América do Sul

O que explica o vexaminoso rebaixamento do Alianza Lima, fora da elite peruana pela primeira vez em 80 anos

Um dos clubes mais populares da América do Sul, o Alianza Lima disputará a segunda divisão peruana, fato inédito na era profissional do futebol de seu país. Os aliancistas viveram o desfecho de uma temporada caótica neste sábado, consumando o rebaixamento na Liga 1. Os Potrillos disputaram todas as edições da elite nacional desde 1940, com o único rebaixamento anterior ocorrido em 1938, quando o futebol peruano ainda era amador. E a federação local já negou a possibilidade de uma virada de mesa, como se começou a especular logo após o vexame.

O Alianza Lima não indicava uma crise nessas proporções durante as últimas temporadas. Pelo contrário, a equipe se manteve no topo do país durante as edições recentes do Campeonato Peruano. Conquistou o título em 2017, chegando ao vice em 2018 e 2019. Tanto é que os aliancistas disputaram a Copa Libertadores em 2020. O clube investiu em treinadores renomados durante os últimos meses, que não deram resultado. Assim, os Potrillos entraram em uma espiral e viram seus desempenhos se tornarem cada vez piores.

As maiores críticas na imprensa peruana se concentram sobre o Fondo Blanquiazul, grupo investidor que administra o clube desde 2019. Apesar do pagamento das dívidas e do saldo positivo nas finanças, a diretoria mudou diversos nomes importantes na engrenagem interna e não tomou decisões necessárias para melhorar o rendimento do futebol. Num time que não correspondia em campo, os aliancistas se entregaram à péssima sequência e amargarão seu pior momento neste século. O Fondo Blanquiazul apagou sua conta no Twitter depois do descenso.

Antigo técnico da seleção peruana e campeão com o clube em 2017, Pablo Bengoechea terminou 2019 à frente do Alianza e seguiu para 2020. Ele ficaria à frente do time durante as primeiras seis rodadas da Liga 1. Com apenas duas vitórias neste período, pediu demissão e surpreendeu seus superiores. O uruguaio dizia que os jogadores não o ouviam mais. Logo depois, o Campeonato Peruano foi interrompido pela pandemia. Neste momento, os aliancistas buscaram um substituto renomado: Mario Salas, que foi campeão com o Sporting Cristal em 2018 e também fez um grande trabalho anterior na Universidad Católica.

Salas foi contratado em abril, mas só conseguiu chegar em julho, com as fronteiras fechadas em decorrência da pandemia. Seriam 19 jogos sob as ordens do chileno, que terminou num insuficiente 12° lugar no Apertura, mas ainda cinco pontos acima da zona de rebaixamento. Porém, acumulando maus resultados também na Libertadores e sem convencer os atletas com suas ideias, Salas perderia o emprego na segunda rodada do Clausura – quando vinha de uma sequência de seis derrotas, somando todas as competições.

Já no início de novembro, o Alianza Lima deu o cargo a Daniel Ahmed. Por anos à frente das seleções de base peruanas, o argentino desempenhava o mesmo papel nos Potrillos, até ser convocado como bombeiro. Não deu jeito no drama, com mais cinco derrotas em seis compromissos pelo Clausura. Curiosamente, a única vitória aliancista no Clausura aconteceu durante a mudança de comando, com o interino Guillermo Salas à frente dos 4 a 0 sobre o Melgar fora de casa. Nada suficiente para evitar a queda.

Vale dizer ainda que o Alianza investiu bastante em reforços para 2020, com a contratação de jogadores com passagem recente pela seleção local, o que o alçava ao posto de favorito no início do campeonato. Entretanto, boa parte deles não rendeu como o esperado (alguns com problemas de indisciplina) e o clube ainda se desfez de nomes importantes durante a pandemia. Não pareceu haver um projeto esportivo na montagem do elenco. Também pesou o desgaste físico, com a Libertadores pelo caminho. Os aliancistas chegaram a disputar quatro jogos na mesma semana. E não que o torneio continental representasse um sucesso: com 22 partidas consecutivas sem vencer, a agremiação igualou o recorde negativo do torneio.

O Alianza somou míseros quatro pontos em nove rodadas do Clausura. Com os 22 pontos conquistados no Apertura, o time fechou a tabela acumulada com 26 pontos. Foi o antepenúltimo no geral, entre os três rebaixados à segundona, ao lado de Atlético Grau e Deportivo Llacuabamba. Se a defesa aliancista não foi um desastre total, com 36 gols sofridos, o ataque terminou como o segundo pior da liga, com 28 tentos anotados. Os Potrillos tiveram parcas seis vitórias ao longo de 28 rodadas, com 14 derrotas.

O Alianza Lima ainda começou a última rodada fora da zona de rebaixamento. O Carlos Stein era o principal concorrente dos aliancistas neste momento, com o time igualado na pontuação, mas em desvantagem pelo saldo de gols. Jogando no Estádio Monumental U, casa do Universitario (o maior rival do Alianza), o Carlos Stein cumpriu sua missão ao empatar com a UTC por 1 a 1. Assim, terminou o Campeonato Peruano um ponto à frente dos Potrillos, que pegaram o Sport Huancayo no Estádio Nacional de Lima e perderam por 2 a 0. Carlos Ascues, apontado como um dos símbolos da falta de comprometimento dos jogadores, ainda desperdiçou um pênalti. A humilhação estava completa.

Logo depois da derrota, o Alianza Lima publicou uma carta aos torcedores, pedindo desculpas pelo descenso. “Hoje nos unimos em uma só dor ao enfrentarmos este lamentável resultado para nosso clube. O campeonato de 2020 será lembrado pelos aliancistas como a campanha mais adversa dos últimos anos, entre outras razões, por decisões do clube que poderiam ser melhores e por ter acontecido em uma temporada de crise global na qual ocorreram situações de incerteza. Por isso, pedimos perdão e assumimos nossa responsabilidade pelos erros cometidos”, escreveu o clube.

O Alianza ainda prometeu uma reestruturação para que o rebaixamento “não se repita nunca mais” e para que o time volte à elite o mais rápido possível. A primeira mudança veio com o pedido de demissão do diretor esportivo Víctor Hugo Marulanda, referendado como uma das lideranças no Atlético Nacional que faturou a Libertadores em 2016. “O compromisso e apoio de nossos torcedores é o que nos mantêm motivados, geração após geração, para seguir buscando ser melhores. Vamos dar tudo para manter no alto o nome do nosso clube. Hoje, mais que nunca, devemos voltar a nossas raízes. Em um momento como esse, os princípios e valores têm que estar bem assentados, porque a derrota dói na alma, mas é momento de reafirmar nosso aliancismo. Voltaremos mais fortes”, conclui o comunicado.

Nas horas seguintes, surgiu um boato de que a federação peruana estava preocupada com as consequências financeiras da queda do Alianza Lima e que poderia mudar o regulamento, para que um quadrangular fosse disputado na tentativa de salvar o clube. Ao jornal El Comércio, um funcionário da entidade descartou essa possibilidade. No próximo ano, o número de equipes na primeira divisão será reduzido de 20 para 18 participantes. Em compensação, o próprio Alianza deseja o tapetão. Nas horas posteriores à derrota, o clube apresentou uma queixa à federação pedindo os pontos do jogo, alegando que o Sport Huancayo não cumpriu os protocolos sanitários.

O Universitario aproveitou o descenso para tirar uma casquinha dos rivais, se proclamando o maior clube do país por nunca ter sido rebaixado. Entre os maiores campeões nacionais, o Sporting Cristal também nunca caiu. Um dos símbolos do Alianza, o goleiro Leao Butrón também publicou uma carta aos torcedores. O arqueiro de 43 anos está em sua segunda passagem pelo clube, defendendo a meta dos Potrillos desde 2015. “Não quero tirar minhas responsabilidades como um dos capitães, sinto que não estive no nível que se deve ter para vestir esta camiseta, mas também me sinto com a tranquilidade e a consciência tranquila de saber que nunca sumi ante as dificuldades e tentei, por todos os meios, reverter essa situação, dentro e fora de campo”, apontou.

Ainda no sábado, um grupo de torcedores esteve presente no Matute, o estádio do Alianza, para manifestar seu amor ao clube. O time deve passar por um período de transição, até para readequar sua realidade à segunda divisão, mas o peso aliancista é muito grande para imaginar uma longa estadia longe da elite. Mesmo com a diminuição no número de participantes na primeira divisão, a estrutura dos Potrillos permite acreditar no retorno imediato. O maior questionamento fica mesmo sobre a atual gestão, se terão a autocrítica necessária para reconhecer os erros e perceber que é preciso entender um pouco mais dos mecanismos do futebol para fazer a roda girar.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo