Sem medo de ser copeiro

A sacada é do ótimo André Rocha, pelo seu Twitter @anunesrocha: “Paradoxo: O Corinthians nunca ganhou a Libertadores, mas é o brasileiro mais copeiro da edição 2012”. O time não empolga e pode até não assustar os menos impressionáveis, mas segue vencendo. Só tomou dois gols em dez jogos na competição e, por enquanto, marcou todos os que precisou. Por outro lado, a equipe ainda parece sujeita a destemperos. Houve certo desequilíbrio emocional no jogo de ida contra o Emelec e por pouco isso não se repetiu no primeiro tempo contra o Vasco. E atenção: o fato de Jorge Henrique servir como (mau) exemplo nas duas ocasiões não é mera coincidência. O histórico repleto de eliminações por falta de controle dos nervos recomenda cautela. Não que a cautela seja inimiga da esperança.
Uma das particularidades do futebol é que as dificuldades às vezes moldam a imagem de vitorioso, enquanto em outras modalidades apenas servem de prenúncio para um desastre. O Corinthians esteve prestes a ser eliminado, quando Diego Souza perdeu o que os mais sacanas flamenguistas já dizem ser o segundo gol mais perdido do ano, ocupando a vice-liderança em um desonroso ranking onde desponta aquele famoso lance de Deivid. Quase se complicou, mas saiu fortalecido, como mostrou a reação emocionada de jogadores e torcedores ao final da partida. O corintiano tem muitas razões para acreditar no título inédito. Mas não todas. O perigo é se deixar levar pelo oba-oba, quando o Vasco foi o primeiro adversário complicado que ele teve pela frente na Libertadores (se você for bondoso, acrescente o Cruz Azul, mas deixe o Emelec fora dessa, por favor).
Mais cedo, o outro grande copeiro da Libertadores de 2012 também conseguiu classificação às semifinais com um gol no apagar das luzes (no caso do Engenhão, vale a pena informar: não literalmente). O Fluminense manteve o Boca encaixotado durante o jogo inteiro, mas não passou nem perto de descobrir como golpeá-lo. Como eu disse há alguns posts, tirando aqueles dias em que Deco joga e está inspirado, o tricolor é um time previsível, que até ganha a maioria de seus confrontos, mas com uma dificuldade muito além do recomendável. Só chegou a marcar em uma cobrança bizarra de Carleto, que à TV teve a cara de pau de dizer que bateu de forma caprichada e que seu mérito foi ter estudado o goleiro argentino para tirar a bola do alcance dele. Seu pai sonhou com você mentindo descaradamente também, Tiago?
O Boca parecia inócuo, mas só quem desconhece a história do clube poderia ficar despreocupado com isso. Riquelme, de quem a equipe hoje depende mais ainda do que quando ele estava no auge físico e técnico, não tinha espaço e pouco aparecia. Cheguei a brincar no Twitter, pedindo que me avisassem quando ele chegasse do Porcão para começar a jogar. E não é que ele chegou? Ainda palitando os dentes e acariciando a barriga cheia, apareceu para salvar os xeneizes mais uma vez. Bastou um simples passe do maestro argentino (OK, para 99,9% da população mundial, dar um passe daqueles não tem nada de simples) para desarticular a defesa tricolor, no lance do gol chorado do tanque Santiago Silva.
Mais do que a natural decadência física de Riquelme, o que torna esse Boca mais fraco que o da década passada é a falta de melhores coadjuvantes. Mas tal qual o Corinthians, o time vende caro suas derrotas e conquista resultados na marra, com uma regularidade até difícil de acreditar. Pode se tornar bicampeão argentino dentro de algumas semanas, por exemplo. A dúvida sobre as duas equipes é a mesma: como se comportarão quando tiverem de reverter um resultado negativo? Só saberemos se Santos, Universidad de Chile ou Vélez, um tanto menos copeiros e bem mais criativos, conseguirem abrir uma vantagem sobre eles. O Libertad já tem estilo mais parecido com a dupla.
No entanto, todos os candidatos restantes ao título da Libertadores são pragmáticos. Um deles pode ter o craque que decide, outro pode ter um esquema tático mais encantador e um terceiro pode ter um estilo mais clássico de conduzir partidas, mas não sobrou nenhum romântico vivo na competição desde que o Atlético Nacional faleceu, vítima de tuberculose contraída nas noites boêmias de Medellín (ou desorganização, não tive acesso ao laudo do IML). Se o pragmatismo falar mais alto que a técnica, vimos o campeão em campo ontem à noite. E mesmo que vê-lo em campo não proporcione grande entretenimento, ele teria muito do que se orgulhar. E no final, é isso que importa. Pergunte ao Chelsea.



