Libertadores

Pelé, sublime, em duas vitórias lendárias do esquadrão alvinegro: As lembranças do Santos x Boca na final de 1963

Uma parcela da grandeza do Santos se construiu dentro da Bombonera. Uma das noites mais marcantes da história do clube aconteceu diante do Boca Juniors, numa final de Copa Libertadores, com o mítico estádio abarrotado. E o Peixe prevaleceu para se tornar bicampeão continental, sob o protagonismo de Pelé, em uma das atuações mais fantásticas de sua carreira. Quarenta anos depois, Santos e Boca até se reencontraram em uma decisão continental, na qual os xeneizes não deram muitas chances aos alvinegros. Ainda assim, a maior história ao redor do confronto é a lendária final de 1963. Uma memória que os santistas querem resgatar, às vésperas de outro embate titânico entre os clubes, desta vez pela semifinal do torneio sul-americano.

Santos e Boca Juniors até haviam se enfrentado em amistosos a partir dos anos 1950, mas nada se comparava a uma decisão de Copa Libertadores. O Peixe carregava consigo o favoritismo em 1963. Era a base da seleção brasileira bicampeã do mundo, buscando também o segundo título continental para o clube. Um ano antes, o time treinado por Lula havia desbancado no jogo-desempate em Buenos Aires um mítico Peñarol, que vinha também de um bicampeonato na Libertadores. E as glórias se renovavam rápido para aquele esquadrão alvinegro. Entre uma Libertadores e outra, o time faturou o Mundial Interclubes em cima do Benfica. Também celebrou seu segundo título na Taça Brasil, com goleada sobre o Botafogo. E ainda veio uma campanha imparável no Paulistão de 1962, com apenas uma derrota sofrida, além de expressivos 105 gols em 30 partidas.

O Boca Juniors sustentava uma história vitoriosa na Argentina e se colocava como um dos clubes mais populares do país, mas fazia sua temporada de estreia na Libertadores em 1963. Os títulos foram um tanto quanto escassos entre os anos 1940 e 1950, com apenas um título do Campeonato Argentino alcançado entre 1945 e 1961. A conquista de 1962, além de quebrar uma espera de oito anos pela taça, também iniciaria um período prolífico para os xeneizes ao longo daquela década de 1960. O time que enfrentaria o Santos na final continental reunia diversos nomes também emblemáticos ao clube.

Para alcançar a final, o Boca Juniors fez uma campanha dura na Copa Libertadores. Durante a fase de grupos, os xeneizes encararam o Olimpia (vice continental em 1960) e a Universidad de Chile (dominante em seu país naquele momento) para seguirem vivos na competição. Até perderam a estreia em Assunção, mas se recuperaram com três vitórias consecutivas. Nas semifinais, o Boca seria responsável por desbancar o fortíssimo Peñarol. Os argentinos venceram os dois jogos, com Paulinho Valentim anotando ambos os tentos nos 2 a 1 de Montevidéu e José Sanfilippo definindo o placar no 1 a 0 de Buenos Aires. Aquele resultado serviria de credencial para os boquenses pegarem o Santos na final.

Os capitães Zito e Orlando

Como de praxe naqueles tempos de Libertadores, o Santos entrou diretamente na semifinal por ser o atual campeão. E o Peixe encararia um velho conhecido, ao se cruzar com o Botafogo, vice da Taça Brasil de 1962. Os cariocas ficaram com a vaga no torneio continental, superando Alianza Lima e Millonarios para ganhar o direito de desafiar os santistas na semifinal. No Pacaembu, Jairzinho abriu o placar e Pelé só arrancou o empate por 1 a 1 aos 45 do segundo tempo. Todavia, se existia uma esperança de reviravolta no Maracanã, ela acabaria dizimada pelo Rei. Pelé destruiu os botafoguenses naquele dia, com três gols logo nos primeiros 33 minutos de bola rolando. Lima complementou a vitória por 4 a 0, que confirmou os paulistas em mais uma final.

O Santos vinha com sua constelação completa para encarar o Boca Juniors. O timaço começava por Gylmar no gol, um dos maiores goleiros da história. A defesa tinha a liderança de Mauro, recente campeão do mundo como capitão da Seleção. O beque era acompanhado por Calvet no miolo da zaga, além de Geraldino e Dalmo nas laterais. O capitão Zito surgia como o grande xerife na cabeça de área, pronto a limpar os trilhos, acompanhado por Lima na organização. Mais à frente, Dorval infernizava pela direita e Pepe era o canhão na esquerda. Tudo para que as tabelinhas entre Pelé e Coutinho fluíssem pelo meio. Como opção no banco, ainda havia Almir Pernambuquinho, Mengálvio e Toninho Guerreiro. Praticamente uma seleção, sob as ordens do multicampeão Lula.

O Boca Juniors não era tão incensado, mas também possuía diversos nomes respeitáveis. A começar pelo zagueiro Orlando Peçanha, velho conhecido dos brasileiros, companheiro de muitos deles na Copa de 1958 e futuro reforço do próprio Santos em 1965. Néstor Errea era um bom goleiro, com a missão de suplantar Antonio Roma na posição. O lateral esquerdo Sílvio Marzolini, considerado um dos maiores da história da Argentina, também integrava aquela defesa. Ainda havia o lateral direito Carmelo Simeone, que disputaria a Copa de 1966 com a Albiceleste, e o zagueiro Rubén Magdalena, jovem que logo despontaria à seleção. Antonio Rattín era o caudilho na cabeça de área, lembrado como um dos maiores meio-campistas do Boca. Na faixa central, ainda aparecia como opção o uruguaio Alcides Silveira, trazido do Barcelona.

Na linha de frente daquele Boca Juniors, chamava atenção a presença de José Sanfilippo, lenda do San Lorenzo contratado pelos xeneizes meses antes. O ex-botafoguense Paulinho Valentim era outro gigante, no clube desde 1960. Já Norberto Menéndez tinha uma história vitoriosa pelo River Plate antes de trocar de cores. Também merecia destaque Ángel Rojas, habilidoso camisa 8 que figura entre os maiores ídolos da torcida xeneize e era o grande xodó naqueles tempos. Por fim, nas pontas apareciam Alberto Mario González, que disputou duas Copas do Mundo, e Ernesto Grillo, contratado do Milan após faturar o Scudetto. O comando técnico era de Aristóbulo Deambrossi, que nos tempos de jogador fez fama como um dos integrantes de La Máquina do River Plate.

O Santos x Boca do Maracanã

Em 1962, o Santos mandou seu jogo contra o Peñarol na final da Libertadores dentro da Vila Belmiro. Um ano depois, o espetáculo contra o Boca Juniors deveria acontecer num palco maior e a intenção era realizar a partida de ida no Pacaembu. Contudo, um jogo entre Palmeiras e Portuguesa pelo Campeonato Paulista estava previamente agendado ao palco paulistano. Assim, por sugestão da CBD, o Maracanã abrigaria o primeiro Santos x Boca – um estádio do tamanho daquela final. O duelo não seria televisionado ao Rio de Janeiro, para atrair o maior público possível às arquibancadas. Outro detalhe curioso foi o acordo entre os times para que os jogos fossem apitados por um árbitro europeu. O francês Marcel Albert Bois acabou sendo o escolhido.

Na chegada ao Rio de Janeiro, o Boca Juniors pregava respeito ao Santos. Em entrevista ao Correio da Manhã, o lendário Adolfo Pedernera (então supervisor xeneize) dizia que a força do Peixe ia muito além de Pelé e todos os jogadores mereciam cuidados: “Pelé é um grande jogador, que devemos respeitar. Porém, não jogaremos somente contra Pelé, e sim contra o Santos, formado também por ótimos jogadores e para quem igualmente devemos dar atenção se não quisermos ter uma surpresa desagradável. Contra o Botafogo, vi e anotei o poderio do Santos. Assisti a uma formidável exibição de Pelé. Por tudo isso, sei que amanhã não será fácil para nós. No entanto, vamos lutar e sei que não faltará fibra a todos os nossos jogadores”.

Na preparação, o Boca Juniors treinou em São Januário e chegou a fazer um coletivo contra o Bonsucesso. Os argentinos, porém, se irritaram com a proibição de que reconhecessem o campo do Maracanã – para que não “estragassem o gramado”, segundo a administração do estádio. Quinto colocado no Campeonato Argentino, o time tratava a Libertadores como seu grande objetivo, como relatava o capitão Orlando Peçanha ao Jornal dos Sports: “Não julguem o Boca pelos resultados do Campeonato Argentino. O Boca abandonou totalmente o campeonato para se dedicar exclusivamente à taça. É o supremo objetivo do Boca e de toda a torcida argentina. Por isso diremos que é uma força atuante, com capacidade para realizar muito mais do que fez o Peñarol e do que prometia o Botafogo”.

O técnico Lula, ao Jornal dos Sports, apostava na segurança do Santos para encarar o Boca Juniors: “Pode estar certo de que o plantel está tranquilo. E essa tranquilidade é o fator principal para a nossa recuperação. Tivemos que nos precaver com o Boca, pois os argentinos, além de jogarem bem, atuam com muita malícia. Sabemos de nossa responsabilidade em defender o prestígio do futebol brasileiro e acredito no meu quadro. Ele deverá se agigantar, como fez contra o Botafogo”.

Lima marca o gol no Maraca

O Boca Juniors não teria força máxima no Maracanã. Paulinho Valentim era um desfalque sentido, suspenso ao ser expulso na semifinal contra o Peñarol. Aos 19 anos, Rojitas se tornava o encarregado de desempenhar a função do brasileiro, acompanhando Sanfilippo no ataque. Já o Santos vinha completo para a final. Lula poupou parte de seus jogadores no compromisso anterior pelo Paulistão, quando acabou derrotado pela Ferroviária. Mauro, Calvet e Pepe estavam de volta à escalação, enquanto Dorval se recuperara de lesão recente. E o favoritismo alvinegro se cumpriria desde o primeiro jogo.

O Santos venceu a primeira partida por 3 a 2, diante de 63 mil pagantes no Maracanã – um público relativamente baixo, mas que ainda assim possibilitou uma renda recorde. A atuação de gala do Peixe se concentrou durante os 45 minutos iniciais. O Boca Juniors montou um sistema defensivo com cinco jogadores atrás, que não deu muito certo. Zito e Lima tinham liberdade na intermediária para organizar o Peixe e aproveitar as sobras, o que acabou se tornando essencial ao domínio. A porteira se abriu aos 23, numa jogada iniciada por Pelé. O camisa 10 acionou Lima, que lançou Dorval na direita e o ponta cruzou rasteiro para Coutinho completar. Dois minutos depois, Coutinho faria mais um. O centroavante foi acionado por Zito e venceu Orlando na corrida, antes de definir. Já aos 28, viria o terceiro. Pelé passou por Rattín e mais uma vez serviu de garçom, agora num grande passe para Lima se infiltrar e arrematar às redes.

Entregue, o Boca Juniors só finalizou a primeira vez aos 40 minutos, num tiro de Rojitas que bateu na trave de Gylmar. Os xeneizes cresceram neste momento e descontaram com Sanfilippo, aproveitando um erro de Mauro. De qualquer maneira, Coutinho ainda poderia ter feito o quarto antes do intervalo, mas perdoou na pequena área. Outro problema aos argentinos foi a lesão de Marzolini, que precisou ser substituído por Silveira ainda na primeira etapa. Com a mudança, os boquenses também alteraram sua formação tática, apostando num 3-2-5.

Na volta ao segundo tempo, o Santos sentiu o cansaço da maratona de jogos recentes e caiu de rendimento. O desgaste físico do Peixe era visível, o que permitiu ao Boca dominar a posse de bola e ter mais volume de jogo. Ainda assim, as chances alvinegras pipocavam, com Pelé fazendo ótimo papel na armação e os companheiros falhando nas conclusões diante do goleiro Errea. Somente aos 44 do segundo tempo é que os xeneizes conseguiram encostar no placar, outra vez com Sanfilippo atormentando Mauro. Contudo, a diferença apertada não dimensionava realmente a superioridade santista.

“Pelé, com jogadas como sempre brilhantes, apesar de não ter feito gol, foi a maior atração da partida. Mas Lima, pelo ritmo de jogo, pela certeza dos passes, por sua presença no meio-campo, foi a maior figura do jogo. O Santos teve ainda em Zito, enquanto as pernas permitiram, outra grande figura, e vale registrar também a volta de Coutinho ao convívio com a bola e a boa presença de Mauro na área, apesar das falhas permissíveis nos lances dos gols do Boca”, analisou o Correio da Manhã, no dia seguinte.

Já o Jornal do Brasil destacava a noite de Pelé: “Mais uma vez foi o melhor de todos. Uma jogada espetacular seu passe para o gol de Lima. Tipicamente sua, com toque de gênio. Uma cabeçada no segundo tempo também teve sua marca: da entrada da área foi certa para o gol, cortada por Simeone em cima da linha. Apesar das dificuldades criadas pela queda de produção do Santos no segundo tempo, deu quatro ou cinco passes excepcionais. Seu jogo ofensivo não apareceu como em outras vezes, por causa de seu trabalho de ir apanhar a bola atrás”.

Por fim, o Jornal dos Sports apontava a diferença entre os dois tempos da partida: “Depois de uma excelente demonstração de seu futebol-arte no primeiro tempo, o Santos, indicando cansaço, caiu de produção no período complementar, fazendo com que a torcida presente ao Maracanã ficasse preocupada pela sua sorte, diante de um adversário que jogava à antiga, mas possui grandes jogadores, com Sanfilippo e Rojas. Enquanto o Santos dominou o jogo, todo o seu time andou certíssimo. Zito, Lima, Pelé, Coutinho, Dorval e Pepe mostraram o peso de sua categoria. Depois, o prego chegou e aí o jogo perdeu sua beleza, pois os boquenses, mesmo assim, não foram adversários para os santistas”.

No mesmo jornal, Nelson Rodrigues exaltava o Santos em sua coluna: “Amigos, não há jogo tão surpreendente e tão misterioso como o futebol. O sujeito que assiste a uma partida vê coisas do arco da velha. Por exemplo: o resultado de Santos x Boca. Ao olhar o final, a multidão há de ter mergulhado numa dessas perplexidades obtusas e fatais. Por que vencemos de 3 a 2 e não de 6 a 1 ou 6 a 0? Para mim, esse resultado há de permanecer como um dos enigmas mais tenebrosos do futebol. Alguém dirá que o campeão argentino joga bem. Doce e ledo engano. É campeão argentino e, com toda a pompa do seu título, foi dominado pelos brasileiros de alto abaixo. Mesmo quando o Boca fingia uma certa pressão, mesmo aí era dominado”.

Na Argentina, o jornal La Nación elogiava Pelé, mas criticava o Boca Juniors pela forma como se descuidou do restante do time do Santos: “Admirado em todo o mundo, Pelé é pouco menos que uma obsessão para os seus marcadores: transforma-se num pesadelo irremediável, antes mesmo de entrar em campo, e pode-se dizer que ele joga a partir do momento em que sua presença é anunciada. Para o segundo jogo, basta ao Boca entrar mais confiante e menos preocupado com Pelé, corrigindo com isso vários erros demonstrados no primeiro jogo. Seus jogadores, mais preocupados com o melhor atacante do Santos, esqueceram-se de que podiam ganhar o jogo”.

Pelé avança contra a marcação

Nas declarações após a vitória, a reclamação no Santos era pela maratona de jogos à qual o time foi submetido. O próprio Pelé se queixou do cansaço: “Não é possível um time fazer um jogo duro, nervoso mesmo, com o Botafogo e ter que cumprir outro compromisso difícil em Araraquara antes de jogar dois tempos iguais com o Boca Juniors, numa partida dessa importância. Tínhamos de cansar no segundo tempo e foi exatamente isso o que aconteceu”. O discurso ganhava coro com o técnico Lula, mesmo contente com o placar: “O time caiu no segundo tempo, mas não podia ser de outra forma. Não há pernas que aguentem 90 minutos corridos, numa semana onde os compromissos se repetem quase sem intervalo para descanso. Se o preparo físico dos jogadores fosse outro, talvez o marcador nos favorecesse mais, embora eu me dê por satisfeito com os 3 a 2”.

Apesar da derrota, ainda havia confiança no Boca Juniors. Esse sentimento era externado por Alberto J. Armando, então presidente dos xeneizes. Sua aposta? A Bombonera, estádio que acabaria levando seu nome: “Serão 80 mil pessoas muito mais entusiasmadas e que, além disso, ficarão muito mais perto do campo de jogo, podendo transmitir um incentivo que nenhuma equipe consegue no Maracanã. Quando o Santos errar as primeiras jogadas e o time for vaiado, os jogadores se descontrolarão e vão brigar entre si ainda mais do que fizeram no Maracanã”. O técnico Deambrossi, aliás, ressaltava como os desentendimentos em campo pareciam fazer os santistas saírem dos trilhos: “O Santos está cansado e desorganizado. O que mais me impressionou foi ver como seus jogadores se xingam em campo, o que numa equipe de futebol é o mais evidente sinal de saturação”.

A partida de volta, na Argentina, também quase não aconteceu na Bombonera. Havia uma possibilidade de que o palco escolhido fosse o Monumental de Núñez, para gerar mais renda, mas o Boca Juniors bateu o pé por sua casa. As estruturas do estádio em La Boca podiam não ser as melhores e o gramado costumava ficar em más condições, mas os xeneizes confiavam na alma de suas arquibancadas para uma virada. Outro problema foi o horário da partida. Inicialmente o jogo aconteceria à noite, mas o Boca decidiu mudá-lo para a tarde sem grandes explicações. O Santos, que desembarcou com atraso a Buenos Aires, ainda tentou adiar o embate em um dia. Apesar do impasse, a troca da data não aconteceu. A guerra de nervos nos bastidores, de qualquer forma, não se repetia entre os torcedores argentinos. Os jogadores do Peixe foram recebidos com carinho e Pelé foi carregado nos braços pelo povo em sua chegada ao hotel. Antes da decisão, os alvinegros treinaram no Cilindro de Avellaneda.

Lula manteve a escalação da partida de ida, apesar das dúvidas sobre Zito. O meio-campista atuou adoentado no Maracanã e estava quatro quilos abaixo de seu peso ideal. O capitão pediu um afastamento de 15 dias, mas foi a campo na Argentina. Seu substituto ideal era Mengálvio, que retornava à equipe e também não estava na melhor forma. Até surgiram rumores de que o Peixe poderia escalar um time reserva para se poupar e concentrar forças a um jogo-desempate em Santiago, o que não passou de boataria. Já no Boca Juniors, diante da lesão de Marzolini, Silveira apareceu como titular. A grande esperança dos xeneizes era contar com Paulinho Valentim, após o cumprimento de um jogo de suspensão. Entretanto, a comissão disciplinar da Conmebol barraria o brasileiro e não permitiria sua escalação no ataque.

Na prévia do duelo, o jornal A Tribuna salientava as mudanças de postura: “Tudo indica que será diferente o comportamento técnico e tático que se exigirá dos times. O Boca Juniors terá de se firmar na ofensiva, pelo menos ao início da partida para, no caso de se avantajar no marcador, garantir eventual margem de tentos. O Santos, por seu turno, deverá tomar medidas acauteladoras sem, entretanto, se descuidar igualmente da ofensiva, objetivando liquidar a fase decisiva do torneio Libertadores da América e evitar uma terceira peleja. Com elementos de comprovada categoria, o Santos, bem orientado taticamente e um pouco melhor fisicamente, tem capacidade para suportar e neutralizar qualquer sistema que venha a seguir o Boca Juniors”.

Charge do Jornal do Brasil

Mais de 80 mil torcedores superlotaram a Bombonera. Os xeneizes quebraram o recorde de renda do futebol argentino e criaram uma atmosfera fantástica para a decisão da Libertadores. As chuvas intermitentes e a lama no campo tornavam as condições mais excepcionais. Porém, toda aquela fúria nas arquibancadas ou o barro no lugar do gramado não se tornaram suficientes para intimidar o Santos. O Peixe nem precisou da vantagem do empate, derrotando outra vez o Boca Juniors, desta vez por 2 a 1. Pelé viveu uma noite sublime. O Rei encarou as pancadas dadas pelos marcadores adversários e respondeu, na bola e na raça, por que era o melhor do mundo. Garantiu a virada dando uma assistência a Coutinho e fechando o placar com uma pintura.

Como era de se esperar, o primeiro tempo guardou o domínio do Boca Juniors. Os xeneizes buscavam o ataque e poderiam ter aberto o placar antes do intervalo. Sanfilippo desperdiçou grande chance, enquanto Gylmar fez milagre em chute de Rojas. Não foram 45 minutos tão técnicos, em que os argentinos não economizavam nas pancadas. Pelé precisou trocar a chuteira e também o calção durante a primeira etapa. O Peixe cresceu com o passar dos minutos, sem cair na provocação, mas ainda com parcas chances de gol. Antes do intervalo, Gylmar voltou a se agigantar para evitar o pior.

O Boca Juniors saiu em vantagem no primeiro minuto da etapa final. A zaga não conseguiu afastar o cruzamento de Silveira e, na sobra, Sanfilippo fuzilou. O Santos não se abalou, respondendo com o empate imediato aos três minutos. Depois de um tiro de meta cobrado errado, Dorval entregou no peito de Pelé. O Rei dominou a bola, tirou a marcação com um corte seco e entregou a Coutinho dentro da área. Escapando dos zagueiros, o centroavante ficou de frente com Errea e tirou do goleiro numa linda finalização de trivela.

Até os 20 minutos, o Boca Juniors seguiu criando mais. O Santos melhorou depois disso, especialmente quando Pelé recuou para armar o time, diante do cansaço de Zito e Lima. O Rei também aparecia mais à frente para concluir. E, depois de uma tentativa defendida por Errea, o camisa 10 anotou o gol do título aos 29. Coutinho acionou o companheiro na meia-lua. Pelé era marcado por Magdalena, mas deu um drible desconcertante no zagueiro, para pegar a bola na área e mandar no contrapé de Errea. A comemoração do Rei foi raivosa, como um desabafo depois de tanta porrada que ele havia tomado. Logo os outros jogadores santistas pularam em cima do craque, celebrando a conquista. Durante os minutos finais, o Boca tentou o empate e Gylmar voltaria a realizar duas ótimas defesas, enquanto Pelé reclamou de um pênalti negado pela arbitragem. Não faria falta, diante da vitória já histórica.

Ainda nos vestiários, Pelé ressaltava como foi perseguido em campo e como o tento decisivo serviu para descarregar as energias: “Nunca, em parte alguma, me cuspiram tanto. Jogou-se duro. Golpearam-me por todos os lados. O gol da vitória foi o mais emocionante de toda a minha vida. Apesar de tudo, o Boca tem uma equipe muito boa. Falta apenas calma para saber alcançar uma vitória”.

No dia seguinte, o Jornal do Brasil avaliava as atuações: “Pelé, armando e atacando com a mesma eficiência, voltando a impedir com a sua presença que o Boca Juniors trabalhasse à vontade e marcando o gol da vitória do Santos – depois de passar a bola pelo vão das pernas de Magdalena – foi novamente a melhor figura em campo. Outros destaques no Santos foram Calvet, Mauro e Gylmar, especialmente este último, que praticou duas defesas excelentes no primeiro tempo e se manteve sempre tranquilo nos momentos de pressão. Entre os argentinos Sanfilippo foi o melhor atacante, enquanto Rattín e Rojas estiveram em grande tarde, quase absolutos no meio-campo”.

A Tribuna, de Santos, ressaltava a postura dos santistas na Bombonera:”O Santos não se intimidou e fez valer suas virtudes de quadro de real valor, destacando para uma plateia realmente numerosa e que sabe aplaudir os espetáculos de primeira qualidade, todos os seus predicados de conjunto de alto quilate e de gabarito internacional. Está o bicampeão da América a um passo do título mundial, primazia que dividirá agora com o Milan, campeão da Europa”.

A manchete d’A Tribuna

O Jornal dos Sports dedicava linhas especiais para ressaltar a partidaça de Pelé: “Pelé foi a maior figura da cancha. Extasiou os aficionados do Boca, que foram à Bombonera em tarde chuvosa aplaudir seus ídolos e acabaram aplaudindo o Santos. No segundo tempo, apesar da perseguição tenaz que lhe moveu a defesa do Boca, Pelé deixou a marca inconfundível de seu talento quando dominou Orlando e Magdalena, na corrida, para receber a bola na frente e fazer o gol”.

Já na Argentina, o La Nación salientava como a queda dos xeneizes durante o segundo tempo atrapalhou: “O Boca Juniors disputou um grande primeiro tempo, mas o desejo de vitória foi malbaratado pela dedicada oposição santista, em particular por Gylmar, onde morriam as esperanças dos locais. Zito impressionou pela serenidade, um verdadeiro cavalheiro das canchas. Pelé e Coutinho uniram sagacidade e habilidade, bastando sozinhos para impor-se ao Boca quando este se desarticulou”.

A revista El Gráfico reconhecia a superioridade do Santos: “Sim, o Boca podia empatar, mas o Santos poderia golear. O Boca chegou a dominar alguns momentos da partida, mas o Santos, quando tocou a sua vez, jogou mais fácil, mais límpido, sem encontrar maiores obstáculos até o momento final”. E mesmo a revista xeneize Así Es Boca se rendia aos adversários: “Futebol é isto que o Santos pratica. Inspirado, habilíssimo, com sutilezas enlouquecedoras, capaz de provocar paralisia no adversário. Os alvinegros mostraram que são os primeiros em agilidade, uma agilidade quase alada, que contrastou com o ritmo pesado dos nossos. Tudo dava a sensação que o Boca jogava um futebol pré-histórico. Tudo resultava do deslumbrante futebol do Santos”.

Ao término da partida, os jornais já miravam a final do Mundial contra o Milan. O Santos poderia se sagrar bicampeão também no reencontro com os europeus e assim o fez, mesmo com a ausência de Pelé nos jogos do Maracanã. A história permanece gravada e é nela que os santistas se apoiam para almejar outra grande jornada na Libertadores, em busca de seu quarto título continental.

A capa do Jornal dos Sports

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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