Pior que a derrota para o Chile em Santiago foi a falta de futebol do Brasil
Desde o sorteio das Eliminatórias, o Brasil já sabia que teria uma pedreira pela frente logo nas primeiras rodadas. E não adiantou tentar se enganar, acreditar que poderia ser diferente. A Seleção começou mal a sua campanha rumo à Copa de 2018. Pior que a derrota por 2 a 0 para o Chile no Estádio Nacional de Santiago foi a atuação da equipe brasileira. Por mais que tenha amarrado a partida durante o primeiro tempo, em poucos momentos o time de Dunga pareceu próximo da vitória. Deu sorte em algumas chances desperdiçadas pelos chilenos, que acertaram a trave duas vezes. Mas acabou cedendo nos 20 minutos finais. Eduardo Vargas e Alexis Sánchez definiram o placar, com direitos a grito de olé.
Sem Neymar, Dunga apostou em uma escalação com jogadores de maior mobilidade. Mas só em teoria. O quarteto de frente formado por Willian, Oscar, Douglas Costa e Hulk não conseguia se infiltrar na defesa adversária. Até conseguia prender bem o jogo, trocando passes e evitando as virtudes chilenas com a bola. Mas era improdutivo. Para concluir as jogadas, o time abusava das bolas esticadas e dos cruzamentos em vão. A Seleção até ocupava as pontas, com Douglas Costa e Willian, mas era péssima na definição.
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O Chile, em compensação, também não fez um bom primeiro tempo. Tentava atacar de maneira mais vertical, com dificuldades de encadear as jogadas. Eduardo Vargas e Valdívia apareciam pouco, enquanto Arturo Vidal e Marcelo Díaz também não construíam bem o jogo no meio de campo. Não à toa, Jorge Sampaoli mexeu no time ainda na primeira etapa, tirando Francisco Silva da zaga para a entrada de Mark González. Já Dunga foi obrigado a queimar sua primeira troca com David Luiz, que se lesionou e deu lugar a Marquinhos.
Pouco antes do intervalo, o Chile teve sua primeira grande chance. Em trama rápida do ataque, Alexis Sánchez finalizou na trave. Já o Brasil tentou a resposta duas vezes com Hulk, que não deu tanto trabalho assim para Bravo. O pior aos brasileiros ainda estava por vir, em um segundo tempo extremamente burocrático.
O jogo ficou mais aberto na etapa complementar. Entretanto, o Brasil não conseguia dar sequência às jogadas nos espaços que o Chile oferecia. Não existia aproximação entre os jogadores, mesmo no meio de campo. Elias esteve em noite apagada, enquanto Oscar era o pior em campo, matando boa parte das jogadas e pouco se apresentando. Os talentos individuais não apareciam. O castigo, outra vez, só não se consumou por causa da trave. Em chute cruzado, Isla acertou o poste novamente. O gol chileno parecia apenas uma questão de tempo.
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A partir dos 20 minutos, La Roja começou a acertar mais suas trocas de passes, com o Brasil dando enormes brechas na cabeça de área. O caminho para a vitória do time de Sampaoli. O primeiro gol saiu aos 27, a parir de uma falta desnecessária de Luiz Gustavo na lateral. Matías Fernández cruzou e Eduardo Vargas apareceu dentro da área para desviar, sem que Jefferson conseguisse parar. A alternativa de Dunga para responder foi a entrada de Ricardo Oliveira, que até teve uma chance, mas não alcançou a bola. Muito pouco para a Seleção, que já ouvia os gritos de olé da torcida chilena.
Já aos 44, o golpe de misericórdia veio em bela jogada coletiva dos chilenos que começou desde o seu campo de defesa, quando o Brasil já tinha se aberto trocando Luiz Gustavo por Lucas Lima. Pegando a zaga completamente aberta, Vidal rolou na saída de Jefferson. Alexis Sánchez dominou livre e tentou duas vezes até balançar as redes. A câmera tremeu na comemoração. Pela segunda vez em sua história, o Chile venceu a Seleção nas Eliminatórias. A primeira havia acontecido em agosto de 2000, ainda sob o comando de Vanderlei Luxemburgo: 3×0 para a Roja, com Marcelo Salas e Iván Zamorano balançando as redes.
O Chile reafirma seu favoritismo nas Eliminatórias. O time de Jorge Sampaoli até já fez exibições melhores, mas o ótimo trabalho coletivo no ataque valeu a vitória no segundo tempo. Justamente o que não se viu no Brasil. Se perder para o atual campeão da Copa América fora de casa não é necessariamente um vexame, a vergonha se concentra na maneira como a Seleção atuou. O time de Dunga só teve sucesso quando se propôs a amarrar o jogo. Quando precisou construir jogadas ou partir para cima, foi nulo, com o péssimo trabalho de equipe afetando muitas atuações individuais. Quase ninguém se salvou, e outros se queimaram muito. Por sorte, o jogo contra a Venezuela no Castelão serve para acalmar o ambiente. Mas não serve para construir o time que se espera para a sequência da competição.



