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Veiga teve paciência, superou as desconfianças e se tornou o meia que o Palmeiras sempre quis

Desde a chegada de Abel Ferreira, ele desabrochou em um meia-atacante letal e tem colecionado números de um ídolo

Compreensível que haja uma fixação com o meia em um país que teve tantos camisas 10 fantásticos, mágicos, encantadores. Quando um time sofre com o setor de criação, o diagnóstico mais comum é que falta um meia, como se fosse fácil encontrar um jogador que sozinho consegue ser um polo de criatividade, ou como se esse fosse o único remédio. Como o Palmeiras teve problemas no setor de criação durante muitos momentos dos últimos anos, era comum ouvir essa opinião nas arquibancadas do Allianz Parque: cadê o meia?

O Palmeiras teve vários meias. Contratando como Alexandre Mattos contratava, era impossível não ter tido um punhado deles, nem que por acidente. Alguns deram certo, como Moisés, embora não tenha sido exatamente aquele meia clássico que mata a bola no peito, sai driblando e deixa o companheiro na cara do gol cinco vezes por partida. Robinho foi uma engrenagem importante antes de ser enviado ao Cruzeiro. Outros chegaram com muita promessa, como Cleiton Xavier e Alejandro Guerra, e não vingavam. Mais alguns tiveram poucas chances, e durante muito tempo pareceu que Raphael Veiga estava fadado a esse terceiro grupo.

Quando Veiga chegou, o Palmeiras gerava manchetes com reforços mais badalados que melhorariam um time campeão brasileiro. Comemorava a chegada da dupla do Atlético Nacional, Miguel Borja e Guerra, e também de Felipe Melo. Em breve, traria Bruno Henrique e Deyverson. Veiga tinha outro perfil: destaques do Campeonato Brasileiro que Alexandre Mattos empilhava para evitar que os adversários contratassem. Encontrar um espaço para que tentassem se desenvolver sempre pareceu ser a segunda prioridade. E mesmo entre os jogadores dessa linha em 2017, quem mais se destacou foi Keno.

Em um ano, Veiga fez 22 jogos e dois gols pelo Palmeiras. Cerca de 300 minutos no Campeonato Brasileiro, pouco mais de três partidas completas. É difícil aprender quando o jogador não sente que pode errar. Se tem apenas 25 minutos a cada duas ou três semanas para se provar, eles precisam ser perfeitos: gol, assistência, desarmes, salvar um gatinho em cima da árvore. É ainda mais difícil ganhar confiança. Foi um ano especialmente conturbado do Palmeiras também, com a demissão precoce de Eduardo Baptista, o retorno melancólico de Cuca e uma reta final de temporada sob o comando do interino Alberto Valentim.

E por isso foi tão importante o empréstimo para o Athletico Paranaense em 2018. De volta a Curitiba pelo lado rubro-negro da força, Veiga foi titular e craque em um time histórico que conquistou a Copa Sul-Americana, o primeiro título sul-americano do Furacão. Era intocável no meio-campo. Marcou nove gols e deu oito assistências em 48 jogos, uma delas para Pablo marcar o gol contra o Júnior Barranquilla, no segundo jogo da decisão da Sul-Americana. Seu papel era completamente outro. Não era mais o cara que saia do banco de reservas de vez em quando, mas uma das referências técnicas de um time de alto nível.

“Em um primeiro momento, ele não fica no Palmeiras porque não tinha conhecimento total da posição”, afirmou o ex-jogador Alex, que tinha conhecimento absolutamente total da posição, em entrevista à ESPN Brasil. “E não tinha a confiança do palmeirense. O palmeirense olhava desconfiado. E jogar no Palmeiras sem confiança é muito difícil. Depois que ele vai para o Athletico, joga bem, em um bom nível, conquista títulos importantes, volta para o Palmeiras com o torcedor entendendo que ele pode ser utilizado. E aí, ele ganha minutos e vira titular”. Na realidade, foi quase assim. A última parte demorou um pouco mais.

Veiga voltou a mais um Palmeiras confuso. Felipão, que havia ligado para o jogador para reforçar que haveria um lugar para ele na equipe, foi demitido em setembro, e não é que havia encontrado um lugar enorme. Ele continuava entrando e saindo. Fez apenas cinco jogos como titular com Scolari no Brasileirão e completou 90 minutos (ou seja, não foi substituído) em apenas uma oportunidade. Na Libertadores, apenas três jogos desde o início, e seu tempo em campo ficou ainda menor com Mano Menezes. Surgiram fortes rumores de que iria embora.

Mas, de repente, tudo mudou no Allianz Parque. Mano e Alexandre Mattos foram demitidos ao mesmo tempo, e o Palmeiras, mesmo antes da pandemia, anunciou que não faria mais tantas contratações caras. A principal aposta seria nos garotos. Sem uma concorrência rotativa tão grande, houve mais espaço para Veiga. Ele ainda não foi tão utilizado por Vanderlei Luxemburgo, mas passou a colher os frutos da paciência a partir da chegada de Abel Ferreira.

E desabrochou de vez. Terminou aquele Brasileirão com 11 gols, sete marcados sob o comando do português. Foi titular na final da Libertadores, embora não tenha desfrutado muito da semifinal contra o River Plate, e deu assistência nos dois jogos da decisão da Copa do Brasil contra o Grêmio. Foi eleito o craque da competição nacional por mata-mata. “Fico feliz de encerrar a temporada assim. Nem nos meus melhores sonhos imaginava isso depois de um ano tão difícil. Posso dizer que, depois de tudo o que vivemos, em campo essa foi a minha melhor temporada”, disse.

De rejeitado pela torcida, Veiga transformou-se no quarto maior artilheiro do Palmeiras no século 21 ao marcar contra o Atlético Goianiense. Chegou a 42 gols, superando Valdivia que, com todos os seus problemas, foi um ídolo da torcida palmeirense e um raro espécime daquele meia que habita o imaginário. É o jogador do campeão sul-americano que mais finaliza na Libertadores. Participou de 31 das 35 rodadas do Brasileirão, 29 desde o início, e fez 10 gols.

Não virou o Ademir da Guia, mas se movimenta, arma, entra na área para finalizar, quase sempre com qualidade (passou a fazer uns golaços), e gosta de marcar em clássico. Características de um jogador de meio-campo moderno. Não lida sozinho com o setor de criação alviverde porque ninguém mais faz isso hoje em dia. Ele é uma peça importante dentro de um sistema em que Dudu, Gustavo Scarpa, Danilo, Felipe Melo e outros também ajudam na armação. Para o coletivo funcionar, Abel Ferreira precisa de Veiga, e ele tem retribuído com certa frequência. É tudo que se pode pedir do meia do Palmeiras.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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