Libertadores

Uma lembrança dos emocionantes duelos entre Grêmio e Santos na histórica semifinal da Libertadores de 2007

Grêmio e Santos possuem um longo histórico de grandes jogos. Os primeiros confrontos oficiais seriam logo pesados, pelas semifinais da Taça Brasil em 1959 e 1963. Depois, os duelos se tornaram mais frequentes a partir do Robertão e do Brasileiro. E neste século também é vasta a lista de encontros eliminatórios entre os dois gigantes, sobretudo nas competições nacionais. Santistas e gremistas já se engalfinharam em semifinais de Brasileirão e de Copa do Brasil, ambas com vitórias do Peixe. Nada comparável, porém, ao embate titânico entre as duas equipes na semifinal da Copa Libertadores de 2007. Aqueles jogos, independentemente do lado vitorioso, merecem ser lembrados entre os mais emocionantes confrontos já reunindo times brasileiros na competição continental.

O momento recente favorecia o Santos. Não fazia muito tempo que o Peixe havia enfileirado dois títulos no Campeonato Brasileiro. O time também estava mais acostumado com os desafios da Libertadores, somando sua quarta participação em cinco edições do torneio – em tempos que, afinal, era bem mais custoso chegar à competição continental. Já não era a melhor versão da equipe santista naquele período, mas Vanderlei Luxemburgo estava no comando. Os alvinegros contavam com Zé Roberto em estado de graça, honrando a camisa 10 do clube. Além disso, a equipe contava com outros tantos jogadores de respeito – como Fábio Costa, Kléber, Maldonado, Cléber Santana, Marcos Aurélio e Jonas.

O Grêmio podia ter uma relação especial com a Libertadores, principalmente pelas emoções vividas nos anos 1990, mas seu momento era de reconstrução. O Tricolor voltava ao torneio continental após quatro anos de ausência, em hiato que incluiu a queda à Serie B e a inexorável Batalha dos Aflitos. A equipe treinada por Mano Menezes terminou o Brasileirão de 2006 numa honrosa terceira colocação, à frente do próprio Santos. E tinha uma equipe promissora para lutar no cenário sul-americano. Lucas Leiva estourava e Carlos Eduardo também parecia uma ótima promessa. Diego Souza, aos 21 anos, era outro que chamava atenção no Olímpico. Ainda havia uma lista de nomes como Saja, William, Gavilán, Sandro Goiano, Tcheco e Tuta.

O Santos começou primeiro sua campanha na Libertadores de 2007, eliminando o Blooming nas preliminares. Na fase de grupos, o Peixe manteve os 100% de aproveitamento numa chave com Defensor, Gimnasia de La Plata e Deportivo Pasto. Já nos mata-matas, a equipe de melhor campanha derrotou Caracas e América do México, preservando a invencibilidade. O Grêmio também vinha de bom desempenho, mas com mais riscos. A liderança em seu grupo foi apertada, em chave dura contra Cúcuta, Deportes Tolima e Cerro Porteño. Os tricolores passaram seus seis primeiros jogos sem sofrer gols, até serem derrotados pelo São Paulo na ida das oitavas por 1 a 0. Deram o troco com os 2 a 0 no Olímpico e avançaram. Já nas quartas, a classificação diante do Defensor saiu apenas nos pênaltis.

Como o Santos tinha a melhor campanha, a primeira partida aconteceu em Porto Alegre. O Grêmio possuía a honrosa marca de ainda não ter sofrido gols em casa durante aquele torneio, após cinco partidas. O Peixe, por sua vez, apostava no melhor ataque da competição, capaz de anotar 25 gols em seus 12 compromissos anteriores. E havia um desafio particular a Vanderlei Luxemburgo, que tinha no Tricolor um costumeiro algoz em torneios de mata-matas ao longo da carreira. Assim, a promessa dos santistas era mandar a equipe ao ataque no Olímpico. Já entre os gremistas, a preocupação se concentrava em Zé Roberto. Mano Menezes garantia que não bolaria um esquema especial para marcar o camisa 10, apesar de seu momento excepcional.

O duelo em Porto Alegre fez jus às grandes expectativas ao redor do confronto. O Grêmio venceu por 2 a 0 e construiu uma excelente vantagem, aproveitando-se de suas virtudes. Os mais de 46 mil tricolores empurravam a equipe de Mano Menezes dentro do Olímpico. E a estratégia gremista deu certo. O ataque do Santos não tinha muito respiro, com a marcação encaixada dos gaúchos. Além disso, o ataque do Grêmio conseguiu se impor e construir a vantagem num intervalo de apenas dois minutos.

Depois de um início mais aberto, com lances perigosos de Marcos Aurélio e Tuta, o abafa do Grêmio deu resultado no final da primeira etapa. Diego Souza sofreu pênalti aos 35, numa disputa com Ávalos dentro da área – numa marcação discutível, embora depois de seguidas reclamações do Tricolor sobre faltas não assinaladas dentro da área. Tcheco, voltando de lesão, venceu Fábio Costa na marca da cal com categoria. Dois minutos depois, Carlos Eduardo ampliou. Roubou a bola do zagueiro Adaílton na entrada da área e, apenas com Fábio Costa pela frente, tirou do alcance do goleiro sem dificuldades. Tcheco ainda poderia ter feito o terceiro na sequência, parando em Fábio Costa. Durante o segundo tempo, Luxa acionou Pedrinho, Rodrigo Tabata e Júnior Moraes, mas a proteção reforçada de Mano Menezes evitou grandes temores.

O próprio Luxemburgo se rendeu à capacidade exibida pelo Grêmio na primeira partida. O treinador do Santos saiu do Olímpico declarando que os adversários perderam a chance de conquistar a classificação antecipada, ao não construírem um placar maior. Além disso, ressaltou a maneira como o Tricolor impediu que o Peixe jogasse. Mano Menezes, por sua vez, destacava a maturidade exibida por seus comandados e esperava um reencontro difícil na Vila, precisando jogar com menos volume. Os elogios do lado tricolor também se concentravam sobre a pegada da equipe, sobretudo pela marcação cerrada exercida por Gavilán e Sandro Goiano sobre Zé Roberto na cabeça de área.

O reencontro aconteceu uma semana depois. Diante da missão difícil, Luxemburgo realizou modificações na equipe titular do Santos. Pedrinho era mais um armador para auxiliar Zé Roberto no meio-campo, com Cléber Santana recuado ao lado de Rodrigo Souto – por conta da ausência de Maldonado. Já na frente, o comandante apostou na mobilidade do jovem Renatinho ao lado de Marcos Aurélio, surpreendendo na escolha. O Grêmio manteve a mesma base, com um meio-campo de muita pegada reunindo Gavilán, Sandro Goiano e o “terceiro volante” Diego Souza, além de Tcheco na armação. Lucas Leiva, voltando de lesão, era opção no banco. Já no ataque, Tuta se ausentou por uma contusão muscular e seria suplantado por Douglas Oliveira. Amoroso, suspenso, não pôde ajudar.

O clima inflamado na Vila Belmiro, com a presença ilustre de Pelé, empurrava o Santos. Uma faixa estendida nas arquibancadas mencionava o 10 de dezembro de 1995, com a fantástica virada sobre o Fluminense no Brasileirão. E o começo da partida até parecia indicar uma reviravolta, com o Peixe encontrando espaços para atacar em velocidade. Saja trabalharia mais nos primeiros minutos desta vez do que em toda a partida do Olímpico. Contudo, também não demorou para Diego Souza se erigir como herói. Aos 24, o camisa 7 protagonizou grande jogada pela direita, mas o cruzamento saiu muito forte. Carlos Eduardo evitou o lateral e passou ao próprio Diego, que apareceu para receber do outro lado, na entrada da área. O meio-campista dominou e logo virou soltando uma pedrada de perna direita. A bola morreu no ângulo e nem permitiu que Fábio Costa se mexesse. Neste momento, os alvinegros precisavam de quatro gols para avançar. Mas não desistiriam.

Os problemas do Grêmio começaram logo depois do gol, quando Carlos Eduardo saiu por lesão. E a situação poderia ter ficado pior, não fosse a decisão da arbitragem em aliviar a Sandro Goiano. O volante acertou um tapa em Renatinho e, apesar da reclamação dos alvinegros, só recebeu o cartão amarelo. Depois de um tento anulado e de uma bola no travessão, o empate do Santos aconteceu nos acréscimos. Zé Roberto cruzou e a zaga não afastou completamente. Com a bola viva dentro da área, Renatinho pegou a sobra limpa e fuzilou Saja.

A pressão do Santos se intensificou no segundo tempo, com Luxemburgo tirando Pedrinho e o lateral Alessandro para as entradas de Júnior Moraes e Rodrigo Tabata. A virada aconteceu aos 16 minutos, numa sequência de erros da zaga tricolor. Patrício não cortou o cruzamento de Marcos Aurélio e, na disputa com Saja, Renatinho acabou mandando a bola para dentro com as nádegas. Pouco depois, o atacante sairia para Jonas aumentar a presença de área. O Grêmio, de qualquer forma, dava suas escapadas ao ataque e Diego Souza quase marcou o segundo, barrado por grande defesa de Fábio Costa.

O Santos ressuscitou de vez aos 32 minutos. Zé Roberto faria a diferença para anotar o terceiro gol. Uma cobrança de falta levantada na área do Grêmio ficou viva e o camisa 10 acertou uma chicotada na bola, de primeira, mandando no cantinho de Saja. Neste momento, o milagre nem parecia mais impossível e o Peixe só precisava de mais um gol. Mesmo com um terremoto acontecendo na Vila Belmiro, o tento da classificação não saiu. Mano Menezes fechou mais a casinha, com as entradas de Lucas Leiva no lugar de Douglas Oliveira e Edmílson na vaga de Tcheco. Por mais que o Santos provocasse um abafa, Saja não precisaria realizar novas defesas. Apesar da derrota por 3 a 1, o gol de Diego Souza colocou o Tricolor de volta em uma final de Libertadores após 12 anos.

“O Santos valorizou muito nossa classificação para a final, e o time merecia os aplausos não só da torcida, mas também do clube do Grêmio. Sabemos que nós precisamos melhorar muito, mas temos condições de vencer. Não somos a equipe mais técnica da competição, mas estamos entre as mais guerreiras”, declararia Tcheco, na saída de campo. Já William exaltava a maneira como o time usou a vantagem construída no primeiro jogo: “Como tudo na vida do Grêmio, sabíamos que iríamos ser sufocados. Eles tinham muita qualidade, mas fomos inteligentes e jogamos com o regulamento na mão”.

O Santos, por sua vez, se despediria de Zé Roberto. O camisa 10 voltou em alta para o Bayern de Munique, acertando um contrato de dois anos. “Hoje é um dia muito triste para mim. Estamos eliminados da Libertadores, um título que eu queria muito. Eu saio muito agradecido por tudo o que vivi no Santos. Esta temporada marcou minha carreira”, afirmou, ainda sem contrato assinado com os bávaros. O lamento também era expresso por Vanderlei Luxemburgo, que seguia sem alcançar seu sonho na Libertadores: “Mais cinco minutos não fariam diferença no placar. A vida continua. Quando falam que eu nunca ganhei a Libertadores, isso não me machuca. Não tenho problemas com isso. Vou tentar ganhar com minhas características. E vou privilegiar o que o torcedor gosta, a arte do futebol”.

O desejo de reconquistar a América não seria cumprido pelo Grêmio naquele ano. O encontro com o Boca Juniors deixaria lembranças amargas aos tricolores, com a decisão guardando um recital de Juan Román Riquelme. O Peixe alcançou o tri continental até antes, em 2011. Enquanto isso, a ambição gremista se cumpriria apenas dez anos depois, em 2017. Nesta quarta-feira, ambos tentarão mais um passo em busca do tetra. E a presença de Diego Souza no ataque gaúcho é o resquício inescapável das emoções vividas naqueles embates de 2007.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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