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Primeira amostra deixa evidente que Fifa não deixou legado em Minas

Imagina na Copa. Será? A Copa do Mundo dura um mês, e, seja legal ou ruim, ela termina rápido. É preciso imaginar na não-Copa, ou no que ela deixará ao modo como o futebol brasileiro trata seus torcedores quando não for partida de Mundial. E, no primeiro bom teste para isso, o tal legado foi bem pobre.

A final da Libertadores foi a primeira partida de enorme apelo disputada em um estádio do Mundial desde o final da Copa das Confederações. Era uma boa oportunidade para ver se os atleticanos que foram ao Mineirão poderiam se beneficiar de algum aprendizado brasileiro sobre como se organizar um jogo, desde a chegada até o retorno para casa. Para testar isso, a Trivela se misturou com a torcida do Atlético Mineiro na ida e retorno do estádio, e ficou fácil de identificar vários problemas.

O roteiro começou às 17h da quarta, no Mercado Central, por onde passaria o ônibus 64 – Santo Agostinho. A espera não foi complicada. O ponto não lotou e, após 18 minutos, o ônibus passou. E passou vazio, até deu para sentar. A jornada começou bem.

Aos poucos, o conforto foi sumindo. A cada ponto, vários passageiros entraram, muitos atleticanos. E, quando o ônibus deixou o centro de Belo Horizonte, já tinha gente suficiente para encher um setor do Independência. E os problemas começaram a ficar mais sérios.

Com o ônibus lotado, o motorista deixou de parar para pegar mais passageiros pelo caminho. E havia dezenas de pessoas, a maioria torcedores atleticanos rumando ao Mineirão, a cada ponto. Nenhum deles conseguia se aproximar do estádio por falta de capacidade do sistema de transporte público.

Já no Mineirão, mais problemas. Policiais, seguranças e orientadores do estádio até eram solícitos e educados, mas sofriam para dar informações corretas aos torcedores que queriam saber como chegar ao portão indicado em seus ingressos. Alguns chegaram a me abordar no desespero, e acabavam desabafando coisas como: “os cruzeirenses já se acostumaram a jogar aqui após a reforma e devem saber como as coisas funcionam. A gente [atleticanos] não joga aqui nunca, e ficou tudo diferente. Fico perdido aqui”.

Mas ficou pior. Uma multidão de alvinegros se concentrou em frente ao portão principal, interrompendo o trânsito em duas vias que davam acesso ao estádio. No entanto, a 200 metros e uma curva dali, os carros se enfileiravam no trânsito sem saber disso. Ninguém avisou os torcedores que aquela rua não iria mais andar.

Na saída do estádio, a situação ficou ainda mais crítica. Táxis e ônibus atenderam os torcedores imediatamente após a decisão (que demorou mais que o normal devido a prorrogação e pênaltis), mas, após as 2h, as opções eram quase nulas. Praticamente nenhum ônibus passava, e os táxis se negavam a pegar passageiros.

O resultado disso: milhares de atleticanos eram vistos vagando pelas ruas de Belo Horizonte no meio da madrugada, em busca de um táxi. Esses torcedores eram visto por toda a Avenida Antônio Carlos até o centro, em um caminho de alguns quilômetros. Um grupo que conseguiu um táxi resolver fazer paródia com o mantra da torcida atleticana e cantava “aaaah, eu acredito… no táxi!” para os outros torcedores na rua. Eu mesmo sofri com isso, pois fiquei mais tempo no estádio esperando a passagem dos jogadores pela Zona Mista. Dois repórteres do site da ESPN faziam companhia, todos com o mesmo problema até que, às 3h50, um taxista aparecesse.

No final, o único legado da passagem da Fifa pelo futebol mineiro foi o Mineirão reformado e confortável. Sem alma, caro e com tropeiro piorado (opinião de torcedores mineiros, mas eu achei bem decente para ser uma comida de estádio), mas confortável. A qualidade dos serviços de quem quer apenas ir e voltar de um estádio continua a mesma de antes. E quem vai a estádio de futebol no Brasil há anos sabe bem o que isso significa. Infelizmente.

Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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