Teve embargo de transferências. Teve jogador pedindo rescisão na Justiça. Teve salários atrasados, impeachment do presidente e a absurda contratação de Robinho. Mesmo para os padrões de um clube brasileiro, a temporada do Santos foi conturbada. Era corajoso apostar que ela terminaria com uma final de Libertadores, a quinta de sua história. Mas terminará. Porque, nesta quarta-feira, o Santos passou por cima do Boca Juniors, na Vila Belmiro, ganhou por 3 a 0 e se classificou para enfrentar o Palmeiras no Maracanã, palco de tantas glórias do time de Pelé.

Entre todos os problemas políticos e financeiros, Cuca – outro que chegou desacreditado ao clube após uma sequência de trabalhos que mereciam contestação – conseguiu formar um time que, se não é cheio de estrelas, atua como um, sabe exatamente quem é e tem uma mistura perfeita entre talentos como Soteldo e Marinho e os Meninos da Vila.

Um time que foi pegando embalo e confiança com o decorrer da competição e, na hora H, castigou a fragilidade defensiva do Grêmio nas quartas de final. E da mesma maneira, após empatar por 0 a 0 na Argentina, puniu uma atuação abaixo da média do Boca Juniors. Guardou o seu melhor futebol para os momentos mais decisivos e, com méritos, recebeu a chance de se tornar o maior campeão sul-americano do futebol brasileiro.

Tem duas maneiras de atestar a superioridade do Santos no primeiro tempo. A mais confiável é sempre vendo a bola rolar em campo, onde os donos da casa marcaram com intensidade e disciplina, saíram com velocidade ao ataque e criaram várias chances. A segunda é pelos números: foram 14 finalizações santistas contra apenas duas do Boca Juniors, quatro corretas contra nenhuma no alvo dos argentinos.

Na realidade, tem uma terceira métrica também, geralmente importante, que é o placar. O Santos dominava os primeiros 15 minutos. Havia tido boas ações com Lucas Braga, um desvio de calcanhar de Kaio Jorge, que ninguém completou, e uma batida colocada de Pituca, que passou ao lado do gol de Andrada.

Com tanto volume de jogo, o Boca Juniors ficou sujeito a um lapso de concentração. Soteldo bateu em cima de Lisandro López. Os santistas começaram a reclamar de pênalti. Inclusive Pituca, antes de perceber que a bola havia sobrado dentro da área, perto de onde ele estava. Abortou as suas queixas e bateu de primeira para fazer 1 a 0 para os brasileiros.

Tévez, finalmente, conseguiu fazer o Boca Juniors tentar alguma coisa, com uma finalização fraca da grande área, mas ele estava impedido de qualquer maneira. Dez minutos depois, arrancou pelo meio, Villa ficou com a sobra e bateu com força, perto do gol de João Paulo – foi mais ou menos a última vez em que o time argentino teve algo próximo de uma chance de passar à final.

Porque, mesmo antes do intervalo, Marinho soltou um dos seus mísseis no ângulo de Andrada, que precisou fazer uma linda defesa, e Kaio Jorge bateu colocado do bico da grande área, com muito perigo. A pausa não tirou o embalo do Santos, que ampliou para 2 a 0 pouco depois da retomada.

A defesa do Boca Juniors, que havia levado apenas três gols em toda a Libertadores antes desse jogo, foi recuando e recuando e permitindo que Soteldo carregasse a bola. Levou-a da ponta esquerda até dentro da área sem ser incomodado, antes de soltar um forte chute no canto alto de Andrada.

Enquanto o Boca Juniors ainda anotava a placa, lá veio o Santos de novo. Bola recuperada no meio-campo, Marinho tabelou, invadiu a área, deixou o marcador no chão com uma pedalada e rolou para Lucas Braga matar a partida e a eliminatória.

Os 40 minutos seguintes foram meramente acadêmicos. A pá de cal foi a expulsão de Fabra. Após trombar com Marinho, ele deixou o pé na perna direita do atacante brasileiro e merecidamente foi aos vestiários mais cedo – seus companheiros talvez tenham até ficado com inveja.

Quando você pensa direitinho, é apropriado que Santos e Palmeiras disputem a primeira final única no Maracanã. Onde o Peixe foi campeão mundial em 1962 e onde o Verdão conquistou a Taça Rio de 1951 – Mundial ou não, uma das conquistas mais importantes da sua história. Em 30 de janeiro, será palco de mais um pedacinho de história para um deles.

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