América do Sul

O casebre humilde em Montevidéu que, por coincidência, serviu de lar a Obdulio e Suárez

A casa humilde, de tijolos expostos e porta descascada, não dimensiona a sua importância para o futebol uruguaio. Uma espécie de santuário num bairro simples de Montevidéu, diante da aura mítica que se abrigou sob aquele teto. No mesmo endereço, viveram dois dos maiores craques da história celeste: Obdulio Varela e Luis Suárez. Dois jogadores de personalidade forte e muita bola nos pés, verdadeiros orgulhos nacionais. E que, como se fosse em um conto de Eduardo Galeano, moraram exatamente no mesmo casebre.

VEJA TAMBÉM: Vinte anos sem Obdulio Varela, o craque cuja maior virtude era o caráter inquebrantável

A coincidência impressionante foi descoberta pelo historiador José Eduardo Picerno. Num intervalo de décadas, a casa serviu de lar para Obdulio e Luisito. O lendário capitão da seleção em 1950 viveu por lá quando ainda era um juvenil, deixando o pano de engraxate para se aventurar com a chuteira nos pés. O implacável atacante, por sua vez, era um menino que chutava bolas contra as paredes desgastadas, longe de sonhar que se transformaria no maior artilheiro da Celeste.

A casa fica no bairro de La Comercial, ocupado historicamente por imigrantes. A ‘Pasaje de la Vía’ nada mais é do que um beco ligando as ruas Nicarágua e Acevedo Díaz, por onde passava a antiga linha de trem do Ferrocarril Uruguayo del Este – desativada e que, posteriormente, abrigou também um campinho de futebol. Pura ironia, a rua está localizada a alguns minutos a pé do Estádio Centenário, a outra casa em comum dos craques. Nas redondezas do velho lar, um muro diz em tom quase que profético: “O amor conspira a nosso favor”. Como se a paixão de Varela e Suárez pela bola tivesse conspirado a favor de todo o povo uruguaio.

“Obdulio viveu ali na década de 1930, quando era jogador do Deportivo Juventud, um clube de bairro que alcançou certa fama e onde o Wanderers o descobriu. Na nossa infância, quando passávamos pela esquina, sempre nos diziam: nesta casa viveu Obdulio”, explica Picerno, em entrevista ao jornal Ovación. Entretanto, durante os seus anos áureos pelo Peñarol, o Negro Jefe morou em Pocitos, bairro onde foi dado o pontapé inicial da Copa do Mundo de 1930, em estádio demolido dez anos depois.

Suárez, por sua vez, foi levado à Pasaje de la Vía pelo destino, no início dos anos 1990. Sua família mudou-se de Salto, sua cidade natal, para viver na capital. O Pistolero virou figura célebre em La Comercial, a ponto de ter na escola onde estudou um mural com sua imagem. Os vizinhos, inclusive, ainda se lembram do menino correndo pela rua de terra. A mesma pela qual Obdulio pisava firme na adolescência. Primeiros passos de duas figuras fundamentais ao futebol uruguaio, que podem agora tornar a viela em ponto de peregrinação do turismo boleiro em Montevidéu.

A dica de pauta foi do leitor e amigo Leandro Paulo. Obrigado!

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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