América do Sul

Não é clássico sul-americano se não tem cartão vermelho

O domingo foi particularmente especial no que tange a rivalidade sul-americana em três dos principais campeonatos do nosso continente.

Na Argentina, no Chile e no Uruguai, os maiores clássicos tomaram conta da tarde dominical e de uma forma que não poderia ser menos visceral, brigada, quase sangrenta. As torcidas da Universidad de Chile e do Peñarol podem comemorar tranquilamente o dia que passou, enquanto Boca e River empatam no duelo menos movimentado dos três.

No geral, muitos cartões vermelhos, uma virada, uma goleada e um empate murcho. Faltou só a entrada de algum cachorro em campo. Talvez até tenha acontecido e não saibamos, mas vá lá. Vamos a um rápido giro no drama e nas guerras travadas por alguns dos grandes times da América do Sul. Foi muita emoção para apenas um domingo.

La U e a paciência premiada

La U vence Colo Colo

Tudo começou às 13 horas de Brasília, quando no estádio Nacional, Universidad de Chile e Colo Colo se enfrentaram em busca de uma vida melhor na tabela do Chilenão. O Cacique precisava dos três pontos para tentar sair do marasmo do meio da classificação. No caso, todos os concorrentes diretos tropeçaram e um triunfo diante dos Corujas teria caído bem. La U, pelo contrário, queria encostar nos líderes.

Apelando demais para as faltas, o Colo Colo passou a maior parte do tempo dominando o rival e o placar. Ainda que isso representasse levar muitos cartões no meio do caminho, o Cacique se mostrou agressivo. Tanto com a bola nos pés como sem ela. Ao todo foram sete amarelos e dois vermelhos, o último deles para Mena, já nos acréscimos do segundo tempo. Muñoz abriu o placar para o Colo Colo, Duma empatou para La U e Fuenzalida colocou novamente os alvinegros na frente.

Após a volta do intervalo, a história mudou completamente. Sabendo que teria de reagir e mostrar um futebol à altura dos últimos anos, a Universidad de Chile foi à luta. Cortes Pinto deixou tudo igual e aí a corda rompeu para o lado do Cacique. Rendido em campo e só assistindo aos contragolpes de La U, o Colo Colo continuou apelando e viu Mena e Muñoz serem expulsos pelo árbitro. Pouco antes do apito final, Aranguiz fez o terceiro e cravou o punhal nos rivais, que empacam na 9ª posição com 18. Dois pontos atrás da líder Unión Española, La U chega aos 29 pontos.

Boca e sua pior sequência na história do Campeonato Argentino

O futebol é mesmo engraçado. Ano passado o River voltava à Primeira divisão argentina e poderia enfrentar seu rival no maior clássico do país. Desta vez as situações são opostas. Enquanto os Millonarios brigam no pelotão superior, os Xeneizes se concentram na Libertadores e fazem uma campanha pífia, com 11 partidas sem saber o que é vencer.

Às vésperas de encarar o Corinthians no Pacaembu valendo uma vaga nas quartas de final, o Boca Juniors recebeu o River em La Bombonera e bem, ficou só no empate e com dez jogadores em campo. Lanzini abriu os trabalhos logo aos dois minutos de jogo e deu toda a pinta de que o barco boquense iria virar mesmo dentro de casa.

A explosão da torcida nas bancadas veio com gol do sempre emocional Santiago Silva, que incendiou a moral dos xeneizes com um gol aos 38 do primeiro tempo. Na segunda parte, muito nervosismo, jogo amarrado, muita marcação, aquela coisa típica de clássico que não é bem uma decisão. No quesito cartões amarelos, também tivemos empate: quatro para cada lado. Só que Guillermo Burdisso (irmão de Nicolás, zagueiro da Roma) quis ser diferentão e levou um vermelho aos 45 da etapa complementar. Para a sorte do rapaz, isso não complicou muito seus colegas em campo. Ficou por isso mesmo, aliás. 1 a 1 e com declarações polêmicas trocadas entre os técnicos Ramón Díaz e Carlos Bianchi.

River em 3º com 22 pontos, 4 atrás do Lanús, líder do Torneo Final. Lá embaixo, na 18ª posição e com apenas 10 pontos, o Boca seguirá seus planos de conquistar a América. E terá de segurar o Corinthians no Pacaembu para tal.

Sacolada carbonera contra apenas oito do Nacional

Zalayeta Peñarol

Ninguém disse que seria tão sofrido, brigado, dramático e triste para o torcedor do Nacional. O maior clássico uruguaio aconteceu no Centenario, em Montevidéu, para delírio das duas torcidas que tomam conta do país. Na tabela do campeonato, por outro lado, quem manda é o Defensor, com 25 pontos. Seguido do River Plate e dos dois gigantes, os violetas acompanharam de fora uma batalha de um time só contra um Nacional em frangalhos emocionais.

O primeiro golpe do Peñarol foi executado com a maior crueldade possível. Tony Pacheco, ídolo carbonero, foi às redes com menos de cinco minutos no relógio. O segundo golpe veio do próprio Nacional, com a saída do atacante Iván Alonso, lesionado. Loco Abreu veio em sua vaga e pouco fez para evitar a derrocada do Bolso. Zalayeta caprichou na pontaria e aumentou para 2 a 0, cutucando a ferida do rival tricolor, que trocou a valentia pelo destempero e caiu vertiginosamente de produção.

Díaz e Damonte, um dos destaques do Nacional na temporada, tanto bateram que levaram o segundo amarelo e foram mais cedo para o chuveiro em questão de seis minutos na etapa complementar. Tudo bem que já estavam perdendo por dois gols, mas só mesmo a rivalidade e a sensação de vexame de perder de um rival justifica a agressividade excessiva vista pelos atletas do Bolso. Aguirregaray sepultou o arquirrival por meio de um pênalti, marcou o terceiro e a partir daí foi só festa do lado aurinegro. Peñarol 3 a 0 no placar.

Dois minutos depois, Núñez também viu o cartão vermelho por uma entrada violenta e deixou o Nacional com oito homens em campo. E bem sabemos que sem condições psicológicas, qualquer reação se torna impossível. É de se esperar que o tricolor se recupere jogando em casa diante do Real Garcilaso na Libertadores. A missão do Peñarol nessa tarde era só uma e foi cumprida: desestabilizar seu grande rival num momento importante da temporada.

De franco atirador, o plantel carbonero ainda conseguiu ultrapassar o Nacional e agora chega à 3ª posição com 20 pontos, contra 19 do Bolso, logo atrás.

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Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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