América do SulArgentinaBrasilLibertadores

O Flamengo proporcionou uma verdadeira noite de Maracanã

O Maracanã, enfim, recuperava a sua aura. O gigante de concreto fantasmagórico, cujas imagens de destruição rodaram o mundo nas últimas semanas, parecia mero produto da imaginação. O campo (com algumas falhas, é verdade) verdejava novamente. E as arquibancadas pulsavam, como sempre foi. Como sempre tem que ser. Uma noite verdadeiramente de Maraca, completa com a festa da torcida. Espetáculo em vermelho e preto, impulsionado pela goleada do clube que tanto se identifica com aquele estádio, com aquela massa. O Flamengo não fez a partida perfeita. Mas foi Flamengo de corpo e alma, ao crescer com sua gente, ao bailar no ritmo de seu camisa 10, ao estufar as redes com belos gols, ao empolgar seus torcedores e ao provocá-los a cantar ainda mais. Por mais tricolor que fosse, se seguisse vivo, Nelson Rodrigues certamente ficaria satisfeito em poder escrever sobre um jogo como esse. Uma estreia poética de Libertadores, na qual o placar de 4 a 0 sobre o San Lorenzo é a epígrafe.

Durante os últimos meses, o Maracanã atravessou um longo e tenebroso inverno, em pleno irresistível verão carioca. E se o Carnaval já tinha passado, a torcida do Flamengo guardou os seus confetes para a volta à casa. O sangue rubro-negro estava quente desde o final de semana, com o jogaço na decisão da Taça Guanabara, apesar da derrota nos pênaltis. Por isso mesmo, não havia melhor oportunidade de entrar em ebulição, para seguir em frente e reviver o Maraca no calor de seu povo. Desde antes da entrada dos times, já dava para perceber que seria um jogo diferente. Assim se cumpriu mais e mais, em especial no belíssimo mosaico rubro-negro, em meio à cantoria que ecoava entre os 60,9 mil presentes.

flamengoo

O Flamengo começou a partida tentando se impor no ataque. Mas logo percebeu que a tarefa não seria tão simples, com o San Lorenzo bem postado na defesa. Aos 13 minutos, os rubro-negros criaram uma ótima chance, em arrancada de William Arão, que terminou com chute na trave de Everton. Entretanto, o lance foi uma exceção durante a maior parte da primeira etapa. Faltava compactação à equipe de Zé Ricardo, tentando jogar muito pelo meio, mas sem conseguir se aproximar da meta de Torrico. A defesa rifava várias bolas em ligações diretas, em vão. A grama, se soltando fácil, até parecia atrapalhar o quique. Enquanto isso, vez por outra, os cuervos levavam perigo, especialmente nas bolas paradas. Na melhor chance, Montoya assustou em cabeçada livre, da entrada da área.

Aos 33 minutos, uma eventualidade ajudou o Fla. Mancuello sentiu lesão e deixou o campo para a entrada de Berrío. A participação do colombiano melhorou a equipe da casa, investindo mais nos avanços pelas pontas. Em um bom lance do novato, Guerrero recebeu ótima bola dentro da área, embora tenha batido mascado. Faltava criar oportunidades um pouco mais claras. O que viria no segundo tempo.

A falta de ritmo do San Lorenzo, fazendo sua primeira partida oficial na temporada, pode ter pesado contra. No entanto, também pesou contra o ritmo imposto pelo Flamengo no segundo tempo. Sobretudo, por Diego. O meio-campista foi aquilo que os rubro-negros esperam de seu camisa 10. Mandou prender e soltar. Ditou o que aconteceu na partida. E resgatou aquela mística cantada por Jorge Ben, ao abrir o placar aos três minutos. Alguns pediram pênalti na jogada. O árbitro marcou falta, na entrada da área. Adivinha quem bateu? O camisa 10 da Gávea mandou no canto, nas redes. O goleiro Torrico, com a visão encoberta pelos jogadores rubro-negros que se juntaram à barreira, demorou a reagir e não pegou o impulso necessário, saltando sem sair do lugar.

O San Lorenzo esboçou uma pressão na sequência da partida. Seguia cruzando a bola na área, esbarrando na boa atuação de Réver. Já aos 16, um ataque bem construído garantiu a tranquilidade ao Fla. Começou em um bom domínio de Berrío na lateral, passando para Diego. O camisa 10 entregou a Trauco, centralizando, como Jorge tanto fazia, se soltando da lateral coberta por Everton. E o peruano acertou um chutaço, indefensável. A partir de então, a tônica do duelo no Maracanã foi uma só.

Querendo a goleada, o Flamengo aproveitava a velocidade de Everton e Berrío nas pontas. Guerrero participava bastante também, mas sem primar nas finalizações. Em um lance que Angeleri afastou, nasceu o escanteio para o terceiro tento. Berrío desviou na área e, sem que a zaga cortasse, Rômulo completou na segunda trave. Depois de algumas tentativas do San Lorenzo, os flamenguistas mataram o jogo depois dos 33, com a ótima entrada de Gabriel. O camisa 17 sofreu um pênalti, cobrado por Guerrero, que Torrico encaixou. Já aos 42, o próprio substituto tratou de fazer o serviço, em ótimo chute cruzado, anotando o quarto gol. A partir de então, só se sentia a festa nas arquibancadas. A massa rubro-negra, em êxtase, encerrava ela mesma a sua estreia dos sonhos.

É preciso se ponderar os detalhes: a queda de rendimento do San Lorenzo, as deficiências pontuais do Flamengo no primeiro tempo. Contudo, por aquilo que apresentou na etapa complementar, o time de Zé Ricardo entra com força na Copa Libertadores. Diego e Berrío, em especial, fizeram a diferença para os rubro-negros. Foram fundamentais para proporcionar uma noite memorável no Maracanã, protagonizada pela torcida.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo