Libertadores

Quando o Flamengo viajou para a Colômbia pela primeira vez e enfrentou os estrelados times do Eldorado Colombiano

O Flamengo teve sua primeira turnê pelo país em 1952, quando chegou a encarar o famoso Millonarios protagonizado por Di Stéfano

A Colômbia é um destino costumeiro para o Flamengo nas últimas quatro décadas. Em seis edições diferentes da Libertadores, o Fla encarou adversários colombianos. O Deportivo Cali foi o primeiro, derrotado duas vezes no triangular semifinal de 1981. América de Cali, Junior de Barranquilla, Atlético Nacional, Independiente Santa Fe e Once Caldas também desafiaram o Fla no torneio. Isso sem esquecer das semifinais da Copa Sul-Americana de 2017, em duelo contra o Junior. E a história das viagens flamenguistas ao país é anterior às competições continentais. Durante o famoso “El Dorado Colombiano”, o Flamengo disputou uma série de amistosos por lá em 1952, enquanto preparava a geração que logo se sagraria tricampeã carioca.

O Flamengo passou pelo Peru, antes de desembarcar na Colômbia para três partidas amistosas em junho de 1952. O clima era bastante positivo na recepção em Cali, antes que os rubro-negros rumassem a Bogotá para seu primeiro compromisso. Assim descrevia o Jornal dos Sports: “Revestiu-se de caráter festivo a chegada da delegação do Flamengo. Ao aeroporto compareceram as autoridades desportivas locais e um grande número de curiosos, que não se furtaram a uma carinhosa manifestação aos brasileiros”.

O Flamengo era dirigido na época por Flávio Costa, um dos maiores treinadores da história do clube. A equipe fortíssima tinha Biguá como principal representante da velha guarda. Enquanto isso, se firmava uma geração de ídolos do porte de García, Dequinha, Pavão, Joel, Rubens, Esquerdinha e Benítez. Era a base que, a partir de 1953, dominaria o Campeonato Carioca com um tricampeonato. Lesionados, Jordan e Bria eram desfalques sentidos para os embates na Colômbia, mas não que diminuíssem a qualidade do Fla naquele momento – por mais que a força só se explicitasse em títulos pouco depois.

O primeiro desafio era o mais difícil para o Flamengo: a equipe enfrentava o Millonarios, grande potência do Eldorado Colombiano e concentração dos craques na liga pirata. Com a falta de regulamentação do Campeonato Colombiano, os clubes locais passaram a atrair destaques de outros países com salários suntuosos e sem pagar taxas de transferência – especialmente diante de uma longa greve instaurada pelos futebolistas profissionais na Argentina e no Uruguai. Desta maneira, a Colômbia estava recheada de estrelas estrangeiras. O chamado “Ballet Azul” do Millonarios se sobressaía, e não à toa garantiu um tricampeonato nacional de 1951 a 1953. O time que enfrentava os rubro-negros tinha como protagonista Alfredo Di Stéfano. Outros argentinos como Néstor Rossi, Antonio Báez e Julio Cozzi também abrilhantavam o timaço, que não contou com Adolfo Pedernera na ocasião.

Na véspera do jogo, o Jornal dos Sports descrevia o clima em Bogotá: “A presença da delegação do Clube de Regatas do Flamengo em Bogotá tomou conta da atenção não só do mundo esportivo colombiano, como também do público em geral, que vem dando provas de grande estima e admiração pelos brasileiros. As carinhosas manifestações que se verificaram no aeroporto, quando aqui desembarcamos, renovam-se a todo instante, pelos muitos recantos desta linda capital que temos percorrido. No Hotel Esplanada, onde estamos hospedados, por exemplo, tem afluído uma verdadeira multidão, curiosa em conhecer e obter fotografias e autógrafos dos jogadores e do técnico Flávio Costa, sendo que este é tão famoso aqui quanto no Brasil”.

O Millonarios, contudo, provou sua força com uma irretocável goleada por 4 a 1 sobre o Flamengo. O primeiro tempo seria mais equilibrado, com boa postura defensiva dos rubro-negros. Di Stéfano abriu o placar aos 35 minutos, em grande jogada individual, antes de bater no ângulo. O Fla empatou aos 42, com Rubens, numa potente cobrança de falta. Já no segundo tempo, o Ballet Azul envolveu os rubro-negros e aplicou seu baile. Mosquera tabelou com Di Stéfano para marcar o segundo, aos 14. Logo depois, Mosquera chutou firme para o terceiro. Caberia a Castillo dar números finais ao chocolate alviazul.

A partida ainda contou com sua dose de confusão no final. O rubro-negro Aristóbulo, quando ia sendo substituído por Leone, agrediu um reserva do Millonarios que estava sentado ao lado do gramado. O brasileiro acabou expulso, com um entrevero que provocou a paralisação do jogo por alguns minutos. Por conta disso, os instantes finais foram mornos. O Flamengo não tinha poder de reação com um homem a menos, enquanto o Millonarios se deu por satisfeito pelo resultado.

“Numeroso público compareceu hoje para assistir ao jogo de apresentação do Flamengo na sua temporada na Colômbia, enfrentando o conjunto do Millonarios, integrado na sua maior parte por grandes astros do futebol estrangeiro, notadamente da Argentina. Infelizmente, o jogo não apresentou um desenrolar normal. O quadro do Flamengo, jogando aquém de suas possibilidades, não contou com o concurso de dois de seus valores da defesa: Bria e Jordan, com influência direta na armação da defensiva rubro-negra. Além disso, o nervosismo que se apoderou dos jogadores, que chegaram a exceder-se, promoveu sério conflito quando se desenrolava o segundo tempo”, analisava o Jornal dos Sports.

Três dias depois, o Flamengo voltou a campo. Viajou a Cali e enfrentou, no Estádio Pascual Guerrero, o Deportivo Cali. Os alviverdes não desfrutavam do mesmo sucesso do Millonarios, mas também confiavam numa legião de destaques argentinos. A equipe tinha encerrado o Campeonato Colombiano de 1951 na quarta colocação e inclusive realizou uma viagem pelo Brasil no início de 1952 – derrotada pelo Flamengo por 3 a 1 no Maracanã. Para o reencontro, os colombianos eram vistos em melhor forma física, até pelos desfalques do Fla. Além de Jordan e Bria, Rubens também se ausentou por lesão.

O Flamengo teve uma apresentação melhor e empatou com o Deportivo Cali por 1 a 1. O primeiro tempo teve dois gols anulados, um para cada lado. Já nos minutos anteriores ao intervalo, Adãozinho acertou o travessão e a bola entrou, mas a arbitragem não deu. Durante a segunda etapa, Dequinha preparou a jogada para Nestor colocar os rubro-negros na frente. Todavia, num momento de pressão dos cariocas, os alviverdes empataram num lance individual de Cervino e encerraram a contagem.

“Foi, inegavelmente, uma peleja das mais interessantes, quer pelo índice técnico, quer pela intensa movimentação, constituindo mesmo, sem exagero, um espetáculo que satisfez plenamente a exigência daquele numeroso público que afluiu no estádio local. Um detalhe que merece registro especial, contrariando o que se verificou na última quinta-feira em Bogotá, é a cordialidade que imperou entre os jogadores durante o transcurso da peleja. O nível disciplinar desse encontro foi qualquer coisa de excepcional. A não ser Esquerdinha, que numa queda casual feriu os lábios, os quais ficaram muito inchados, ninguém mais sofreu qualquer consequência nas disputas das jogadas dessa peleja”, relatava o Jornal dos Sports.

O Flamengo deveria seguir viagem para Quito, mas acertou um terceiro amistoso na Colômbia. Encararia o Deportes Quindío, quinto colocado no Campeonato Colombiano de 1951 e outro recheado de argentinos em seu elenco. Os rubro-negros tinham novidades para o embate na cidade de Armênia, com a volta de Rubens à escalação titular. Enfim, os cariocas despediram-se da Colômbia com vitória, num triunfo por 1 a 0 em partida marcada pelas confusões em campo.

O gol do Flamengo surgiu aos 35 minutos do primeiro tempo, num belo lance de Benítez, que era dúvida para o jogo. Aquele embate, porém, não teve nada de amistoso: foram vários lances ríspidos e pegados entre os dois times. Isso até que a confusão estourasse no meio do segundo tempo. Esquerdinha infernizava a marcação com seus dribles, até que o zagueiro Pais achou razoável dar um soco no rosto do ponteiro. Os times se engalfinharam, inclusive com os reservas invadindo o campo. Os ânimos se acalmaram somente depois que a polícia invadiu o campo e interveio. No fim das contas, Pais e Esquerdinha acabaram expulsos, com o ponta saindo com os lábios ensanguentados.

“Exibindo-se ontem perante uma assistência numerosa e entusiasmada, que superlotou o Estádio de San José, na cidade de Armênia, o Flamengo colheu o seu mais difícil triunfo internacional destes últimos tempos, ao abater com um tento a zero o forte esquadrão local do Deportes Quindío, constituído exclusivamente por craques argentinos”, anotava o Jornal dos Sports. “Essa peleja foi pontilhada de incidentes lamentáveis, em face da violência posta em prática pelos argentinos-colombianos, que foi revidada em alguns momentos pelos defensores rubro-negros. O maior contribuinte para que a peleja descambasse para a violência foi o juiz Carlos Obonago, cuja atuação foi das piores, pela absoluta falta de energia e parcialidade evidenciada no transcurso da partida”.

O Flamengo seguiria viagem para o Equador depois disso. Por lá, enfrentaria inclusive outro colombiano: o Boca Juniors de Cali, então vice-campeão nacional. Os flamenguistas sapecaram uma goleada por 6 a 3, com dois gols de Benítez e outros dois de Nestor, com Huguinho e Esquerdinha completando a contagem. E a turnê terminou com saldo positivo: sete vitórias e quatro empates, com a única derrota diante do Millonarios. No retorno do time ao Rio de Janeiro, ocorreu uma grande recepção dos jogadores preparada pela torcida. “Houve um verdadeiro carnaval no Galeão. Foram bons resultados se levarmos em conta que os rubro-negros lutaram contra as contusões, altitudes, arbitragens e a pirataria de um empresário”, descreveria o semanário Sport Illustrado.

O Flamengo retornou à Colômbia 12 anos depois, em 1964, para disputar o Triangular de Medellín e depois um amistoso em Cali. Flávio Costa estava mais uma vez no comando dos rubro-negros. O time levou o caneco na competição amistosa, com vitórias por 2 a 1 sobre o Atlético Nacional e por 1 a 0 diante do Independiente Medellín, antes de golear o América de Cali por 4 a 1. Depois disso, as passagens do Fla pelo país se restringiriam aos compromissos pelos torneios da Conmebol. O Deportes Tolima é o novo desafio.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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