América do Sul

O Peñarol x Nacional teve de tudo: emoção, confusão, sete expulsos e o primeiro clássico vencido pelos aurinegros no novo estádio

Peñarol e Nacional disputaram mais um clássico neste domingo, daqueles confrontos que não se encerram quando o apito termina de soar. Os rivais fizeram uma partida emocionante no Estádio Campeón del Siglo, com a primeira vitória dos aurinegros sobre os tricolores dentro de sua nova casa. Porém, o triunfo por 3 a 2 não se concentra no placar. Num jogo sem o auxílio do VAR, a arbitragem cometeria erros aos dois lados, mas que acabaram sendo mais prejudiciais ao Bolso. Além disso, o pau também cantaria em Montevidéu, com uma confusão generalizada que provocou a expulsão de seis jogadores na saída de campo. O triunfo nem valeu tanto assim aos carboneros, já que os rivais avançaram às finais do Torneio Intermédio de qualquer maneira. Como consolo, foi um clássico para marcar a eclosão do talentoso garoto Facundo Torres com a camisa do Peñarol.

As polêmicas começaram desde antes do apito inicial. As arquibancadas do Campeón del Siglo receberam cerca de 20 torcedores do Peñarol, que ganharam permissão para pendurar faixas e bandeiras nas tribunas. Porém, eles começaram a gritar e a provocar o Nacional durante a entrada em campo. A ação pode gerar uma punição aos aurinegros, pela quebra do protocolo sanitário, com pessoas não-autorizadas entre os presentes. Os tricolores não estiveram dentro do estádio, mas provocaram do lado de fora: um avião sobrevoou o gramado, lembrando das finais vencidas pelo Bolso na última temporada. Além disso, havia um clima quente até mesmo entre os representantes dos clubes autorizados a ver nas tribunas.

Quando a bola rolou, aquela tensão ao redor se reproduziu no gramado. Os goleiros Sergio Rochet e Kevin Dawson realizaram boas defesas logo nos primeiros minutos. Mais do que isso, o clássico não precisou de muito para ficar pegado – como reclamações de pênalti logo cedo e uma porção de pancadas sem a bola. A partir dos 28 minutos, o Peñarol superou as rusgas para abrir vantagem. Fabricio Formiliano anotou o primeiro gol, cabeceando uma cobrança de falta levantada na área. Nove minutos depois, David Terans ampliou, aproveitando um belo giro de Cebolla Rodríguez na linha de fundo.

O clássico parecia nas mãos do Peñarol neste momento. Foi quando o Nacional acordou. O Bolso descontou no final do primeiro tempo. Gabriel Neves arriscou de fora da área e a bola desviou no meio do caminho, saindo do alcance de Dawson. Já o empate veio logo no primeiro lance da segunda etapa. Os tricolores deram a saída no meio-campo e já partiram ao ataque. Chory Castro recebeu o lançamento em profundidade e passou para Santiago Rodríguez marcar aos 11 segundos. O detalhe é que Castro já estava no campo adversário antes do pontapé inicial, mas a arbitragem não assinalou a invasão. De beneficiado, o Nacional passou a prejudicado pouco depois. Foram duas penalidades reclamadas pelos tricolores por toques de mão, além de uma cotovelada de Cebolla Rodríguez que passou batida.

O Peñarol também reagia e buscava a vitória. Facundo Torres protagonizava a maioria das jogadas dos carboneros e só era brecado com pancadas. As faltas sobre o camisa 10 passaram a gerar vários cartões amarelos ao Nacional, e mesmo assim o garoto de 20 anos não se intimidava. Os aurinegros cresceram com a entrada do estreante Ariel Nahuelpán e o argentino chegou a perder um gol feito. O lance decisivo, aos 43, caberia a Torres. O garoto recebeu um lançamento longo dentro da área, mas foi empurrado por trás. Pênalti, que Agustín Álvarez cobrou. Herói do Nacional na Libertadores, Rochet defendeu a cobrança, mas Ariel marcou no rebote. O problema é que houve uma invasão na área e a arbitragem ignorou, permitindo a vitória dos anfitriões.

Já no fim, Dawson evitou o empate com o milagre. Sebastián Fernández desferiu uma cabeçada à queima-roupa e o arqueiro do Peñarol conseguiu espalmar, em tiro que ainda resvalou na trave. Os aurinegros emendaram um contra-ataque e, quando Facundo Torres saía sozinho rumo à meta adversária, Gabriel Neves deu um carrinho por trás. Recebeu o vermelho direto e fez a violência descambar no clássico. Nas arquibancadas, já havia confusão entre os funcionários de ambos os clubes. E o apito final desencadeou uma briga, com empurrões aos dois lados. O árbitro resolveu expulsar três de cada time – Rochet, Pablo García e o reserva Santiago Cartagena no Nacional, além de Formiliano, Robert Herrera e Jonathan Urretaviscaya no Peñarol, os dois últimos, após terem sido substituídos. Apesar do clima mais brando no gramado, o tumulto seguiu aos vestiários, com os jogadores tricolores contidos pelos seguranças e pela polícia no túnel de acesso.

Com 15 pontos, seis a mais que o Peñarol, o Nacional tinha se garantido na decisão do Torneio Intermédio. O Bolso pegará o Montevideo Wanderers. Os tricolores ainda acionaram a federação uruguaia, com uma reclamação formal sobre os incidentes no Campeón del Siglo, sobretudo pela presença dos torcedores não-autorizados nas arquibancadas. O clássico deverá rolar um pouco mais nos tribunais. E mesmo com um triunfo inútil à sua situação na tabela, o Peñarol ao menos poderá se dizer vencedor da batalha, encerrando a incômoda espera contra os rivais que se prolongava em seu novo estádio.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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