasse deixa mais uma ferida aberta no relacionamento de Borghi com seus atletas. O técnico já fez pelo menos 11 desafetos desde o início de sua gestão à frente da Roja. São eles: Johhny Hererra, Estrada, Jara, Medel, Beausejour, Carmona, Vidal, Valdívia, Orellana, Pinilla e Vargas. Todos, em maior ou menor grau, desagradaram Borghi por suas condutas extra-campo e ficaram de fora da Roja nos últimos tempos.

Valdivia, Beausejour, Vidal, Carmona e Jara foram os primeiros a entrar em confronto com o treinador, depois de chegarem à concentração atrasados e com suspeitas de embriaguez. O mesmo motivo foi alegado para o corte de Eduardo Vargas neste ano. Medel foi “sancionado” por ir a uma discoteca enquanto se recuperava de uma lesão, enquanto Estrada e Orellana deixaram de ser chamados após rumores de indisciplina em uma excursão pela Europa. Pinilla, por sua vez, criticou o treinador pelo Twitter, enquanto Herrera reclamou que não foi convocado porque o técnico é torcedor do Colo Colo.

É bem verdade que Vidal voltou a figurar nas convocações há algum tempo, enquanto Jara, Medel, Beaseaujor e Pinilla estão de volta nesta lista. Mesmo assim, o desentendimento entre técnico e jogadores, justificado ou não, prejudicou a montagem da equipe para 2014, dentro e fora de campo. Da mesma forma, este novo imbróglio também pode chamuscar a ótima relação que Aránguiz e companhia tinham com o técnico, além de representar uma dificuldade a mais na campanha para a classificação ao Mundial.

Embora o Chile seja o líder das eliminatórias, com 12 pontos em seis jogos, a equipe oscila demais, tem uma das piores defesas do torneio e sofreu um revés forte na derrota por 3 a 0 para o Equador em amistoso disputado no início do mês. Sinal de que Borghi tem muito a avançar dentro de campo. Já o episódio desta semana mostra que também há a necessidade de trabalhar melhor as relações fora das quatro linhas. Se por um lado o treinador está certo em querer contar com todos os seus jogadores pelo tempo correto de preparação, por outro sua atitude intempestiva e autoritária ante um problema administrativo acabou gerando infortúnios que vão muito além de um dia a menos de treino. Ao excluir os jogadores da Universidad de Chile, o argentino jogou torcedores contra o clube, tirou a possibilidade de os atletas defenderem a seleção e ainda colocou a federação em uma fogueira, já que a incapacidade de montar um calendário eficaz acabou sendo o motivo pelo qual La U pediu a dispensa dos jogadores. Ou seja, muito barulho por pouca coisa.

Borghi chegou à seleção chilena com a sombra de Bielsa e, sem mexer muito na filosofia de jogo do time, tenta impor a sua marca. No entanto, se há ponderações sobre a falta de títulos no currículo de Bielsa, uma faceta do trabalho dele segue incontestável e incomparável: o técnico do Athletic Bilbao sempre monta equipes comprometidas e dispostas a entregar tudo e mais um pouco dentro de campo para seguir sua filosofia. Foi assim que o Chile saiu de coitadinho do continente a potência na Copa do Mundo. Borghi não passa nem perto disso… Por ora os constantes desentendimentos não acarretaram muitos problemas, mas é nítido que tais atitudes minam as relações de um grupo que precisaria muito de harmonia para conseguir seus objetivos. O próprio estilo de jogo, com pressão na saída de bola, intensidade e ofensividade, pede colaboração e comprometimento dos 11 que estão em campo. Tais predicados não são vistos na era Borghi e dificilmente serão se o técnico continuar criando desafetos e impondo um pulso firme demais na condução do trabalho.

Copa Sul-Americana 2012

Foram realizados nesta semana os jogos de ida das oitavas de final da Copa Sul-Americana. A exceção foram os brasileiros, que já haviam jogado. Confira:

Guaraní 2×4 Millonarios
Envigado 1×1 Liverpool
Mineros de Guayana 2×2 Cerro Porteño
Olimpia 0x1 Emelec
Cobreloa 0x0 Barcelona
Universidad Católica 2×0 Tolima
Deportivo Quito 2×1 Aurora
Liga de Loja 0x1 Nacional

Também tivemos os jogos decisivos da “fase argentina”

Tigre 4×1 Argentinos Juniors (*Tigre avança com 6 a 2 no agregado)
Racing 1×2 Colón (*Colón avança com 5 a 2 no agregado)
Independiente 0x0 Boca Juniors (*Independiente avança com 3 a 3 pelos gols marcados fora)

Mais chilenas

– No Clausura o Rangers continua na ponta, após vencer o Audax Italiano por 1 a 0. A equipe de Talca tem agora 17 pontos em oito jogos. A segunda posição é da Universidad Católica, que empatou por 1 a 1 com a Unión La Calera, chegando a 14 pontos. Palestino, Universidad de Chile, Deportes Antofagasta, Unión Española, Deportes Iquique e O’Higgins completam os oito que hoje estariam nos playoffs.

– A Universidad de Chile está na quarta posição depois de levar uma goleada da Unión Española – 5 a 2 – e empatar por 1 a 1 com o O’Higgins. Mesmo assim os azules ainda têm um jogo a menos.

– Já o Colo Colo venceu o Cobreloa por 3 a 1 e conseguiu seu segundo triunfo no torneio. O Cacique tem agora 11 pontos e ocupa a 10ª posição.

Equatorianas

– No Equador o Barcelona venceu o Deportivo Cuenca por 2 a 1 e manteve a liderança do Segunda Etapa. A equipe tem agora 17 pontos em oito jogos. A segunda posição é da LDU, que venceu a Liga de Loja por 2 a 1 e que bateu o El Nacional por 3 a 1. A equipe de Quito tem agora 16 pontos, mas em nove jogos.

– Quem também está na disputa pela liderança é o Emelec, que venceu o Olmedo por 1 a 0 e que chegou a 16 pontos em oito partidas.

Paraguaias

– No Paraguai não há espaço para os gigantes Cerro Porteño e Olimpia. Quem lidera o Clausura é o Guaraní, que ganhou do Nacional por 2 a 1, chegando a 13 pontos em cinco jogos. A segunda posição é do Sportivo Luqueño, que fez 2 a 1 no Olimpia e empatou por 2 a 2 com o Sol de América, chegando a 11 pontos, mas em seis jogos. O Sportivo Carapeguá é o terceiro, com nove pontos em seis jogos.

– Com a derrota para o Sportivo Luqueño, o Olimpia é o oitavo, com seis pontos em cinco jogos. O Cerro Porteño fez 3 a 0 no Rubio Ñu, mas é apenas o 10º, com cinco pontos em cinco jogos.

Peruanas

– Em território peruano tivemos todos os jogos da liguilla B e só dois da liguilla A. Questões de logística… O que importa: mesmo sem jogar o Sporting Cristal ainda tem 12 pontos de vantagem ante o José Gálvez, que ficou no 1 a 1 com a Universidad San Martín. Parece difícil imaginar os celestes perdendo a classificação para a final.

– Já na Liguilla B a disputa está acirrada. O Real Garcilaso perdeu para a Unión Comercio por 2 a 1 e viu a Universidad César Vallejo chegar após a vitória por 1 a 0 diante do León de Huánuco. O Garcilaso tem agora 60 pontos contra 58 da Vallejo. O terceiro colocado é o Juan Aurich, com 48.

Colombianas

– Na Colômbia o Millonarios segue firme e forte na ponta. A equipe de Bogotá bateu o Real Cartagena por 2 a 0 e chegou a 16 pontos em seis jogos. O Millos já abre quatro pontos de vantagem em relação ao Junior, que ficou no 1 a 1 com o Itagüí, agora terceiro colocado. Independiente Medellín, Boyacá Chicó, Deportes Quindio, Once Caldas e Cúcuta completam os oito que estariam hoje classificados para os playoffs.

Bolivianas

– Na Bolívia o The Strongest manteve a boa fase. O Tigre bateu o Aurora por 2 a 0 e chegou a 13 pontos em seis jogos. O Jorge Wilstermann fez 2 a 1 no La Paz e tem agora a segunda posição, com 11 pontos, também em seis jogos. Petrolero e Universitario completam os quatro primeiros.

– O Bolívar empatou por 0 a 0 com o Universitario e está na oitava posição, com sete pontos em seis jogos.

– O atacante Pablo Escobar, paraguaio, naturalizado boliviano, anunciou nesta semana que está se aposentado da seleção. As razões, segundo ele, foram estritamente pessoais. Escobar disse que quer passar mais tempo com a família. Problemão para o selecionador boliviano Xabier Azkargorta…

Venezuelanas

– Na Venezuela, Deportivo Anzoátegui e Trujillanos são os ponteiros, com 100% de aproveitamento. O Anzoátegui bateu o Estudiantes por 2 a 1 e chegou a nove pontos em três jogos, mesma pontuação do Trujillanos, que fez 3 a 0 no Deportivo Petare.

– O atual campeão, Deportivo Lara, não saiu do zero com o Aragua e ocupa agora a sétima posição, com quatro pontos. O Caracas também ficou no 0 a 0 com o Atlético Venezuela e tem a quarta posição, com sete pontos. O Deportivo Táchira tem quatro pontos, após vencer o Monagas por 3 a 0.

Uruguaias

– Foi dado o pontapé inicial no Apertura uruguaio. A rodada foi quase completa – exceção do jogo Danubio e Liverpool – e teve muitos gols.

– O destaque ficou por conta do 4 a 3 que o Fénix aplicou sobre o Peñarol e do 3 a 2 do Wanderers sobre o Cerro Largo. Nacional e Defensor ficaram no 2 a 2.

– A tabela tem Progreso, Fénix, Montevideo Wanderers, El Tanque Sisley, Bella Vista e River Plate na ponta, todos com três pontos em um jogo.

Mais deste colunista no @gabrieldudziak e no blog www.dynamodudziak.blogspot.com

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo