América do Sul

Mina arriscava a vida pegando carona em caminhões no começo da carreira

Foi um mês transformador para Yerri Mina. O primeiro semestre do ano foi duro para o zagueiro colombiano, que encontrou dificuldades para se adaptar ao Barcelona. No entanto, depois de ser reserva na estreia da seleção colombiana na Copa do Mundo, ganhou a posição de Oscar Murillo e marcou gols importantes nas três partidas seguintes. Valorizou-se e entrou no noticiário de especulações em clubes como o Manchester United.

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O principal nome da Colômbia no Mundial deu uma entrevista muito interessante para a revista Bocas em que detalha cada etapa da sua carreira. Um dos relatos mostra que o destemor para pular e colocar a cabeça em cruzamentos não é por acaso. A coragem faz parte da sua personalidade desde a adolescência, por volta dos 14 ou 15 anos, quando arriscava sua vida para ir a Cali, 45 quilômetros ao norte da sua cidade natal, Guachené, fazer testes no América. Como nem sempre tinha dinheiro para a passagem, pegava carona em caminhões, mas sem avisar o motorista.

“Desde às seis da manhã, eu estudava, e da escola pegava o ônibus ou arriscava minha vida em um caminhão”, disse. “Quando ia para Cali, eu saía para a estrada e me escondia um pouco. Quando passavam os caminhões, eu me pendurava atrás sem ser visto. Eu arriscava minha vida porque, para sair de um caminhão em trânsito, você tem que pular de qualquer jeito. E era assim na volta. Senão, eu precisava caminhar muito. Chegava tarde em casa, às onze da noite, à meia-noite. E no outro dia, fazia o mesmo. Na ida, caminhava uma hora e meia. Na volta, a mesma coisa. A verdade é que não consegui seguir esse ritmo e decidi acabar meus estudos com calma”.

Filho de uma família de jogadores de futebol, começou jogando como goleiro, mas foi convencido a avançar pelo pai, que era especialista na posição. “Eu acredito que ele sabia o sofrimento pelo qual havia passado porque os goleiros precisam esperar muito e ele não queria isso para mim”, disse. A família materna também era muito envolvida com o futebol. O jogador tem conversas frequentes sobre sua profissão com a mãe, que gostava muito do Chelsea por causa de Didier Drogba. Mina, por sua vez, era torcedor do Barcelona, graças a Ronaldinho Gaúcho. “Este homem entrava em campo e fazia as pessoas sorrirem. É como Messi agora. Ele faz maravilhas. Eu tentava fazer as jogadas de Ronaldinho”, contou.

Aos 17 anos, entrou nas categorias de base do Deportivo Pasto e, motivado pelos problemas financeiros da sua família, trabalhou duro para ser rapidamente promovido. “Eu não tinha como enviar dinheiro para a minha mãe porque eu recebia apenas para comer. Descobri por alguém da família que minha mãe teve que pedir dinheiro emprestado ao meu primo Camilo para as coisas de casa. Eu chorei. Chorei dois dias seguidos e disse a mim mesmo: ‘Vou me matar para conseguir tudo que minha mãe precisa’. Na segunda-feira, fui treinar pensando em machucar todos os atacantes. Foi assim durante um mês, dando duríssimo, até que me promoveram e me colocaram para estrear”, disse.

Em seguida, foi para o Independiente Santa Fé e, entre os dois clubes colombianos, aprendeu a cabecear com excelência. “Vou falar a verdade: eu não sabia cabecear. Quando o goleiro adversário saía, e eu ficava mano a mano, todo mundo ganhava de mim. Meus companheiros ficavam com raiva, me diziam para ‘ir com tudo, ir com força’. Comecei a trabalhar duro nisso. No Santa Fé, treinava todos os dias com Darío Rodríguez (atacante colombiano, ex-Santa Fé) até que não ganhassem mais nenhuma de mim”, afirmou.

Foi para o Palmeiras, apesar de propostas da Alemanha e da Itália, porque queria ganhar mais experiência no futebol brasileiro. Também chegou à seleção colombiana e encontrou oportunidades para mostrar a alegria das suas comemorações para o mundo. Segundo Mina, as crianças nascem em Guachené sabendo dançar. “A verdade é que quem não dança não é de lá. Todo mundo dança. As crianças nascem mexendo o corpo”, contou. Na seleção colombiana, o responsável pelas coreografias é Juan Cuadrado.

Destaque do Palmeiras campeão brasileiro, Mina foi contratado pelo Barcelona. Não se arrepende, apesar dos problemas de adaptação, porque sempre foi um sonho que tinha e afirma que cresceu muito como homem e jogador. Mas realmente passou por meses difíceis. “Eu pensava muitas coisas. Muitas coisas ruins. Pensei que estava acabado. Tão mal que Paulinho e Coutinho me animavam o tempo inteiro: ‘Fique tranquilo que as coisas vão dar certo’. E isso, ao mesmo tempo em que motiva, também desmotiva, porque você quer sempre jogar. Eu entendo que haja jogadores espetaculares, mas eu também queria ter uns minutos. Mas não aconteceu. E os poucos minutos que tive, fui mal. Às vezes sentia que tudo estava vindo abaixo, que nada dava certo, nem dar um passe no treinamento”, disse.

Para se enturmar, tomou uma decisão que talvez não tenha sido muito inteligente: fazer apostas com Lionel Messi e Luis Suárez em cobranças de falta. “Comecei a apostar com eles quem batia melhor nos treinamentos. Quando me dei conta, todos os dias eles levavam 50 euros de mim. A verdade é que são monstruosos. Colocam a bola onde querem”, contou. Foram apenas seis partidas com a camisa do Barcelona. Tanto que o técnico da Colômbia, José Pékerman, decidiu começar a Copa do Mundo com Murillo, o que também não caiu bem para Mina.

“Eu dizia: ‘Minha Copa tem que ser esta” e estava convencido. Mas não me colocaram como titular na estreia e fui para o chão. Eu, que treinava calado, desmoronei. Cuadrado foi quem me animou. Mas estava destroçado. Inclusive, acredito que o professor Pékerman percebeu minha dor”, contou. O pior momento da sua carreira, porém, foi quando se lesionou pelo Palmeiras três vezes seguidas. “Nunca havia me machucado. Saía de uma lesão e entrava em outra. Não sabia o que estava acontecendo”, contou.

Ao colocar Mina entre os titulares, na segunda rodada da fase de grupos, Pékerman acertou. Além de muito bem na defesa, Mina fez gol contra Polônia, Senegal e Inglaterra. Sempre de cabeça, sempre em jogadas ensaiadas. Exceto nas oitavas de final, contra os ingleses, que foi mais no desespero. “Era tudo ou nada. Eu olhava para o banco e ninguém me dizia nada. Então, tomei a decisão de ir para a frente e lutar por tudo que chegasse. E aí acontece a jogada maravilhosa do chute de Mateus (Uribe) que resulta em escanteio. O resto já sabemos: eu subo e marco o gol aos 47 minutos do segundo tempo. Pena que saímos na loteria dos pênaltis”, disse.

No momento, seu futuro é incerto. Especulado em vários clubes, não sabe se sairá ou continuará no Barcelona. Nada que o preocupe. “Não tenho ideia do que farei, mas estou tranquilo. Tenho 23 anos e muito futebol pela frente”, encerrou.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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