América do Sul

O Always Ready encerrou um jejum de 63 anos na Bolívia, e parece ser capaz de se manter no topo por mais tempo

No último dia de 2020, o Campeonato Boliviano celebrou a consagração do Always Ready como novo campeão nacional. A conquista premiou um clube tradicional do país, que não sabia o que era erguer a taça desde 1957. E o feito dos albirrojos garante outras novidades. Os paceños retornam à Libertadores depois de 53 anos, desta vez atuando em El Alto, cidade acima dos 4 mil metros de altitude. E o título não parece ser apenas um ponto fora da curva, diante do investimento que ocorre ao seu redor.

O Always Ready surgiu em 1933, fundado por estudantes em La Paz. Como bastante comum nos primórdios do futebol boliviano, a referência em inglês estava presente no nome da agremiação. Os albirrojos chegaram à primeira divisão logo no fim dos anos 1930 e faziam campanhas de meio de tabela. O auge aconteceu no início do profissionalismo na Bolívia, na década de 1950. Os paceños levaram seu primeiro troféu em 1951 e, depois de um inesperado descenso, colocaram a faixa no peito novamente em 1957 – logo após o acesso. Os vice-campeonatos também foram frequentes nesta época, com a presença inédita na Libertadores garantida em 1968. Os bolivianos caíram logo na primeira fase, em chave na qual estavam Jorge Wilstermann, Alianza Lima e Universitario.

A partir dos anos 1970, o Always Ready se desacostumou com o protagonismo na Bolívia. Os descensos se tornaram mais comuns, até que uma grande crise se desenrolasse a partir de 1991. Foram mais de duas décadas longe da elite, incluindo o fundo do poço na quarta divisão nacional. O ressurgimento só aconteceu a partir de um forte investimento desde 2015. Neste momento, os albirrojos passaram a contar com o aporte financeiro de Fernando Costa Sarmiento, dono de uma universidade privada e torcedor do clube, que começou a tirar dinheiro do próprio bolso para colocar na equipe. Foi assim que o Always Ready se tornou outra vez competitivo nas ligas regionais de La Paz e que voltou a brigar pelo acesso na segundona boliviana.

Em 2018, o Always Ready celebrou o retorno à primeira divisão do Campeonato Boliviano depois de 27 anos. E outro passo importante ao clube veio em meio a esta ascensão, com a mudança para El Alto. A prefeitura da cidade, na região metropolitana de La Paz, inaugurou em 2017 o estádio em maior altitude do país. Apesar da boa estrutura, não havia um time de primeiro nível para ocupá-lo. Sem casa própria, os albirrojos abraçaram a oportunidade e se mudaram de La Paz para El Alto, estabelecendo sua sede em Villa Ingenio. Além do estádio novinho, o clube também ganhou apelo junto à torcida do município.

O retorno do Always Ready ao Campeonato Boliviano já foi positivo. Sétimo colocado na tabela acumulada em 2019, o time conseguiu a classificação à Copa Sul-Americana. Apesar da eliminação logo na primeira fase contra o Millonarios, os albirrojos puderam aumentar seu investimento visando a temporada de 2020. E conseguiram se dar bem numa edição parelha da liga nacional, em moldes excepcionais por conta da pandemia. Desta vez, o Boliviano teve apenas seu Torneio Apertura. O Always Ready competiu com os dominantes The Strongest e Bolívar, tomando a ponta na reta final.

Faltando dez rodadas, o Always Ready parecia ficar para trás na disputa pelo título, ao perder o confronto direto com o Strongest por 2 a 0. Neste momento, os albirrojos caíram à quarta colocação, cinco pontos atrás dos líderes. A recuperação aconteceu com quatro vitórias consecutivas, que levaram o time de El Alto a se emparelhar na primeira posição. Apesar da derrota para o Oriente Petrolero, o Always Ready seguiria bem nas duas rodadas posteriores, incluindo um empate contra o Bolívar – que havia tomado a ponta. Já a reviravolta aconteceu na penúltima rodada, quando os albirrojos venceram o Royal Parí, enquanto o Bolívar perdeu. Assim, no último compromisso, uma vitória bastava ao Always Ready na visita contra o Nacional de Potosí. Foi o que ocorreu, com o triunfo por 2 a 0, suficiente para encerrar o jejum de 63 anos sem o grito de campeão.

A conquista do Always Ready não surpreende tanto assim quando se analisa o elenco. São algumas figurinhas carimbadas na escalação, a começar pelo goleiro Carlos Lampe, titular da seleção e com passagem recente pelo Boca Juniors. Outros atletas também acumulam partidas pela equipe nacional, como o lateral Edemir Rodríguez, o volante Fernando Saucedo, o meia Samuel Galindo e o atacante Rodrigo Ramallo. Parte significativa destes futebolistas veio do San José de Oruro, enfrentando dificuldades financeiras após o título em 2018.

Além disso, os albirrojos contam com um bom número de estrangeiros. Duvier Riascos é o mais conhecido do público brasileiro, com destaque ainda ao zagueiro Nelson Cabrera (paraguaio naturalizado boliviano) e ao meia Javier Sanguinetti (referência na legião argentina). Já o treinador é outro argentino, Omar ‘Turco’ Asad, ídolo do Vélez Sarsfield nos anos 1990. O ex-atacante assumiu o comando no início de dezembro, substituindo Eduardo Villegas, que chegou a dirigir a seleção boliviana durante a Copa América de 2019.

O Always Ready promete aumentar seus investimentos. O clube planeja a construção de um centro de treinamentos de primeira linha em La Paz. A curto prazo, também fortalece o elenco visando a Libertadores de 2021, com a vaga na fase de grupos já garantida. A primeira boa notícia veio com a renovação de Lampe, além de uma lista de reforços trazidos de outros clubes importantes da Bolívia. A altitude de El Alto se tornará um trunfo aos albirrojos e certamente um dos grandes temores no sorteio da competição continental. E é de se esperar também que os novos campeões ganhem força política nos bastidores da Federação Boliviana de Futebol.

Fernando Costa Sarmiento deixou a presidência do Always Ready, substituído pelo filho Andrés Costa. Desde novembro, o empresário virou o presidente da federação nacional – que passou por um ano conturbado, com a morte de seu mandatário por COVID-19 e a prisão de seu substituto por corrupção. Diante das crises no futebol local e das divisões internas entre dirigentes, Costa Sarmiento terá uma missão difícil. Vem respaldado justamente por seu trabalho de recuperação no Always Ready. A expectativa é que o sucesso visto em El Alto se repita na FBF. E, independentemente dos bastidores favoráveis, parece bem possível que os albirrojos se tornem frequentes na Libertadores durante os próximos anos – até pelas condições financeiras favoráveis em tempos de pandemia.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo