Libertadores

Quando precisava de mais, Flamengo se satisfez com a mediocridade em Bogotá

O assunto das mesas redondas você já sabe. Vão sensacionalizar o apito final que impediu o gol de Geuvânio e, na réplica, lembrarão do pênalti negligenciado por conta do toque no braço de Henrique Dourado. Será um looping infinito em dois lances que alimentam a “polêmica”, mas que dizem pouco sobre o que foi a noite no Estádio El Campín. E se você não viu o jogo, meu amigo, bem aventurado tu és. Independiente Santa Fe e Flamengo fizeram um confronto extremamente pobre. Pobre nas limitações técnicas dos Cardenales, que dependem basicamente de seu centroavante. Pobre na falta de ambição dos rubro-negros, que se prestaram a fazer cera e renegaram seu ataque, em uma noite que poderia ser vital na definição do destino dentro da Copa Libertadores. Os otimistas dirão que o Fla se defendeu bem e o placar de 0 a 0 não é tão ruim para as contas em busca da classificação. Mas, neste momento, os otimistas são uma raça em extinção entre os flamenguistas, tamanha falta de interesse que se vê no time.

O início do primeiro tempo em Bogotá não trouxe surpresas. O Santa Fe tinha a iniciativa e começou pressionando no campo de ataque. Empurrou o Flamengo contra a entrada de sua área e ia encontrando algumas brechas. Diego Alves chegou a fazer uma boa defesa em chute de longe e as bolas espetadas pelos Cardinales eram uma constante. Faltava um pouco mais de qualidade no passe final dos colombianos, uma deficiência já visível desde o encontro no Maracanã. Restava aos rubro-negros se defenderem e torcerem para que o momento desfavorável passasse.

A partir dos 15 minutos, o Flamengo conseguiu respirar. Passou a sair mais para o jogo e buscar o ataque. Só que era um time ortodoxo. Não havia qualquer possibilidade de triangulações em uma equipe bastante espaçada, com a linha defensiva recuada e temendo os contra-ataques, enquanto o meio-campo não trabalhava a bola para abrir espaços na marcação adversária. Parecia um latifúndio mal ocupado por um punhado de camisas brancas. No máximo, o Fla descolava uma ou outra falta lateral, levantando a bola na área adversária, sem sucesso. A única chance belo chão veio a partir de Lucas Paquetá, que brigou e passou a Vinícius Júnior invadir a área. No entanto, na hora do chute, a marcação conseguiu travar.

O Santa Fe voltaria a crescer por volta dos 30 minutos. Passou a abafar o Flamengo, também ameaçando bastante nas bolas paradas, em cruzamentos fechados que Diego Alves não afastava. Aos 32, Wilson Morelo teve a chance de cabecear livre no segundo pau, mas a pelota raspou em seu cabelo e saiu. Logo depois, veio um bate-rebate na área rubro-negra, no qual Henrique Dourado abriu o braço e bloqueou o chute, em penalidade que o árbitro deixou passar. E nada de mais aconteceria na partida. Os colombianos não tinham ritmo, forçando as tentativas com Morelo, sem sucesso diante da atenção redobrada da defesa adversária. E os brasileiros sem se arriscar, entre passes errados e pouquíssima penetração no terço ofensivo. Contra um goleiro como Zapata, que demonstrou claras deficiências no Maracanã, não se notavam ideias.

Pois se muita gente reclamou da falta de ousadia do Flamengo nos 45 minutos iniciais, a etapa final seria mais vergonhosa neste sentido. Os rubro-negros trataram de fazer cera e gastar o tempo desde o princípio. Enquanto isso, flertavam com a tragédia. As chegadas perigosas do Santa Fe eram frequentes, especialmente pelo lado direito de seu ataque, explorando Renê. Por sorte, a precisão da zaga permitiu bloqueios cruciais. Juan, Rodinei e Réver chegaram a salvar bolas dentro da área, que poderiam muito bem ter rendido o gol aos Cardenales. Além disso, Jhon Pajoy ainda cabeceou com perigo.

Ao retomar a bola, o Flamengo parecia em uma crise profunda de amnésia, sem lembrar o que se deve fazer com ela. William Arão estava completamente perdido e sem ritmo. Diego atrasava contra-ataques e se dispunha mais a cavar faltas. Isolados, Paquetá e Vinícius Júnior eram pouco acionados e, quando apareciam, tomavam as decisões erradas. Já Henrique Dourado, não fosse o pênalti, mal seria percebido em campo. Era clara a necessidade de mudar, mas Maurício Barbieri se mostrava satisfeito com o nada. Somente depois de um chute torto de Arão é que a primeira alteração aconteceu, com a entrada de Geuvânio no lugar de Dourado. Era um jogador para dar velocidade aos contragolpes, mas ficava difícil sem que a equipe trocasse meia dúzia de passes até o círculo central.

Em certos momentos, o Flamengo até parecia escalado na formação “dedobol”, tão distantes estavam os seus jogadores. E, nos ataques do Santa Fe, funcionava o congestionamento na entrada da área, sem que se observassem linhas mais claras de marcação e possibilidades de trocas de passes para as saídas. Quem mais se desdobrava era Cuellar, o melhor rubro-negro na noite, pela maneira como carregava o piano na cabeça de área. Nada que animasse muito. Quando o Fla assustou, a partir de uma roubada de bola de Paquetá, Zapata defendeu o chute de Diego. Uma mísera ação em meio ao marasmo que conduzia a exibição dos visitantes. Já aos 37 minutos, a entrada do “local” Marlos Moreno esboçou algo novo, mas um par de pedaladas sem sentido indicariam que o garoto de Rueda não resolveria muito.

Na pressão final do Santa Fe, em meio a cruzamentos a esmo, a defesa do Flamengo ia rifando as ameaças. Também era pouco a um time que jogava em casa, contra um adversário claramente acomodado. No único arremate, Anderson Plata bateu da entrada da área, mandando para fora com perigo. Já do outro lado, pouco se esperava. Até houve uma arrancada de Geuvânio à linha de fundo, mas a bola saiu antes que ele pudesse cruzar a Moreno. Por fim, nos instantes finais dos acréscimos, a lambança da arbitragem. O relógio tinha passado dos cinco minutos adicionais e, quando Geuvânio roubou a bola próximo à área, o uruguaio Daniel Fedorczuk resolveu erguer o braço. O atacante entraria livre para marcar e até balançou as redes com o duelo finalizado. Uma postura que rendeu muitas reclamações dos cariocas, embora nada mais tiraria o zero do placar.

A quem assim preferir, o lance final em Bogotá poderá servir de subterfúgio. Mas não exime o Flamengo de seus tantos problemas ao longo dos 90 minutos. Quando tinha a bola, foi um catado, não um time. E que sequer contou com as individualidades como alternativas para o seu jogo. Ao menos o esforço sem a bola evitou o pior, em boas atuações da maioria no sistema defensivo. De qualquer forma, isso é irrisório. Pouquíssimo a um time que empatou dois jogos em casa nesta Libertadores e necessitava buscar o resultado fora. Contra um adversário limitado, o Fla se saciou com a mediocridade dos minutos gastos e da falta de ímpeto.

Apesar de tudo, o resultado mantém o Flamengo na liderança do Grupo 4 da Libertadores. São seis pontos ao time, um a mais que o River Plate, que ainda encara o Emelec pela quarta rodada. Já o Santa Fe soma quatro pontos, na terceira colocação. Neste momento,os rubro-negros têm a obrigação de vencer os equatorianos em seu próximo compromisso, no Maracanã. Mesmo assim, o Fla também precisará torcer para que o River roube pontos em sua visita a Bogotá. Caso isso aconteça, os flamenguistas seguiriam ao Monumental na última rodada sem depender do outro jogo da chave. Não é uma situação confortável. E bem menos condizente quando se vê a mentalidade do Fla no Estádio El Campín. Um comodismo que faz a sorte se tornar também importante na busca pela classificação, e não apenas a própria competência.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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