Por muito tempo, Marinho permaneceu mencionado mais por folclore do que por bola. Uma entrevista desastrada parecia marcar a carreira do atacante, mesmo que gastasse a bola em algumas passagens de sua carreira. A camisa do Santos, todavia, cairia muito bem ao alagoano e mudaria sua história. O ponta não deixou de ser um jogador simpático a muita gente, até por outras declarações bem-humoradas. Mas quem negava seu tamanho não olhava o todo. Marinho virou uma liderança, passou a dar voz também a questões sociais fundamentais e, sobretudo, atingiu seu melhor nível dentro de campo. Se quem chegou a pedir o destaque santista na Seleção não foi atendido, agora o verá como protagonista de uma final de Libertadores, com uma atuação memorável nesta semifinal contra o Boca Juniors.

O melhor momento de Marinho até sua chegada ao Santos havia acontecido no Vitória. Carregou o time para evitar o rebaixamento dos baianos no Brasileirão de 2016, o que rendeu também uma transferência à China. Em 2018, o Grêmio serviu como uma oportunidade para o ponta recobrar seu espaço no Brasil e parecia um jogador capaz de estourar com Renato Gaúcho. Não aconteceu e, para o Brasileirão de 2019, Marinho virou reforço do Peixe no meio do primeiro turno. Foi um dos melhores negócios já feitos pelos santistas, numa troca que ainda envolveu a saída do bonde David Braz para Porto Alegre. Os R$7 milhões pagos como complemento pelos alvinegros soam hoje como baixíssimos, por tudo o que o reforço deu ao clube em pouco mais de um ano.

Sob as ordens de Jorge Sampaoli, Marinho virou arma ao futebol ofensivo e desandou a brilhar na campanha do vice-campeonato do Brasileirão em 2019. Anotou oito gols, teve algumas atuações maiúsculas e explicou o desempenho excepcional do Santos naquela campanha. O treinador saiu, mas o futebol do camisa 11 não caiu de nível. Pelo contrário, pareceu se tornar mais reluzente, especialmente a partir da chegada de Cuca. Enquanto o treinador acertava seu trabalho após a pandemia, confiar na individualidade de Marinho era essencial. Foi um dos melhores jogadores do Brasileirão durante a largada do campeonato, numa campanha em que o Peixe parecia ir além de suas possibilidades, e é forte candidato ao prêmio de melhor da competição. Mas nada se compara ao que vive na Libertadores, onde realmente pode se consagrar.

Se no início de Cuca no Santos parecia haver uma dependência de Marinho e Soteldo, a melhora do trabalho coletivo da equipe acentuou ainda mais o papel do camisa 11. Mantinha seu estrelato, mas com um time cada vez mais sólido ao seu redor e outros jogadores preparados a assumirem os holofotes nos momentos decisivos. Foi o que aconteceu durante os mata-matas da Libertadores. O ponta, de qualquer forma, se colocava como uma peça imprescindível e um dos mais capazes a fazerem a diferença quando necessário.

Marinho começou a desequilibrar logo nas oitavas, contra a LDU Quito. Sofreu o pênalti e marcou o gol que valeu a vitória no Equador, apesar da atuação mais apagada na derrota na Vila. Diante do Grêmio, depois da partida regular em Porto Alegre, participou ativamente da incontestável goleada na Baixada Santista – com direito a uma pintura. E não seria a Bombonera a intimidar o ponta. Não foi a melhor exibição de Marinho, errando algumas vezes, mas ele não deixou de chamar a responsabilidade. Poderia ter aparecido ainda mais, afinal, não fosse o pênalti que a arbitragem resolveu não marcar.

Talvez aquele lance tenha deixado Marinho ainda mais mordido para o reencontro com o Boca Juniors na Vila Belmiro. Nesta quarta-feira, o Santos contou com uma das melhores versões do camisa 11, em exibição de gala. Começou com uma bola na trave logo no primeiro minuto. O início do alagoano era incessante: dava opção ao time, tentava criar aos companheiros e não deixava de arriscar. Depois seu ritmo cairia um pouco, mas seguia importante para dar velocidade pela direita e para atazanar à marcação. Antes do intervalo, um de seus mísseis aleatórios forçou grande defesa de Esteban Andrada, enquanto o goleiro também precisou se antecipar em boa enfiada a Lucas Braga.

Na volta ao segundo tempo, Marinho também não precisaria de muito tempo para testar Andrada. E num placar que se ampliou rapidamente, com Soteldo marcando o segundo gol do Santos, o companheiro de ataque teria seu principal lampejo em breve. Marinho fez uma jogada de craque no segundo gol, de Lucas Braga, destroçando a marcação e passando para o garoto finalizar nas redes. O lance ainda teve um quê de simbolismo: pelo mesmo lado direito da área onde Carlos Izquierdoz havia cometido o pênalti na Bombonera, desta vez o defensor acabou caído no gramado da Vila, sem achar o camisa 11 na marcação. Nem com falta desta vez, diante da mudança de passo que desnorteou o adversário.

Marinho permaneceu como um dos melhores em campo no segundo tempo. E, afinal, terminou de desestabilizar o Boca. Se Frank Fabra sofria na marcação do ponta, perdeu o controle com uma entrada desleal. Pisou na barriga de Marinho, em lance inadmissível no qual o vermelho parece pouco para punir o colombiano. Nem isso parou o camisa 11. Marinho ainda acertaria a rede pelo lado de fora e tentou um gol olímpico. Também era opção quando Madson teve a chance mais clara para o quarto, mas Andrada barrou o passe. Na bola e na mente, o alagoano venceu sua batalha contra os xeneizes.

Tratar Marinho por folclore, hoje em dia, é mais que falta de respeito: é ignorância. Mas parece natural ter simpatia por um jogador que trata tão bem a bola, que chama a responsabilidade e que não perde sua simpatia além das quatro linhas. É um dos maiores ídolos recentes do Santos e que, agora, revive a tradição do clube na Libertadores. Não foi necessário muito tempo para que o camisa 11 conquistasse o respeito na Vila Belmiro. E, entre tantas grandes campanhas, uma final continental parece o palco merecido à enormidade do futebol exibido pelo alagoano – para muitos, o melhor jogador em atividade no país ao longo de 2020.