América do Sul

O Rentistas vive um conto de fadas no Uruguai: treinado por um tabelião, foi da segundona ao título inédito no Apertura

A quarta-feira guardou um desfecho histórico ao Apertura do Campeonato Uruguaio. O Paisito ganhou um novo campeão em seus torneios curtos, com o título do Rentistas. O Bicho Colorado havia terminado a competição igualado ao Nacional no topo da tabela, o que forçou um jogo de desempate no Estádio Centenário. E a surpresa preponderou, com uma vitória assegurada na prorrogação. Diego Vega acertou um lindo sem-pulo e determinou a vitória por 1 a 0. Com a conquista, o Rentistas ganha o direito de disputar as semifinais do campeonato ao final da temporada, para tentar se proclamar campeão nacional – apesar da competição dividida em Apertura e Clausura, o Uruguai considera apenas um vencedor por ano.

Fundado em 1933, o Rentistas apareceu pela primeira vez na elite do Campeonato Uruguaio na década de 1970. Era um time modesto que ganhou projeção especialmente na década de 1990, quando recebeu investimentos. Os colorados, inclusive, quase conquistaram o Torneio Clausura em 1998. Chegaram à última rodada na liderança, mas deixaram a taça escapar, ultrapassados justamente pelo Nacional. Foi o maior momento da equipe, que atravessou as últimas duas décadas oscilando entre a primeira e a segunda divisão. Neste período, o Rentistas também passou a ser usado pelo empresário Juan Figer para abrigar os contratos de seus jogadores e garantir lucro em seus negócios.

Presente na Copa Sul-Americana em 2014, o Rentistas seria rebaixado em 2016 e demoraria a voltar à elite. Foram três tentativas até o acesso conquistado em 2019, nos playoffs da segundona. Assim, o título do Apertura não surpreende apenas pelo ineditismo, mas também pela promoção recente dos colorados. Numa edição do Campeonato Uruguaio em que Peñarol ou Nacional não engrenaram, o Rentistas ocupou o topo da tabela desde as primeiras rodadas. A vitória sobre o Nacional logo na estreia impulsionou o time, que assumiu a liderança na terceira partida. E nem a pausa de cinco meses por causa da pandemia derrubou o Bicho.

Apesar do excesso de empates, o Rentistas permaneceu invicto por 12 jogos no Apertura, o que manteve sua liderança. A única derrota aconteceu contra o Cerro, fora de casa. Foi neste momento em que o Nacional aproveitou para tomar a primeira colocação, a duas partidas do fim. Ainda assim, o Bicho Colorado se emparelhou ao Bolso na penúltima rodada e, com o empate de ambos no último compromisso, a partida extra se tornou mandatória para definir o campeão. Melhor aos pequeninos, que se sobressaíram no confronto direto.

O favoritismo era do Nacional, mais embalado nas semanas recentes e com uma folha salarial sete vezes maior, apesar de desfalques importantes à partida decisiva. Ao longo do tempo normal, o Bolso até pareceu mais próximo da vitória, por mais que o Rentistas controlasse melhor a bola. Os tricolores forçaram boas defesas do goleiro Yonatan Irrazábal e tiveram um tento anulado durante o primeiro tempo. Entretanto, aos 31 da segunda etapa, o gigante ficou com um homem a menos. Matías Suárez recebeu o segundo amarelo e saiu às lágrimas. O Rentistas, então, aproveitou a vantagem numérica logo no início da prorrogação.

O gol da vitória saiu aos dois minutos do primeiro tempo extra, num sem-pulo cruzado de Vega após o ótimo cruzamento do capitão Andrés Rodales. Apesar da tentativa de abafa do Nacional, o Bicho ficou até mais próximo do segundo gol nos contragolpes. Os colorados trabalharam melhor os passes e com isso deixaram os adversários mais desgastados. O apito final desencadearia uma enorme comemoração pelo feito dos nanicos.

O título não classifica o Rentistas automaticamente à sua primeira participação na Copa Libertadores, mas o caminho é bem mais curto, com a vaga na fase final do Campeonato Uruguaio. O Bicho se garante ao menos na semifinal da liga, encarando o campeão do Clausura, antes da finalíssima contra o time de melhor campanha geral. Se os colorados terminarem com o máximo de pontos ao final do campeonato, poderão ser campeões nacionais se baterem os vencedores do Clausura. Também serão campeões antecipados se unificarem os títulos nos torneios curtos, com vitória no Clausura.

Técnico do Nacional, Gustavo Munúa acabou demitido com a derrota – mesmo classificado às oitavas da Copa Libertadores. Já o comandante do Rentistas, Alejandro Cappuccio, não quebrou a rotina no dia seguinte à conquista. Além de treinador, ele também trabalha como tabelião em um escritório de Montevidéu. Mesmo campeão, o técnico seguiu uma manhã cotidiana nesta quinta: tomou café com sua esposa, acordou os filhos para estudar e saiu ao trabalho no tabelionato. O celular, entretanto, registrava 948 mensagens parabenizando pela façanha.

Aos 44 anos, Cappuccio chegou a atuar nas categorias de base do Nacional, mas a carreira nos gramados não prosperou. Frustrado com a dispensa, o zagueiro focou nos estudos, recusando propostas para se testar em clubes como Defensor e Wanderers. Formou-se em Educação Física e Direito com graduações paralelas, e até exerceu a advocacia por três anos, mas não encontrou prazer na profissão. Em 2000, virou tabelião, mas sua paixão pelo futebol prevaleceria. “Eu queria estar no futebol. O dia a dia é muito gostoso, a profissão de tabelião é muito sistemática. Não é o que estudei para realização pessoal, mas tenho que agradecer à vida porque é minha principal renda. Minha realização pessoal é o futebol. Não pude ser jogador, tentei como professor e não gostei, agora estou deste lado”, explicou, em entrevista ao jornal La Diária.

Como técnico, Cappuccio treinou o Fénix e as categorias de base de diversos clubes da primeira divisão, inclusive do Peñarol – onde chegou a lapidar Facundo Pellistri, recém-vendido ao Manchester United. Isso até mudar a sua história (e a história do Rentistas) nos dois últimos anos, contratado à segundona em agosto de 2018. Mesmo à frente da equipe principal do Bicho ou depois do acesso à primeira divisão, o treinador não largou o escritório no qual é sócio – conciliando os treinos de manhã com o tabelionato à tarde. Agora, é cotado inclusive para assumir o lugar de Munúa no Nacional.

Cappuccio é descrito como um treinador minucioso e que planifica bem a estratégia de seu time para os jogos. O coletivo prevaleceu na campanha regularíssima, com 28 pontos conquistados no Apertura. Um de seus grandes méritos, de qualquer maneira, se concentra na montagem do elenco. O treinador aproveitou seu conhecimento adquirido na base para contratar antigos talentos que notava nos adversários. Não à toa, oito atletas relacionados para o jogo-desempate eram provenientes das canteras do próprio Nacional. Seis deles entraram em campo, incluindo o herói Vega – que foi até mesmo gandula do Bolso na juventude.

A principal figura do Rentistas, Alexis Rolín, é outro ex-Nacional. O zagueiro fez uma partidaça no Centenário, anulando Gonzalo Bergessio – seu companheiro nos tempos de Catania. Além de ter defendido os tricolores, Rolín passou por clubes como o Boca Juniors e o Olimpia. Também foi titular da seleção uruguaia sub-23 nas Olimpíadas de Londres em 2012. Outro destaque foi seu companheiro de zaga, Maximiliano Falcón, que chegou a ser dispensado pelo Nacional. Já o meio-campista Santiago Romero, um dos favoritos da torcida colorada, compôs o elenco do Bolso em cinco títulos uruguaios. Passou sem brilho pelo Fortaleza em 2019 e, neste ano, se juntou ao Rentistas para erguer uma nova taça.

A conquista do Rentistas ainda homenageia José “Pino” Marciano. O vice-presidente do clube foi a vítima número 12 da COVID-19 no Uruguai. Sua memória também serve para lembrar como, apesar da felicidade pelo título inédito, há um peso no peito inerente pelo momento. O Bicho tem motivos para se orgulhar, claro, e para fazer ainda mais no Clausura. A um clube que nunca tinha erguido uma taça acima da terceira divisão e que possui uma folha salarial de US$70 mil por mês, o Apertura carrega um significado gigante. É um conto de fadas em meio a uma realidade que não permite tantos sonhos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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