América do Sul

Suárez quer revolucionar futebol uruguaio com time próprio na elite e CT que leva seu nome

Trivela visitou a Cidade Esportiva LS, inaugurada por Suárez em março, com seis campos de futebol e mega estrutura de treinos

O vento sopra insistente e cortante numa típica manhã de outono na Cidade da Costa, em Canelones, no Uruguai. Espalhados por oito hectares, estão campos de futebol a perder de vista. São seis ao todo, além de dois miniestádios, vestiários, academia e até um lago artificial para irrigar os gramados. É neste vasto terreno de 80 mil metros quadrados, a cerca de 40 minutos de carro do centro de Montevidéu, que Luis Suárez pretende subverter a lógica do futebol uruguaio, cujas páginas mais recentes, ele escreveu com (muitos) gols.

Foi lá que o atacante do Grêmio inaugurou em março deste ano a Cidade Esportiva LS, um mega centro de treinamentos que poderia muito bem servir a Nacional ou Peñarol. Apenas os dois gigantes do Uruguai têm à disposição uma estrutura semelhante à construída pelo ídolo de toda uma nação. Um artigo de luxo para um futebol que por vezes parece ter parado no tempo.

Mas o complexo é apenas o segundo passo de um plano ainda mais ambicioso do Pistoleiro. Além de sua ciudad deportiva, o atacante também fundou o Deportivo LS. O clube hoje já tem equipes em todas as categorias da base –  do sub-8 ao sub-17 –, tanto no masculino quanto no feminino, e são mais de 700 atletas. Mas Luisito quer mais. Suárez quer ter um time na elite do campeonato uruguaio em um futuro não tão distante.

O plano de Suárez para ter um time na elite

Suárez quer ver o Deportivo LS competindo com Nacional, Peñarol e por aí vai. Mas não a qualquer custo, ou de qualquer jeito. O atacante quer que o clube e a cidade levem bem mais do que as suas iniciais como nomes de batismo. O plano de Luisito para chegar à elite é inverter a lógica que rege o futebol uruguaio e começar por baixo.

A Associação Uruguaia de Futebol (AUF) exige estruturas de categorias de base e futebol feminino apenas para os times que disputam a primeira divisão. É comum que equipes rebaixadas abram mão de suas divisões menores para cortar custos para priorizar o time principal. Suárez pretende fazer o oposto disso.

– Para que fizemos a Cidade Esportiva? Não só para ter as categorias de base. Mas projetando o dia de amanhã em que a gente possa competir com um time profissional. Mas estamos fazendo tudo ao contrário do que se faz no futebol uruguaio. Não queremos ser como muitas equipes do Uruguai que surgem, vão bem por dois, três anos e depois desaparecem. Queremos que essa estrutura seja o início de algo que seja sustentável com o tempo – afirma o gerente esportivo Danilo Alvez à reportagem da Trivela durante uma visita à Cidade Esportiva.

Suárez, com a sua família, na inauguração da Cidade Esportiva LS (Divulgação)

A estrutura da Cidade Esportiva LS

  • 3 campos de futebol 11 (dois deles, com grama natural)
  • 3 campos de futebol 7 (um deles, com grama natural)
  • 2 miniestádios
  • prédio administrativo
  • academia
  • área de convivência
  • refeitórios
  • quatro estacionamentos
  • lago artificial

Por isso, o investimento inicial não foi em um time profissional, mas na estrutura e na formação dos atletas. A Cidade Esportiva conta com três campos de futebol 11. São dois com grama natural e um estádio para 1,4 mil pessoas com gramado sintético. São mais três canchas de futebol sete, uma delas com miniestádio para 600 torcedores.

Há um prédio administrativo, quatro estacionamentos, academia… Tudo à disposição dos garotos que atuam pelo Deportivo LS e de algumas outras equipes que já utilizaram a estrutura para treinamentos. No dia da visita da Trivela, a seleção sub-15 do Uruguai enfrentou a Venezuela em um amistoso.

O gramado principal da Cidade Esportiva (Eduardo Deconto)

O caminho até a elite

O Deportivo LS é uma Sociedade Anônima Desportiva (SAD) e inclusive já recebeu convites da AUF para ter um time profissional. Mas no momento, o clube entende que é preciso estruturar melhor as categorias de base e a filosofia de futebol antes de dar o próximo passo. Hoje, a Cidade Esportiva LS se mantém com o pagamento de mensalidade das escolinhas, na casa dos US$ 60, além dos sócios do complexo.

Quando o clube decidir militar no futebol “principal”, o caminho será tortuoso. As equipes iniciam na quarta divisão, a Nacional D, criada há dois anos para receber os times novatos do país. Ela ainda funciona sob caráter amador, assim como a terceira divisão. Apenas as duas primeiras divisões do Uruguai são profissionalizadas. Ou seja: o grande desafio será saltar da terceira para a segunda divisão. Do amador para o profissional.

– Nós vamos pelo caminho que acreditamos ser o correto. Primeiro, ter a estrutura, a cidade esportiva. Depois, os jovens. E só então projetar uma primeira divisão. Mas é passo a passo. Nós queremos ter o caminho claro de chegar à primeira divisão e ter tudo estruturado. Para isso, estamos contribuindo desde baixo. Criar essa comunidade na Cidade da Costa para que tenha uma equipe de primeira divisão no futuro. E que as pessoas se identifiquem com a equipe – afirma Alvez.

CT do time de Suárez tem até miniestádio (Eduardo Deconto)

Suárez quer definir filosofia que o represente em campo

Muito antes disso, Suárez e seu estafe tem outras diretrizes a resolver. Ao final desta temporada, o atacante se reunirá com a diretoria de futebol do Deportivo LS para definir qual será a filosofia de futebol ensinada e desenvolvida em todas as categorias – do sub-8 ao futuro profissional. Hoje, as discussões nos corredores da Cidade Esportiva são em tom de dúvida e brincadeira.

Não se sabe se Luisito irá querer seguir o que aprendeu nos tempos de Barcelona, ou se irá optar por um modelo de jogo mais combativo, à moda Atlético de Madrid. O certo é que Suárez quer se sentir representado pelo futebol praticado no clube que leva seu nome.

Outro ponto importante do projeto será a montagem do elenco. O Deportivo LS pretende ter um plantel todo formado por jogadores pratas da casa, e não buscar contratações no mercado. A lógica é: formar atletas, fazer boas vendas e reinvestir o dinheiro no clube.

– Ele já nos passou algumas coisas que ele gostaria de ver em suas equipes. Um bom controle orientado, que é muito difícil no futebol sul-americano e se aplica muito na Europa. Depois, a pressão pós-perda. Mas o principal é não exigir do garoto, quando ele começa, o controle e o passe. É preciso deixá-lo jogar. O futebol sul-americano se joga com talento, mas se você formá-los da mesma maneira que um europeu, eles nunca mais vão comprar um jogador. Isso se está perdendo no Uruguai, no Brasil, na Argentina. Então, ao menino que é talentoso, que ele não deixe de ser. Essas foram as três coisas que Luis no pediu. O modelo de jogo, ainda vamos projetar nesse processo – explica o gerente esportivo.

A planta da Cidade Esportiva LS (Reprodução)

Suárez é gestor linha dura

Luisito fez questão de acompanhar todos os passos da construção da Cidade Esportiva, mesmo à distância e em meio à rotina de jogos desde os tempos de Atlético de Madrid. Ele chegou a cobrar pessoalmente os responsáveis pela obra para que agilizassem os trabalhos durante uma visita antes da inauguração.

Com tudo em pleno funcionamento, Suárez não consegue acompanhar o dia a dia. Mas pede relatórios quase diários para acompanhar tudo de perto. Nos poucos jogos a que assistiu in loco, Suárez vira um “presidente” exaltado. Torce e sofre das tribunas e chega a passar orientações aos jogadores enquanto acompanha as partidas.

Suárez também investiu pesado para criar um clube social

Transformar o Deportivo LS em um time profissional de elite no Uruguai hoje parece mera questão de tempo. Mas a verdade é que o projeto começou bem menos ambicioso ainda em 2018, quando ter uma equipe na primeira divisão uruguaia sequer passava pela cabeça de Luisito.

Bem antes de construir a sua cidade desportiva, Suárez aguçou seu lado investidor para inaugurar o Complexo LS também na Cidade da Costa, em Canelones. Totalmente voltado a atividades recreativas, sem pretensões de alcançar o esporte de alto nível. O espaço funciona como um clube social a cerca de 30 minutos do centro de Montevidéu.

Complexo LS tem 3 mil sócios e funciona como clube social perto de Montevidéu (Eduardo Deconto)

Basta botar os pés no local para perceber de imediata que as instalações são de última geração, dignas de causar inveja. Os 3 mil sócios inscritos têm a sua disposição duas quadras de grama sintética com churrasqueiras, que abrigam tanto aulas de futebol para crianças, quanto eventos empresariais e festas de aniversário. Há também uma academia com equipamentos modernos, um espaço para yoga e aulas de dança e uma sala para spinning. Mas o carro-chefe é uma piscina térmica semi-olímpica, raridade nas bandas orientais do Uruguai.

As referências ao anfitrião estão por todos os lados. Logo na entrada, os visitantes são recebidos por totens que contam a história de Suárez e as camisas que vestiu ao longo da carreira – à exceção de Grêmio e Nacional, esta última por questões mercadológicas. As duas quadras de futebol 5 foram batizadas como homenagens. A cancha 1 se chama Walter Ferreira, fisioterapeuta que o recuperou a tempo de disputar a Copa do Mundo de 2014 e que faleceu em 2016. A cancha 2 se chama Maestro Tabárez.

– Independente do investimento, e é um valor muito importante em dólares, o mais destacável é que Luis tenha decidido investir no Uruguai. Ele quis devolver muito do que o futebol lhe deu. É um projeto familiar, que está crescendo. E o mais importante é que ele tenha decidido investir aqui no Uruguai, com instalações de última tecnologia. O Luis quer fazer parte desse projeto, quer trabalhar nesse projeto. É o que ele gosta, o que o entusiasma com o futebol – afirma o diretor de marketing Aldo Villar.

O complexo começou a operar com 14 funcionários. Hoje, são 140, distribuídos entre o complexo e a ciudad deportiva. A parte social – com os 3 mil sócios em dia, além dos alunos das escolinhas e do aluguel dos espaços – é o que mantém o projeto sustentável. É o que mantém também o sonho de Suárez de ter um time na elite uruguaia. Um time que leva as iniciais do grande ídolo da nação: o Deportivo LS.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Jornalista pela PUCRS, é setorista de Seleção e do São Paulo na Trivela desde 2023. Antes disso, trabalhou por uma década no Grupo RBS. Foi repórter do ge.globo por seis anos e do Esporte da RBS TV, por dois. Não acredite no hype.
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