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O roteiro sádico que fez o Galo sair do Morumbi quase classificado

Em alguns momentos a história de um jogo parece escrita por um sádico, que assiste da poltrona a reação dos torcedores. A noite de quinta-feira revelou um desses roteiros intensos, com viradas e detalhes que mudam completamente a realidade que se vê. O público era o maior do São Paulo na Libertadores, uma audiência suficiente para um espetáculo que estava por vir.

Os torcedores viam o cenário se repetir. O mesmo adversário, o Atlético, naquele estádio imenso e com um time renascido. Minutos de euforia se seguiram ao apito inicial, que teve um São Paulo com a mesma intensidade daquele derradeiro jogo que fechou as cortinas da fase de grupos e manteve o time vivo, pulsando. A superioridade são-paulina era tamanha que um desavisado diria que o melhor time da primeira fase era o de branco, não o de camisa listrada em preto e branco. O gol de Jadson depois de uma boa jogada da direita, com Ganso em um lance digno daquele jogador que parecia tão promissor há três anos, parecia indicar que o roteiro do último encontro se repetiria.

Só que há formas de se mudar uma partida em detalhes sórdidos, que farão o sádico criador do enredo se divertir diante do desespero pela mudança súbita de cenário. A lesão de Aloísio foi o primeiro baque do tricolor do Morumbi, que viu um jogador raçudo, ainda que limitado, deixar o gramado. Mais do que sua saída, a entrada de Ademilson daria contornos ainda mais cruéis ao embate.

O jovem camisa 11 entrou em uma situação complicada, em um jogo difícil, mas o cenário ainda não era dos piores. O time vencia por 1 a 0 e fazia uma partida incrível, como poucas vezes no ano. Era uma chance para consagrar-se, entrar e marcar um gol, como, aliás, foi também no último encontro entre os dois – Ademilson entrou no segundo tempo do jogo contra o Galo, aproveitou uma boa jogada e completou para o gol para decretar o placar de 2 a 0. Mas dessa vez o destino não seria tão abençoado para o jogador.

Ademilson teve três chances de gol em 26 minutos. Duas delas claras oportunidades para estufar a rede e vibrar com o grito de 57 mil pessoas. O desperdício de chances dava àquele torcedor desconfiado a sensação que aqueles tentos fariam muita falta no final. E o arrepio de desconfiança ficou ainda maior quando viu um dos jogadores mais experientes do time cometer uma falta absolutamente estúpida e violenta, mesmo já tendo um cartão amarelo. O cenário amplamente favorável ao São Paulo em campo e no psicológico começava a ser derrubado. Ao ver o árbitro levantar o braço segurando o cartão vermelho, alguns jogadores são-paulinos levaram as mãos à cabeça. Simbólico ato de desespero por saber que o sacrifício que o time fazia poderia não ser suficiente. Ademilson viu a chance de se consagrar ir por água abaixo quando seu número apareceu na placa de substituição. Era ele o sacrificado para recompor a defesa com Rhodolfo.

Apesar da superioridade até ali, o São Paulo sabia que o Atlético era um time melhor. E aquela aplicação era exatamente por isso. A garra e organização, aliadas às boas qualidades técnicas que o time tem em alguns jogadores, como Jadson, Ganso e Osvaldo, poderia levar o time a uma vitória categórica sobre um rival que tinha contra si o peso de não jogar esse tipo de decisão há muitos anos – o que leva inevitavelmente a uma pressão grande. Mas a esperança estava distante da realidade do gramado.

A expulsão já tinha sido um golpe no São Paulo, e o Atlético viu uma chance de fazer valer a sua característica de jogo de passes rápidos e qualidade técnica pelos lados do campo. Conseguiu um escanteio em uma jogada rápida pelo lado, com Diego Tardelli. A boa foi para o quarto de círculo quando o relógio já marcava 41 minutos do segundo tempo e a partida intensa do São Paulo já não existia mais. Àquela altura, o Galo já era melhor, exercia domínio no meio-campo e fazia o São Paulo ter que se esforçar ainda mais para evitar que o jogador a mais do adversário significasse mais espaço dentro da sua defesa. O esforço era grande, mas o golpe veio com um lance inesperado.

A bola na cabeça de Ronaldinho, na segunda trave, aproveitando a desatenção de Paulo Miranda, jogou a bola no canto contrário de Rogério Ceni, que não se mexeu. A bola na rede invertia todo o ambiente criado nos primeiros minutos do jogo. A vantagem psicológica do time com tradição de chegar longe na Libertadores, com seu estádio cheio e um time jogando no limite sucumbiu a uma expulsão imbecil de um zagueiro de três Copas do Mundo e 13 anos de Europa, somado à competência de um time que é bem armado e soube explorar o abalo na confiança do mandante. O gol de empate antes do intervalo jogou um balde de gelo em um cozido que já não estava tão quente.

O terceiro strike veio ainda quando havia alguma esperança, quando os torcedores do time da fé ainda imaginavam uma partida épica do time, de uma aplicação sobre-humana para levar uma vitória suada, mas uma vitória para o jogo de volta. O que se viu foi um novo golpe nas pretensões de um time que já se cansava de tanto correr atrás dos constantes passes dos atleticanos no meio-campo. O passe de Marcos Rocha que encontrou Diego Tardelli para encher a rede de Rogério Ceni e colocar o 2 no placar para o Galo decretou a virada que parecia tão improvável naquele início de confronto. A confiança são-paulina do início do jogo contrastava com a cabeça baixa logo após o gol.

O Atlético de nervoso e deslocado em um estádio cheio contra um adversário que conhece o caminho das pedras na competição sul-americana sem precisar de GPS, Google Maps ou mesmo aqueles velhos guias com mapas em papel, passou a um time dominante e ciente que era preciso fazer o adversário se desgastar na marcação intensa que faziam. Tal qual um tenista explorando o cansaço adversário, jogava a bola de um lado para o outro, exigindo que o cansado rival chegasse com cada vez menos fôlego para evitar o ponto.

Soberano no estádio do time que se denomina assim, o Galo ficou perto de dar um novo golpe na confiança e na esperança tricolor quando Rosinei ficou a centímetros de impor uma derrota ainda maior – e que não seria nem um pouco exagerada. O Atlético é um time muito forte e capaz de enfrentar qualquer adversário da Libertadores e soube aproveitar a brecha que teve para evitar que uma das poucas coisas que pode lhe tirar as virtudes, a falta de conhecimento e experiência para chegar às fases decisivas da Libertadores. Mostrou que não é só vingador. É forte, técnico e capaz de decidir, mesmo na casa do adversário, mesmo com o estádio cheio, mesmo com o adversário tendo começado tão melhor.

A classificação do Atlético não está definida, porque o futebol tem esses roteiros capazes de fazer o mais ateu dos torcedores dar graças a Deus por milagres inesperados. Mas será preciso mais do que um golpe de sorte. Só mesmo se esses sádicos que escrevem os roteiros do futebol quiserem trazer mais algumas surpresas, algo do nível do “season finale” da quarta temporada de Dexter. Não é toda hora que acontece.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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