América do Sul

O Junior de Barranquilla cresceu no momento mais importante e faturou o bicampeonato colombiano

O futebol colombiano viveu uma década histórica, com títulos continentais e outras grandes campanhas, mas precisa reconhecer que o momento é de entressafra. Os principais clubes do país atravessam uma reformulação, que freia o desempenho além das fronteiras. Outro reflexo disso se nota no próprio Campeonato Colombiano, mais aberto. E que o semestre não tenha sido tão bom, o Junior de Barranquilla comemorou um grande feito. Os Tiburones conquistaram o Torneio Apertura, emendando o bicampeonato nacional, algo inédito em sua história. Após a vitória no jogo de ida contra o Deportivo Pasto, os alvirrubros perderam a volta em Bogotá por 1 a 0. Assim, a taça acabou definida nos pênaltis e os visitantes se deram melhor com o triunfo por 5 a 4. É o nono título do Junior na liga.

Desde cedo, ficou claro que este era um campeonato atípico na Colômbia. O lanterna do torneio foi o Independiente Santa Fe, que ganhou um mísero jogo. Outros times tradicionais oscilavam, em um certame equilibrado, no qual apenas o Millonarios disparou. E o Junior, apesar dos excessivos 12 empates em 20 rodadas, conseguiu avançar à segunda fase na sétima colocação. Passou toda a campanha na zona de classificação, apesar da queda de rendimento na reta final. Concomitantemente, os Tiburones decepcionavam na Copa Libertadores, lanternas na chave liderada pelo Palmeiras.

Sem sequer descolar a repescagem à Copa Sul-Americana, o Junior precisou concentrar suas forças no Apertura. Seu quadrangular na segunda fase era pesado, encarando também Deportes Tolima, Deportivo Cali e Atlético Nacional. Em uma disputa parelha com o Tolima, o clube de Barranquilla terminou na primeira colocação do grupo graças ao saldo de gols. Carimbou sua passagem à final, para encarar o Deportivo Pasto, responsável por despachar o favorito Millonarios no outro quadrangular. Por conta de sua fraca campanha na primeira fase, o time precisaria decidir a taça fora de casa.

O primeiro jogo, no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez, viu o Junior confirmar o seu mando de campo. Fabián Sambueza anotou o gol que garantiu a vitória por 1 a 0. Já no Estádio El Campín, onde o Deportivo Pasto foi obrigado a ser mandante por falta de capacidade em sua casa, aconteceu o troco. Ray Vanegas garantiu a vitória tricolor com um gol aos 35 do segundo tempo, em resultado que forçou os pênaltis. E parece que os Tiburones assimilaram bem as lições de 2018, quando perderam um caminhão de penais, inclusive na final da Copa Sul-Americana. Desta vez, o time foi perfeito na marca da cal. Converteu todas as suas cinco cobranças. O único desperdício foi justamente de Vanegas, na última batida do Deportivo Pasto, mandando para fora. Antes de chutar, fez um sinal de silêncio diante das provocações do goleiro Sebastián Viera, mas caiu na pilha e isolou. Um erro que levou a taça para Barranquilla.

O Junior perdeu alguns nomes importantes em relação ao elenco que chegou à final da Copa Sul-Americana e que conquistou o Clausura 2018, mas terminou carregado por seus medalhões. Neste Apertura, os Tiburones continuaram encabeçados pelo veterano Teo Gutiérrez, além do bom Luis Díaz, meia que se ausentou das finais porque foi convocado à Copa América. Já o grande protagonista foi Sebastián Viera, segurando as pontas em vários momentos, sobretudo no quadrangular semifinal. Também nesta reta final, Sebastián Hernández e Luis Narváez tiveram participações decisivas.

À frente do grupo, o lendário Julio Comesaña adiciona mais uma conquista ao seu currículo, em sua nona passagem pela casamata do Junior. O uruguaio, que vive uma relação intensa em Barranquilla, tinha assumido o Colón após o vice continental, mas não deu certo na Argentina e voltou em maio à Colômbia, para a guinada final. Substituiu Luis Fernando Suárez depois da eliminação na Libertadores e, desde então, não perdeu com os alvirrubros. É seu quinto título no campeonato, o quarto pelo clube – e um destes ainda como jogador. Um empresário da cidade prometeu construir uma estátua do técnico se a taça viesse. Terá que cumprir.

Conquistar o bicampeonato colombiano é um feito raro. Desde o início do século, apenas América de Cali e Atlético Nacional conseguiram emendar títulos. Mas, apesar do investimento realizado pelo Junior nos últimos anos, este é um ponto fora da curva ao clube. Os Tiburones se valeram do regulamento da competição para crescerem no momento certo. As reticências recentes indicam como as reformulações abaixaram o sarrafo entre as potências locais. Melhor aos alvirrubros, que se aproveitaram da experiência de sua equipe e da capacidade para lidar com os momentos decisivos. Quem sabe, para seguir na mesma toada e almejar o tri sem tantas desconfianças durante o Clausura.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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