Vontade não faltou ao Cruzeiro, agressivo, mas insuficiente para reverter o cenário contra o Boca

As melhores noites de Libertadores são aquelas nas quais se desata a loucura. Quando a insanidade pelo resultado toma a mente e os dois times precisam jogar no fio da navalha. O Cruzeiro x Boca Juniors desta quinta-feira, no Mineirão, não poderia ser de outra maneira. O contexto e o jogo de ida faziam o sangue subir à cabeça. Não era uma questão apenas de se classificar às semifinais, mas de manter a própria honra, de fazer o outro lado engolir as provocações, de provar que as injustiças da Conmebol (e os dois times viam seus motivos para se queixar) não impediriam a glória. Assim, natural que a ira possuísse os oponentes, suando e babando pelo resultado. Os cruzeirenses deixaram que o descontrole tomasse sua mente no início da partida. No entanto, passaram a canalizar essa energia em forma de vontade. Até que o nervosismo e o descompasso o atrapalhassem outra vez. O empate frustra a Raposa, que desejou e lutou até o fim. Sucumbiu ao empate por 1 a 1, entre o que se queixa e o que precisa ter autocrítica. Os xeneizes seguem em frente para encarar o Palmeiras na próxima etapa.
Os 2 a 0 na Bombonera traziam um contexto profundo, de todos os imbróglios envolvidos e das carências que o Cruzeiro apresentou em campo. Era preciso se reerguer e Mano Menezes confiou na escalação costumeira, com a volta de Dedé à zaga, mas uma postura mais voraz. Enquanto isso, o Boca Juniors vinha com um time mais físico no meio-campo, mas leve no ataque, em busca dos contra-ataques. Seria a tônica de um duelo no qual a Raposa lidaria com uma situação na qual não costuma estar confortável: propor o jogo.
Depois de uma recepção arrepiante da torcida no Mineirão, foi um primeiro tempo bastante brigado. O Boca Juniors se continha em seu campo de defesa e buscava as escapadas de seu trio de frente. Já o Cruzeiro precisava se impor contra os visitantes, mas apresentava dificuldades na criação. O primeiro lance veio logo de cara, em chute de Arrascaeta que o goleiro Agustín Rossi segurou. De qualquer maneira, os celestes erravam demais os lances, quando tinham jogadores de qualidade técnica suficiente para pensar melhor o jogo e tentar trabalhar pelo chão. Não aproveitavam as jogadas pelas pontas ou as triangulações. A insistência em lançamentos e cruzamentos para acelerar o jogo incomodava bastante, sem gerar resultados.
O Boca dava os seus sustos. Mauro Zárate e Sebastián Villa movimentavam-se bem. E o próprio Fábio seria testado, em chute de longe de Pablo Pérez que o goleiro espalmou. Era um jogo pegado e marcado por muitas faltas, que travavam a sequência e beneficiavam os xeneizes, gastando o relógio. Demoraria ao Cruzeiro acordar um pouco mais para o jogo. A torcida se incendiou de vez aos 20 minutos, a partir de grande jogada de Arrascaeta, em que Robinho escorou e Thiago Neves isolou. As saídas celestes se concentravam pela esquerda do ataque, mas nem sempre rendiam jogadas de linha de fundo, que pudessem abrir a defesa adversária. Pouco depois, em resposta, duas jogadas dos argentinos, em que as tentativas de Zárate e Villa passaram rasgando a área.
Thiago Neves, em particular, destoou ao falhar nas melhores chances para finalizar. Aos 29 minutos, Egídio deu um cruzamento na medida e o meia se projetou dentro da área, pronto para fuzilar, mas não acertou a bola em cheio. De qualquer forma, o Boca Juniors conseguia esfriar o jogo. Goleiro com várias deficiências, Rossi foi pouco exigido. Mas acabou salvando o seu time aos 40, em bomba de Lucas Silva, que mandou para escanteio. Por fim, nos acréscimos, aconteceu o lance mais controverso. O árbitro já vinha marcando faltas em demasia, sobretudo em bolas levantadas na área. Após cobrança de escanteio, Barcos chegou a mandar às redes, mas o tento foi anulado. Marcou jogada perigosa de Dedé, avaliando que o zagueiro levantou o pé em demasia durante a disputa com Rossi. Na saída de campo, muita pressão para cima da arbitragem.
Durante o segundo tempo, as circunstâncias conspiraram à favor do Cruzeiro. O Boca Juniors resolveu recuar e não conseguia acertar mais as suas saídas. Foi o que obrigou ainda mais a Raposa a adotar uma postura agressiva, mesmo que se atrapalhasse nas definições. Havia muito ímpeto, embora sem clareza nas ideias. E quando saiu uma boa jogada, o apito soou corretamente. Aos nove minutos, após lançamento longo, Barcos ajeitou para Arrascaeta, que invadiu a área e sofreu o pênalti. O árbitro até marcou, mas voltou atrás depois que o impedimento do centroavante foi flagrado. Aumentava as tensão dentro de campo.
De novo, o destino auxiliou ao Cruzeiro, para que o time ganhasse uma injeção de ânimo. Mano Menezes botou Sassá no lugar de Lucas Silva. Rossi se enroscou com uma bola na linha de fundo e mandou para escanteio. Depois da cobrança e dos desvios na área, justamente o substituto apareceu no segundo pau e emendou de primeira, balançando as redes em seu primeiro toque na bola. O lance fez o Mineirão vibrar mais forte e os celestes crescerem. Léo teria uma boa chance, mas mandou para fora. Logo Raniel entrou no lugar de Barcos.
Do outro lado, o Boca Juniors mal se arriscava. A partida estava nas mãos do Cruzeiro, que pressionava e encurralava os xeneizes ao redor de sua área. Pressão incessante que só expunha as fragilidades dos oponentes, sobretudo os vacilos de Rossi em suas saídas do gol. Faltava aproveitar melhor esses erros. Em meio aos excessos de cruzamentos, os cruzeirenses não conseguiam ser tão efetivos. E o time acabaria se perdendo diante das reclamações contra a arbitragem. Dedé, que já tinha recebido um cartão amarelo por disputa com goleiro no início da etapa complementar, voltou a ser expulso. Mais um bocado de confusão.
Foi quando a loucura desatou de vez no Mineirão. O Boca Juniors vislumbrou a chance de matar os adversários. O Cruzeiro se desesperava em busca da bola salvadora. Wanchope Ábila, que saíra do banco, carimbou a trave de Fábio em uma incrível chance desperdiçada. Depois, do outro lado, em uma saída errada de Rossi, Raniel ficou com a meta vazia e demorou demais, permitindo que o arqueiro se recuperasse. E ainda haveria um chute de Edílson que, após desviar no meio do caminho, tirou tinta da trave. Não era o dia. Nos acréscimos, Pavón exigiu uma boa defesa de Fábio. Aos 48, aconteceu o golpe fatal, a partir de um erro de Léo. O ponta argentino recebeu a bola limpa e encheu o pé para confirmar a classificação. Na saída de campo, bate-boca entre os técnicos, choro entre os celestes e alguma revolta pelo resultado, sobretudo pela condução do árbitro “picotando” o confronto.
O grande destaque no Mineirão, no fim das contas, foi a torcida do Cruzeiro. Lotou as arquibancadas. Transmitiu sua energia ao time desde os primeiros minutos. Cantou alto a todo tempo, mesmo que tenha reclamado da arbitragem em meio às decisões contrárias à equipe. Já o momento mais emblemático aconteceu após o gol de empate do Boca. A multidão celeste pareceu gritar mais alto, empurrando os anfitriões. Sabem que terão que seguir em frente, especialmente com a final da Copa do Brasil no horizonte.
O Cruzeiro merece elogios por sua agressividade. Ainda assim, não jogou de maneira suficiente. Se os problemas na finalização e na construção ofensiva vinham sendo problemas ao time de Mano Menezes nos últimos meses, desta vez há um preço que se paga. Pela maneira como a Raposa dominou a partida no segundo tempo, poderia ter criado mais oportunidades, especialmente diante dos deslizes do Boca Juniors. É um time que precisa de mais variações e mais repertório. Não demonstra isso, embora tenha jogadores para atuar de forma mais incisiva. Há razão para se reclamar da arbitragem pelas circunstâncias do primeiro jogo, o que não anula a consciência necessária dos celestes sobre aquilo que precisavam fazer.
Já o Boca Juniors chega às semifinais como o time em pior momento dentro os quatro classificados. Guillermo Barros Schelotto conta com um bom elenco e vários jogadores capazes de decidir, mas que está longe de encantar. Prefere se conter mais e resolver em lances pontuais, como este Cruzeiro ou como o Palmeiras que vai encarar. Porém, em uma fase pior que os próximos adversários e sem tantas possibilidades de resolver os jogos. Confia mais na mística do que na bola. Que, de qualquer maneira, renderão mais noites de loucura na sequência da Libertadores.
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