América do Sul

O Paraguai fez uma Data Fifa péssima e optou por demitir Eduardo Berizzo para a reta final das Eliminatórias

Pressionado no cargo, Berizzo não resistiu à incontestável goleada da Bolívia em La Paz

Faz um tempo que o Paraguai não é candidato de verdade a uma vaga na Copa do Mundo. Depois de alcançar as quartas de final no Mundial da África do Sul, em 2010, a Albirroja passou longe do torneio em 2014 (quando foi lanterna nas Eliminatórias) e jogou fora suas chances em 2018 com uma derrota em casa para a Venezuela na rodada final. O elenco paraguaio atual não parece tão melhor que os anteriores, mas há uma porta aberta pela inconsistência dos adversários. E os guaranis parecem desperdiçar a oportunidade pelo futebol acomodado, com uma Data Fifa fraquíssima. Pressionado no cargo, o técnico Eduardo Berizzo não resistiu e acabou demitido após a goleada da Bolívia por 4 a 0 em La Paz, no maior triunfo de La Verde na história do confronto.

O Paraguai permanece no bolo de equipes ainda com chances de entrar na zona de classificação à Copa do Mundo, mas a Data Fifa estagnou o time. A Albirroja até segurou um empate na visita à Argentina, quando dependeu das defesas do goleiro Antony Silva e desperdiçou bons contragolpes no segundo tempo. Todavia, bem mais custosas foram as derrotas nos confrontos diretos. Os paraguaios perderam para o Chile em Santiago e, pior, foram amassados pela Bolívia em La Paz. Os dois oponentes terminaram a rodada desta quinta à frente dos guaranis. E a humilhação nos Andes foi suficiente à carta de demissão de Berizzo.

Berizzo chegou ao comando do Paraguai com um currículo interessante. O antigo zagueiro da seleção argentina foi assistente de Marcelo Bielsa no Chile até a Copa de 2010, dando seus primeiros passos ao lado do treinador com quem iniciou a trajetória de atleta no Newell’s Old Boys. Dirigiu brevemente o Estudiantes, até passar dois anos no O’Higgins e fazer um bom trabalho no Celta de Vigo, levando os galegos à Liga Europa. Todavia, o comandante não conseguiu dar um salto em oportunidades maiores. Ficou cinco meses no Sevilla, quando precisou também superar um câncer e acabou demitido de maneira até insensível. Durou o mesmo tempo no Athletic Bilbao, com um aproveitamento de fato ruim.

Em 2019, Berizzo abriu as portas para voltar à América do Sul e chegou a ser sondado por clubes brasileiros, inclusive o Flamengo. Porém, a chance de dirigir a seleção do Paraguai acabou o atraindo. A campanha na Copa América de 2019 foi razoável. Não teve vitórias, mas ficou uma impressão melhor do que se imaginaria pelos jogos duros contra Brasil e Argentina. E se os amistosos posteriores não animavam, o início invicto nas Eliminatórias sustentou Berizzo, apesar dos quatro empates nas cinco primeiras rodadas – além da vitória diante da Venezuela.

Neste momento, o Paraguai indicava uma margem de evolução, até por alguns bons jogadores. O problema é que o futebol do time não empolgava. Por mais que os guaranis cumprissem bem a retranca de outros tempos nos jogos contra Brasil ou Argentina, pecavam demais em confrontos acessíveis e nos duelos diretos contra os seus oponentes pelas vagas na Copa. Era uma equipe de poucos recursos ofensivos e tantas vezes limitada à defesa, quando poderia buscar mais o resultado. Apesar da relação com Bielsa ou das boas mostras no Celta, Berizzo não virou um técnico tão agressivo.

A Copa América de 2021 também contou com resultados aceitáveis, após as vitórias sobre Bolívia e Chile, além da eliminação nos pênaltis para o Peru. As últimas duas Datas Fifa, porém, sublinhavam como o Paraguai não sairia do lugar sob as ordens de Berizzo. A única vitória aconteceu diante da lanterna Venezuela em Assunção. Contudo, a Albirroja só empatou em casa com a Colômbia e perdeu todos os outros confrontos fora, com direito à goleada da Bolívia nesta quinta. Foi a gota d’água para a despedida do treinador, que completou 31 partidas com os paraguaios, com apenas 34% dos pontos conquistados.

O cenário é menos pior do que poderia ser para o Paraguai. O time tem 12 pontos nas Eliminatórias, a quatro da zona de classificação. O problema está nas duas posições perdidas nesta rodada, para Chile e Bolívia, além da impressão persistente de que oportunidades foram desperdiçadas na competição. Faltando seis rodadas, a Albirroja tentará confiar em alguém que possa mudar o ambiente, numa sequência de jogos-chave até março. Ainda dá para sonhar com o Catar, mas é preciso um comandante que não se contente tanto com os empates. Segundo o jornal ABC Color, o favorito para o cargo é Fernando Jubero, que comandava o Guaraní na época em que os aurinegros eliminaram o Corinthians na Libertadores de 2015 e atualmente lidera a liga nacional à frente do Aborígene. O espanhol já foi campeão com o Libertad, além de ter passado por Olimpia e Cerro Porteño.

O material humano do Paraguai não parece tão distante assim de valer uma vaga na Copa, embora existam pelo menos cinco elencos melhores que o dos guaranis no continente. Nomes como Miguel Almirón, Antonio Sanabria, Kaku Gamarra e Gustavo Gómez ainda parecem capazes de manter as chances paraguaias vivas até o fim. No entanto, dependem de um plano de jogo melhor e um funcionamento coletivo que eleve as perspectivas. Apesar do pênalti perdido contra a Bolívia, a Albirroja esteve distante de competir em La Paz. Berizzo paga o preço por um trabalho que nunca embalou de verdade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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