Libertadores

Quando o Boca Juniors veio ao Castelão para entregar as faixas ao Fortaleza tetracampeão cearense

O Boca Juniors veio com um time cheio de garotos da base e participou da festa do Fortaleza pelo feito inédito no estadual

A Argentina faz parte do roteiro do Fortaleza nesse início de história pelas competições continentais. A estreia aconteceu contra o Independiente, na Copa Sul-Americana de 2020. Já nesta Libertadores, depois de encarar o River Plate na fase de grupos, o Leão do Pici tentará superar o Estudiantes nas oitavas de final. O que nem todo mundo sabe é que o Boca Juniors também possui seu capítulo no passado tricolor. Em 2010, os xeneizes foram convidados para entregar as faixas para o então tetracampeão cearense. Os portenhos não levaram sua equipe principal e acabaram derrotados em meio à festa no Castelão por 3 a 1.

O Fortaleza tinha raras partidas internacionais em sua história. Após uma excursão pelo Suriname em 1962, o Leão do Pici só voltou a sair do país para a Sul-Americana de 2020. Os duelos contra estrangeiros em território cearense também foram pontuais, mas existiram. Sparta Praga, Dínamo Bucareste, Libertad, Blue Stars Zurique e Atlético Sport Aviação fizeram amistosos contra os tricolores entre 1971 e 2009. Isso até que o Boca Juniors pintasse no Castelão em 2010 – depois, ainda rolaria um duelo com o Verona em 2014.

O Fortaleza tinha mirado outro convidado para o jogo da entrega de faixas: o Valencia, que desistiu da viagem ao Brasil. O Boca Juniors virou a segunda opção e aceitou a turnê, passando ainda pelo Rio Grande do Norte para enfrentar o ABC. O momento era importante para o Leão do Pici, já que o tetra marcava a maior sequência de títulos do clube na história do Campeonato Cearense – repetida na atual temporada. Ter os xeneizes como coadjuvantes era uma maneira de celebrar a grandeza, mesmo com o time na Série C.

A partida ainda correu o risco de ser cancelada. O Fortaleza queria realizar o amistoso em 29 de maio, na véspera de um compromisso do Ceará pela Série A do Brasileirão, contra o Cruzeiro. Por conta da proximidade das datas, o governo do Ceará não queria liberar o Castelão para dois jogos consecutivos. Só depois do imbróglio é que as autoridades públicas aceitaram as condições, desde que os tricolores entregassem o local limpo. Além do duelo, a festa previa um show de forró no gramado.

O Fortaleza era treinado na época por Zé Teodoro. O goleiro Fabiano tinha sido o herói do tetra estadual, enquanto outra figura de relevo era o veteraníssimo Paulo Isidoro. Já o Boca Juniors estava recheado por garotos da base. Marcelo Cañete e Juan Sánchez Miño eram os nomes mais conhecidos daquele grupo, que também acabava comandado por um técnico da base, Oscar Regenhart. Estrelas do time principal, como Juan Román Riquelme e Martín Palermo, não participaram da viagem.

O Fortaleza recebeu a faixa do Boca Juniors e também venceu por 3 a 1. O primeiro tempo não teria gols, marcado pela pegada dos xeneizes mesmo em amistoso. Os tentos ficaram para a segunda etapa. Reginaldo Júnior marcou o primeiro num chute rasteiro, mas Saavedra empatou para os argentinos em tiro de fora da área. Já nos dez minutos finais, Johnes anotou de cabeça e Gaúcho fechou a conta de pênalti, para ratificar o triunfo do Leão do Pici. Os boquenses ainda terminaram com Pérez expulso. A grande decepção ficou mesmo para o baixo público, com cerca de 9 mil presentes no Castelão, que pouco depois seria fechado para as obras da Copa de 2014.

A importância daquele jogo nem se compara com o sucesso que o Fortaleza atravessa nas últimas temporadas. O tetracampeonato estadual se repete, mas com um time que também faz bonito na Série A e eleva seu nome ao resto do continente. E com uma ligação mais forte com os argentinos, afinal, seja pelo comando de Juan Pablo Vojvoda ou pelos gols de Sílvio Romero. O Estudiantes surge no caminho daquele que desde já é um dos momentos mais importantes da história do Leão do Pici.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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