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Professar a fé, outra vez, foi imprescindível para o atleticano ver o Galo campeão

Ter fé. Uma capacidade nem sempre inerente ao ser humano, mas que é inseparável de qualquer torcedor de futebol. Sem fé, não se confia no impossível que pode, sim, acontecer. Sem ela, o atleticano seria menos feliz. Pois foi se apegando a crença que o Atlético Mineiro conquistou o seu maior título, a Libertadores de 2013. Sob o coro do “eu acredito” é que surgiram mais e mais milagres, contra Tijuana, Newell’s, Olimpia. Para coroar o Galo como o maior das Américas. E exatamente um ano depois daquele credo, a fé voltou a ser professada no Mineirão. Talvez tenha sido prêmio da devoção uma final de Recopa Sul-Americana tão boa que, outra vez, terminou com os atleticanos campeões, joelhos ao chão e mãos aos céus.

Por mais que a Recopa não tenha o peso de uma Libertadores, o Atlético a tratou como uma final de Copa do Mundo. A ânsia por mais um título continental era evidente entre os comandados por Levir Culpi. Assim como do outro lado, pelo Lanús. Os dois clubes já tinham disputado uma taça no passado, a Copa Conmebol de 1997, e a briga generalizada que aconteceu em campo daquela vez serve para relembrar os brios em se impor no continente. Desta vez, ainda bem, a luta foi apenas com a bola nos pés. Para uma final épica no Mineirão, com a vitória do Galo na prorrogação em noite de sete gols, por 4 a 3.

Tudo parecia se encaminhar para o sucesso do Atlético, ainda mais depois da vitória no jogo de ida. O pênalti que Ronaldinho abriu mão para Tardelli bater, converter seu 100º com a camisa alvinegra, deixava os anfitriões com a mão na taça logo nos primeiros minutos. Porém, não se podia relaxar naquela final, como o Galo fez. A euforia pelo gol permitiu o empate de Ayala logo na sequência. E Santiago Silva buscou a virada já caído no gramado, em uma sobra de bola. A vontade estava explícita ali.

O Atlético era melhor em campo. Fazia uma boa partida ofensivamente, embora tivesse dificuldades para encontrar brechas na sólida marcação do Lanús e vencer o ótimo goleiro Marchesín. O momento certo só veio aos 38 minutos do primeiro tempo, a partir de um cruzamento primoroso de Marcos Rocha. Maicosuel igualava o placar novamente. O jogo ia para o intervalo incrivelmente bom, com quatro gols em 45 minutos. Aquela emoção, no entanto, logo seria substituída pela tensão.

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Porque o Galo seguiu superior na etapa complementar. O Lanús saía mais para o ataque, mas também dava mais espaços para os mineiros atacarem. Ronaldinho quase fez um bonito gol, afastado pela zaga, enquanto Marchesín trabalhava bem. Pouco a pouco, o cansaço fez o Atlético perder R10, Tardelli, Maicosuel. Os contra-ataques eram mais constantes com o fôlego renovado, embora a falta de pontaria descompensasse tudo. E o Lanús partia para a pressão. Quando a fé do atleticano já tinha aquela pitada de desespero, o gol que todos temiam saiu aos três minutos de acréscimo. Nem o milagre de São Victor foi capaz de impedir o terceiro tento dos argentinos, com Acosta aproveitando o rebote. Como em muitos momentos da Libertadores 2013, céu e inferno se alternavam para o Galo. Daquela vez, ao menos, a sorte sempre estava ao lado dos alvinegros, no altar do Mineirão ou do Independência. Desta vez, viria a prorrogação.

Na base da crença, o Atlético refez o moral abalado no fim do tempo normal. Renovou as forças, ainda que pendesse em dores pelo jogo extenuante. Mesmo assim, a virada veio para consagrar o time, sem nem mesmo precisar dos pênaltis ou do terço de Victor. Com dois gols contra. Luan preparou a jogada para Gómez mandar contra as próprias redes, enquanto Ayala encobriu Marchesín em uma cabeçada incompreensível. Era uma noite de anjo e demônio para o meio-campista do Lanús. E de provação que chegava ao fim para o Atlético Mineiro.

O choro de Réver encostado na trave do Mineirão era o símbolo de mais um grande momento para a história do clube. O Atlético Mineiro se sagrou campeão continental mais uma vez, ainda que de um torneio secundário, mas com emoção e raça dignas de Libertadores. Para qualquer atleticano que viveu tão intensamente aqueles instantes, aliás, este não vai ser um título menor. A fé é inabalável, e só quem atravessou o caminho de provações de 2013 sabe qual o tamanho da graça que eles acabavam de alcançar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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