América do Sul

O adeus a Leonel Sánchez, herói do Chile semifinalista em 1962 e maior ídolo da história de La U

Falecido na última semana, Leonel Sánchez é considerado um dos maiores jogadores chilenos de todos os tempos e levou sete títulos nacionais

A Copa do Mundo de 1962 possui um grande valor simbólico para o Chile. A população chilena se uniu ao redor do torneio para superar a tragédia provocada por um terremoto de 9.5 na Escala Richter (o maior já registrado), que deixou mais de 5 mil mortos e dezenas de milhares de desabrigados em maio de 1960. O sucesso na realização da competição foi um orgulho, bem como a ótima campanha da seleção local até as semifinais. E o principal nome daquela equipe era Leonel Sánchez. O ponta esquerda tinha enorme poder de decisão, seja por seu potente chute de canhota ou pela qualidade nas assistências. Marcou quatro gols no certame e foi essencial para que a Roja ficasse com o bronze. Por clubes, Sánchez também é o maior ídolo da Universidad de Chile. Foi o expoente do famoso Ballet Azul, com o qual levou seis títulos nacionais, antes de ser campeão também no Colo-Colo. Por tamanha importância, o veterano seguiu reverenciado por décadas em seu país. E continua aplaudido numa semana de luto, após seu falecimento no último dia 2, aos 85 anos de idade.

Leonel Guillermo Sánchez Lineros nasceu em 25 de abril de 1936, em Santiago. O incentivo no esporte vinha de sua própria casa, já que seu pai foi pugilista, sagrando-se campeão nacional e sul-americano como peso galo. Embora Juan Sánchez tivesse uma escolinha para novos talentos no boxe, seu rebento seguiu por outros rumos. O garoto começou no futebol como tantos outros: nas ruas, jogando com bolas de meia. Logo passaria a atuar também no colégio onde estudava e no clube Copal, fundado por funcionários da fábrica de papel onde seu pai trabalhava. Isso até que, aos 11 anos, fosse descoberto por Luis Tirado, treinador da Universidad de Chile. Na época, a escola de Sánchez levava alguns alunos para jogar no Estádio Nacional. Foi lá que o canhotinho de muito talento acabou avistado pela primeira vez.

Luis Tirado convenceu os pais de Sánchez que o menino deveria ingressar na Universidad de Chile. Na época, a categoria infantil começava aos 12 anos, mas deram um jeito para o menino de 11 entrar. Os elogios eram constantes e sua ficha chegava a chamá-lo de “superdotado”. A afirmação era feita por Luis Álamos, na época comandante da base de La U e que acompanharia Sánchez em outros momentos da carreira. Quem também não saía de seu lado era o pai, seu principal incentivador. À medida que progredia nas categorias inferiores, o prodígio chamava mais atenção. Seria campeão invicto com os juvenis em 1952. Não demoraria a dar seu salto ao primeiro time.

Leonel Sánchez ingressou nos profissionais da Universidad de Chile em 1953. O próprio técnico Jorge Ormos chamou o garoto para a equipe de cima. Ele vinha para cobrir uma série de desfalques na ponta esquerda e logo agradou. A estreia, em 13 de setembro, já seria marcante: o adolescente anotou o gol de empate contra o Everton, campeão do ano anterior. “O mais animador foi a estreia de Leonel Sánchez, que promete brindar grandes satisfações à torcida por seu chute e pela riqueza de recursos”, avaliou a Revista La U, dias depois.

A revista oficial do clube também resumiria o craque em formação: “Antes de receber a bola, já tem a jogada resolvida. Há torcedores que vão ver nosso time para admirar as ações elegantes, sóbrias, positivas e espetaculares de Leonel Sánchez. Unindo todas as qualidades expostas, adorna a personalidade de nosso jogador a sua modéstia e o senso das proporções. A fama e os aplausos não o envaideceram, apesar de sua juventude. Nossa U tem em seu ponta esquerda o ponteiro da seleção chilena. Nasceu predestinado, porque sente o futebol”.

A Universidad de Chile não apressou tanto a transição de Leonel Sánchez. Durante suas duas primeiras temporadas na primeira equipe, o ponta esquerda disputou nove partidas pelo Campeonato Chileno e marcou quatro gols. A afirmação aconteceu em 1955. Titular absoluto, o jovem de 19 anos terminou a campanha com 14 gols em 33 partidas. A qualidade do chute e o brio em campo eram duas características principais. Na época, La U atravessava uma seca que durava desde 1940. Os Azules terminaram na terceira posição daquele campeonato de 1955. Mesmo assim, a fase de Sánchez era tão boa que ele já daria seu salto à seleção.

A Universidad de Chile era dirigida por Luis Tirado, aquele mesmo que havia descoberto o menino talentoso de 11 anos. O comandante acumulava cargos e também treinava a seleção principal do Chile. Foi ele o responsável por promover a estreia de Leonel Sánchez, em 18 de setembro de 1955. A ocasião não poderia ser mais grandiosa, diante da seleção brasileira, dentro do Maracanã, pela Taça Bernardo O’Higgins. Prevaleceu o empate por 1 a 1. Em atuação modesta, Sánchez acabaria substituído durante o segundo tempo por Jorge Robledo, que fez fama no Newcastle pouco antes e defendia o Colo-Colo na época.

Leonel Sánchez manteve sua boa forma na Universidad de Chile em 1956, com 10 gols em 22 partidas pelo Campeonato Chileno. Já o grande momento naquele ano veio com a disputa do Campeonato Sul-Americano. Logo na estreia, o Chile enfiou 4 a 1 sobre o Brasil treinado por Oswaldo Brandão, que tinha uma escalação concentrada no futebol paulista – incluindo nomes como Gylmar, Djalma Santos, Mauro, Zito, Jair e Canhoteiro. Enrique Hormazábal prevaleceu com dois gols, mas Sánchez assinalou seu primeiro tento pela Roja, deu duas assistências e infernizou Djalma Santos na lateral do campo. Foi o primeiro triunfo dos chilenos sobre os brasileiros na história. No dia seguinte, o Jornal dos Sports avaliou assim a atuação do ponta esquerda: “De um bom ataque, foi o seu melhor componente. Rápido, infiltrador, bom driblador e chutando muito bem, foi um dos grandes valores do quadro andino”.

Leonel Sánchez anotou mais um gol naquele Campeonato Sul-Americano, no clássico contra o Peru. O jovem balançou as redes aos 41 do segundo tempo, para determinar uma emocionante vitória por 4 a 3 da Roja. A equipe treinada por Luis Tirado terminou a competição como vice-campeã, atrás do Uruguai, mas superando no saldo de gols Argentina e Brasil. Sánchez foi eleito como o melhor de sua posição no torneio. Os torcedores chilenos ganhavam um novo xodó. E aquela campanha seria importante como início da preparação que culminaria na Copa do Mundo de 1962.

Antes disso, Leonel Sánchez não conseguiu levar a seleção chilena para a Copa do Mundo de 1958, com a equipe superada pela Argentina em sua chave nas Eliminatórias. De qualquer maneira, o ponta esquerda se consolidava como titular da Roja e como estrela da Universidad de Chile. Os números no Campeonato Chileno eram ótimos. Foram 14 gols em 21 partidas na liga de 1957 e mais nove tentos em 25 aparições na campanha seguinte. Isso até que, em 1959, La U conquistasse um de seus títulos mais marcantes. O jejum de 19 anos chegava ao fim, para inaugurar exatamente o período mais célebre do clube.

A Universidad de Chile era dirigida desde 1957 por Luis Álamos, o mesmo que comandara Sánchez na base. Além de aproveitar os talentos formados por La U, o novo técnico instituiu um estilo de jogo vistoso e de muita ofensividade. Assim nascia o famoso Ballet Azul. Sánchez era exatamente o bailarino principal, ao lado de outras lendas do clube, como o centroavante Carlos “El Tanque” Campos e o armador Ernesto “El Maestro” Álvarez. O ponta esquerda terminou aquela campanha como vice-artilheiro da liga, somando 22 gols em 26 aparições.

A reconquista daquele Campeonato Chileno, aliás, veio de forma épica. O Colo-Colo chegou a abrir seis pontos de vantagem na liderança (em tempos de dois pontos por vitória) e a Universidad de Chile tirou a diferença, com dez vitórias e um empate nas últimas 11 partidas. Na penúltima rodada, inclusive, rolou o confronto direto e os colocolinos, que precisavam só de um empate para ficar com a taça, abriram dois gols de vantagem. La U buscou a virada por 3 a 2 e seguiu viva na competição. Ao término da liga, os dois times somaram os mesmos 38 pontos, o que forçou um jogo extra. O Cacique era treinado por Flávio Costa e tinha também grandes nomes do futebol local, como Jorge Toro e Mario Moreno. Diante de 40 mil no Estádio Nacional, os Azules venceram por 2 a 1. Leonel Sánchez marcou o primeiro gol numa famosa bomba em cobrança de falta.

Aquela campanha permitiu que a Universidad de Chile representasse seu país na primeira edição da Copa Libertadores. Não seria uma boa lembrança, com a eliminação ocorrida logo na fase de entrada, as quartas de final, com direito a uma goleada por 6 a 0 da fortíssima equipe do Millonarios. O Ballet Azul também oscilou dentro do próprio Campeonato Chileno, com a terceira posição em 1960 e o vice em 1961. Nesta segunda edição, com o desfalque de Leonel Sánchez, La U perdeu exatamente em dois jogos extras para a Universidad Católica.

Pela seleção chilena, Leonel Sánchez não teve tanto impacto nas edições do Campeonato Sul-Americano de 1957 e 1959. Em compensação, viveu um ótimo momento na preparação do Chile para a Copa do Mundo de 1962. Durante os amistosos, o atacante teve grandes atuações contra adversários de peso. Deixou sua marca em vitórias por 5 a 2 sobre o Peru e por 4 a 2 sobre a Argentina (a primeira do país contra a Albiceleste), além de um empate por 2 a 2 com o Uruguai. Também fez vítimas entre as seleções europeias, como num 3 a 1 diante da Alemanha Ocidental e num 5 a 1 sobre a Hungria. Chegou ao Mundial como a grande figura da Roja e a esperança de seus compatriotas para um pouco de alento, após o terremoto no país.

Antes da competição, Leonel Sánchez dizia que o ambiente de camaradagem e otimismo era um trunfo do Chile. “Creio ser impossível se armar, no Chile, uma seleção como a atual. Só não posso garantir a vitória porque isso depende de muitos fatores”, comentou ao Jornal do Brasil, na época. O Jornal dos Sports, por sua vez, apontava já antes do torneio que Sánchez era um dos mais capacitados para auxiliar os chilenos numa boa campanha dentro de seus domínios.

A Copa de 1962 teve quatro partidas simultâneas em sua abertura. A grande cerimônia inaugural, ainda assim, aconteceu no Estádio Nacional antes do Chile x Suíça. De virada, a Roja fez as honras da casa ao vencer por 3 a 1. Leonel Sánchez orquestrou a reação. O ponta anotou o gol de empate numa bola ajeitada na área e virou num chute de longe. Jaime Ramírez fechou o placar numa vitória que era importante pelo nível dos desafios que vinham depois, com os embates diante de Itália e Alemanha Ocidental.

Durante a segunda rodada, Chile e Itália fizeram um dos jogos mais lembrados daquele Mundial. E não por motivos bons, já que a partida ficaria gravada como “A Batalha de Santiago”. O clima já era tenso bem antes do confronto, após críticas muito duras da imprensa italiana sobre a escolha do Chile como sede da Copa – classificando o país como um “lugar miserável, com analfabetos e prostitutas”. Na entrada em campo, para tentar conter os ânimos, os jogadores da Azzurra jogaram flores ao público. Acabaram vaiados.

Quando a bola rolou, o italiano Giorgio Ferrini seria expulso por uma agressão logo aos sete minutos. Já na sequência do primeiro tempo, Leonel Sánchez foi atingido por Mario David quando estava no chão. O ponta chileno se levantou e deu um soco no adversário, que caiu. O árbitro Ken Aston manteve os dois em campo, o que culminou em uma voadora de David sobre Sánchez minutos depois, o que resultou na expulsão do zagueiro. Com dois homens a mais, o caminho ficou aberto para a vitória da Roja por 2 a 0. Ambos os gols saíram no segundo tempo, com Jaime Ramírez (aproveitando o rebote de um chute de Sánchez) e Jorge Toro. O resultado classificou o Chile por antecipação. Assim, a derrota para a Alemanha Ocidental na última rodada só tirou a equipe da casa da liderança do grupo.

O tropeço levou o Chile a um chaveamento duro nas quartas de final. Pegaram a União Soviética campeã europeia, estrelada por Lev Yashin. A Roja venceu por 2 a 1, com um golaço de Leonel Sánchez para abrir o placar. Numa falta quase na risca lateral da grande área, o ponta resolveu bater direto. Surpreendeu com um chute de trivela, cheio de curva, que enganou o melhor goleiro do mundo. Yashin viu, estático, o canhotaço entrar direto em seu ângulo. O célebre narrador Júlio Martínez Prádanos, que hoje dá nome ao Estádio Nacional, clamaria a pintura como uma “justiça divina” – já que no lugar da falta deveria ter sido marcado um pênalti. Igor Chislenko até empatou para a URSS, mas Eladio Rojas retomou a vantagem e determinou o triunfo. Os anfitriões disputariam as semifinais, numa campanha já histórica.

O Chile, porém, não seria páreo ao Brasil. Garrincha e Vavá trataram de comandar a vitória por 4 a 2, com dois gols de cada. Coube a Leonel Sánchez, bem marcado por Djalma Santos, anotar o segundo dos chilenos em cobrança de pênalti. Apesar da queda, o ponta foi escolhido como o melhor em campo de seu time pelo Jornal do Brasil. Os chilenos precisaram se contentar com a disputa do bronze, e levaram a medalha após a vitória por 1 a 0 sobre a Iugoslávia. Sánchez teria o seu ouro particular, como um dos artilheiros do Mundial, com quatro gols. Também seria eleito como melhor ponta esquerda da competição e o terceiro melhor jogador no geral. A eternidade pertencia ao craque a partir desse momento, assim como a gratidão de seus compatriotas. Os chilenos passaram a tratá-lo como uma estrela de cinema, presente em diversas propagandas no país.

Leonel Sánchez teve propostas para deixar o Chile após o sucesso na Copa. O poderoso Real Madrid chegou a ser especulado como um possível destino. Outro rumo palpável era a Serie A, para onde Jorge Toro foi logo depois do Mundial. Então vencedor da Champions, o Milan esteve perto de levar Sánchez e, em 1963, o craque chileno disputaria até mesmo um torneio amistoso com a camisa rossonera. Compôs o ataque com Mazzola e Gianni Rivera, mas não ficou, sem um acordo financeiro pela transferência. A viagem, ao menos, serviu para se reconciliar com Mario David após a Batalha de Santiago. Sua casa era a Universidad de Chile e ele ainda escreveria as páginas mais gloriosas do Ballet Azul.

A Universidad de Chile recuperou o título nacional em 1962, quando marcou 105 gols na campanha. De novo, foi necessário um jogo-desempate contra a Universidad Católica e La U deu o troco com a vitória por 5 a 3. Mesmo jogando lesionado, Leonel Sánchez marcou o último tento, totalizando 19 na campanha. Depois do vice em 1963, o Ballet Azul reconquistou o troféu em 1964, desta vez com uma vantagem de nove pontos na dianteira. O bicampeonato em 1965 teria o recorde de 57 pontos, no último título com Luis Álamos. E, depois de uma modesta quarta colocação em 1966, que culminou na saída do treinador, La U voltaria a comemorar em 1967. Com a mudança de regulamento, o troféu escapou em 1968. Ainda assim, a festa seria azul de novo em 1969, com o sexto título num intervalo de dez anos. Sem dúvidas, era a maior potência do país. Leonel Sánchez servia de sinônimo à essa sequência de comemorações.

A Universidad de Chile ficou devendo mesmo na Libertadores. Eram tempos mais duros no torneio continental, mas La U não conseguiu superar sequer a primeira fase em suas cinco participações ao longo da década de 1960. O próprio Leonel Sánchez marcou apenas dois gols na competição, ambos em 1966, contra Olimpia e Guaraní. O Ballet Azul se dava melhor em amistosos e pequenos torneios. Chegou a emplacar um 6 a 1 sobre o fortíssimo Peñarol, além de vencer adversários europeus como Stade de Reims e Internazionale. Contra brasileiros, o duelo de mais relevo foi uma vitória por 4 a 3 sobre o Santos de Pelé, diante de 72 mil no Estádio Nacional, com um tirambaço de Sánchez para concluir o resultado. Vasco e Flamengo foram outras equipes do Brasil que acabaram vazadas pelo artilheiro da Copa de 1962.

Já pela seleção chilena, Leonel Sánchez manteve sua reputação principalmente nas Eliminatórias para a Copa de 1966. O atacante marcou três gols na campanha, em que a Roja superou Colômbia e Equador em seu grupo. Foi necessário um jogo de desempate diante dos equatorianos, vencido pelos chilenos por 2 a 1. O craque foi exatamente o responsável por abrir o placar, com mais um gol de falta decisivo. Porém, a sua participação como capitão no Mundial da Inglaterra foi tímida, sem marcar um gol sequer. Os chilenos perderam nas revanches contra Itália e União Soviética, no máximo arrancando um empate contra a Coreia do Norte. Foram eliminados logo na fase de grupos.

Leonel Sánchez ainda disputou algumas partidas mais pela seleção chilena em 1967 e 1968. Despediu-se da equipe nacional com 32 anos, em uma derrota para o México por 3 a 1, na qual também anotou seu último gol. Foram 85 partidas e 24 gols, acumulados em 14 anos de serviços prestados. Era o recordista em jogos pela equipe nacional até ser superado apenas em 2014 por Claudio Bravo. Também ficou por alguns anos como o maior artilheiro, superado inicialmente por Carlos Caszely em 1981, até ocupar atualmente a sétima posição na lista. Em Copas, é o chileno com mais tentos, igualado pelos quatro gols de Marcelo Salas em 1998.

Apesar das mais de duas décadas de amor à camisa, Leonel Sánchez teve uma saída conturbada da Universidad de Chile. O atacante perderia espaço na campanha do título de 1969, com apenas dez partidas disputadas. Pior, entrou em conflito com o presidente do clube e acabou arrumando suas malas. Deixou os Azules com 412 partidas e 167 gols, segundo maior artilheiro da história do clube, atrás apenas do parceiro Tanque Campos – a quem serviu muitas vezes. Foram 68 tentos de bola parada, sendo 27 em cobranças de falta, uma de suas especialidades. Isso sem falar das incontáveis assistências e das tantas vezes que arrancou aplausos da torcida estudantil.

Chocante seria o destino de Leonel Sánchez na sequência da carreira: ele vestiria a camisa do Colo-Colo, rival de La U – em negócio amarrado por Hormazábal, seu antigo companheiro de seleção e comandante dos Albos. “Sou profissional. O presidente me tirou de La U, queria que eu assinasse contrato antes de me pagar o ano. Eu tinha contrato por mais duas temporadas. Sou profissional. Quantos jogaram pelos dois clubes? Muitos, vocês sabem. Não fui traidor, fui por esse dirigente”, explicaria, anos depois, o atacante.

No novo clube, Leonel Sánchez rechearia um pouco mais sua história gloriosa. O veterano contribuiu para que o Colo-Colo vencesse o Campeonato Chileno de 1970, depois de um hiato de sete anos sem a taça, com dois gols em 29 aparições na campanha. Já não era tão efetivo quanto em seu auge, mas aportava experiência para auxiliar o Cacique, na época com a presença de Caszely – seu grande herdeiro como craque da seleção. A passagem pelos colocolinos, no entanto, não duraria muito. Em 1971, o ponta teve uma passagem mais curta pelo Palestino. Encerrou sua carreira pelo Ferroviários, ao lado de antigos companheiros do Ballet Azul, com os quais conquistou o acesso em 1972 e disputou a primeira divisão em 1973, seu último ano como profissional.

Penduradas as chuteiras, Leonel Sánchez fez as pazes com a Universidad de Chile e voltaria como treinador, primeiro na base e depois com passagens curtas pelos profissionais na década de 1980. O antigo ídolo dirigiu La U em momentos difíceis. Foi inclusive o assistente técnico na conquista do acesso de volta à elite do Campeonato Chileno em 1990, na única vez em que os Azules tiveram que disputar a segunda divisão. Seria mais um feito para ampliar a imagem do ídolo.

Leonel Sánchez também atuou como embaixador da Universidad de Chile. E o clube tantas vezes fez questão de homenagear o maior jogador de sua história ainda em vida. O estádio usado pelas categorias de base, onde ele mesmo viveu os primórdios de sua carreira, passou a se chamar “Estádio Leonel Sánchez”. De qualquer maneira, o sonho do craque era batizar a casa própria de La U ou ao menos um setor das arquibancadas quando o clube construísse sua casa. Isso não foi possível de presenciar, mas não há dúvidas que o nome de Sánchez será o primeiro da lista entre as escolhas.

Durante os últimos meses, Leonel Sánchez lidou com diferentes problemas de saúde e ficou bastante debilitado. Tinha uma doença pulmonar e chegou a ser internado por Covid-19 em fevereiro. O adeus não deixa de ressaltar como até em seus últimos dias foi um lutador. Entre as muitas homenagens em seu adeus, as principais vieram da Universidad de Chile. Ao longo do mês de abril, serão várias ações, incluindo o uso de uma camisa preta em luto e de uma inscrição no peito para relembrar o Ballet Azul. Os próprios jogadores estiveram presentes no velório. Nada mais justo para honrar a memória de quem melhor simbolizou a grandeza dos Azules. Leonel Sánchez sempre será sinônimo do maior período do clube e também da melhor campanha mundialista do Chile. É eterno.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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