Os 60 anos de Rodolfo Rodríguez, o goleiro maior que o gol e que o grande milagre
Para qualquer goleiro que se preze, os 20 segundos servem de cartilha. Rodolfo Rodríguez exibiu, em um único lance, quase todas as virtudes que um grande camisa 1 deve ter. A sequência de milagres na área enlameada da Vila Belmiro é obrigatória em qualquer lista de melhores defesas da história. E resume muito bem o quanto o paredão uruguaio jogava, embora também limite um bocado sua gigante trajetória. Maior ídolo do Santos na década de 1980, ao lado de Serginho Chulapa, “Rodolfaço” foi muito mais do que o arqueiro impossível do título de 1984. Também se coloca entre os maiores da história do Nacional e da seleção uruguaia. Lenda que completa 60 anos nesta quarta.
Nascido em Montevidéu, Rodolfo Rodríguez nem pensava em ser goleiro. Seu sonho mesmo era se tornar advogado. Vindo de uma família simples, trabalhou durante a infância ajudando o pai a pintar paredes e vendeu carnes em um frigorífico. Os treinos no Cerro serviam apenas de passatempo. Mas o talento do craque aflorou se inspirando no brasileiro Manga, quando este defendia o Nacional, time de coração do uruguaio. A partir de então, o jovem decolou. Em 1975, foi o destaque do Uruguai no título do Campeonato Sul-Americano juvenil. Ainda assim, manteve o emprego no frigorífico. Só largou no ano seguinte, quando o próprio Nacional o procurou e lhe deu certeza do futuro. Chegou como um possível herdeiro de Manga.
Rodolfo Rodríguez demorou pouco para se tornar um grande ídolo dos tricolores. Em 1977, ergueu o Campeonato Uruguaio com o Nacional e começou a aparecer frequentemente na seleção principal. Era uma das referências do clube, que despontava também no continente. Em 1980, veio seu grande título. Em um timaço que também contava com De León e Victorino entre as referências, o Bolso faturou a Libertadores, derrotando o Internacional de Falcão na decisão. Em dezembro, ainda levantaria a taça do Mundial Interclubes, batendo o Nottingham Forest de Brian Clough.

Voando na meta do Nacional, Rodolfo passaria a acumular feitos também pela seleção. A Celeste não se classificou para a Copa de 1982, mas o goleiro foi o capitão na emblemática conquista do Mundialito diante de sua torcida no Centenário – em momento importantíssimo para a história do país. Em 1983, também levou os uruguaios ao topo da Copa América. Chegou a pegar um pênalti aos 43 do segundo tempo na semifinal contra o Peru, antes de barrar o Brasil na decisão. E, enfim, teria a chance de disputar uma Copa do Mundo, ao servir de pilar nas Eliminatórias da Copa de 1986.
Àquela altura, Rodolfo Rodríguez já havia deixado o Nacional como um dos maiores goleiros da história do clube. Em 1984, aceitou a proposta do Santos para jogar no Brasil. E sob grande responsabilidade, já que o próprio Pelé emprestou US$ 20 mil no negócio. Não decepcionou. Logo nos primeiros meses na Vila, fez o aclamado milagre contra o América de São José do Rio Preto. “Ele é maior que o gol”, bem definiu Tarciso, um dos atacantes barrados pelo uruguaio. E aquele momento histórico acabou sendo um dos pontos altos na campanha do título do Peixe.
Em 1985, viveria dois momentos emblemáticos com o Santos. Durante um jogo contra o Marília, foi aplaudido após tomar um frango. Reconhecimento dos alvinegros diante do esforço do arqueiro, que atuava com uma distensão. E o camisa 1 ainda experimentou a estranha sensação de enfrentar a própria seleção uruguaia, na decisão da Copa Kirin. Apesar dos sentimentos divididos, o camisa 1 fez o seu trabalho e ajudou o Santos a vencer por 4 a 2, garantindo a taça no torneio japonês.
Só que o grande momento de Rodolfo Rodríguez com o Uruguai nunca aconteceu. Aos 30 anos, ele chegou à Copa do Mundo no auge. E liderava um elenco forte da Celeste, tida como favorita: Enzo Francescoli, Carlos Aguilera, Rubén Paz e Darío Pereyra eram as outras referências. O goleiro, no entanto, sequer pôde entrar em campo. Sofreu uma lesão às vésperas do torneio, que deixou Fernando Alvez como titular. De maneira sádica, Rodolfo assistiu a tudo do banco de reservas. Quem sabe com ele, os 6 a 1 da Dinamáquina nunca teriam acontecido. Ou a eliminação para a Argentina de Maradona nas oitavas de final.

Depois disso, o veterano encerrou a sua carreira na seleção. Despediu-se com 78 jogos oficiais, recorde só quebrado por Diego Forlán em 2011 – e 54 deles como capitão, marca superada por Lugano, também em 2011. Rodolfo passou mais dois anos no Santos, como ídolo absoluto, antes de tentar a sorte no Sporting. Depois de duas temporadas em Portugal, ainda defenderia Portuguesa e Bahia – em passagem mais lembrada pelos cinco gols do menino Ronaldo em duelo contra o Cruzeiro. Aos 38 anos, era o momento de parar.
Mais do que um grande goleiro, Rodolfo Rodríguez também se destacava pela inteligência. A postura de alguém que observava o futebol além do jogo. “Ser goleiro forma uma personalidade diferente. Está sempre sozinho, observando, esperando o que vai acontecer. É complicado sobreviver nessa posição. Mas goleiro tem tempo para observar e analisar o que está acontecendo, tem panorama geral. E isso pode ser levado para a vida fora do campo”, afirmou . Não à toa, quando se aposentou do esporte, voltou ao Uruguai para realizar o seu sonho de criança, formando-se em Direito.
Aos 60 anos, Rodolfo Rodríguez continua como um grande exemplo para os goleiros. Até por estar à frente de seu tempo. Prova disso? Olha só a declaração que ele deu em entrevista à revista Placar de fevereiro de 1984, em sua chegada ao Santos. “A posição de goleiro é a que mais pode evoluir no futebol. Os goleiros mostraram que têm uma visão mais panorâmica da área, estão saindo mais do gol, fechando mais o ângulo. E estão começando a jogar de líbero quando a situação exige. Se é goleiro de um time grande, ele tem que jogar como líbero para neutralizar os contragolpes, pois a equipe vai estar sempre pressionando o adversário, toda à frente. E ele é o último homem”. O que fez Manuel Neuer ser taxado como revolucionário na Copa de 2014 já era antevisto pelo craque uruguaio 30 anos antes.




