Como o Palmeiras transformou a Libertadores de obsessão distante em zona de conforto
Com Abel Ferreira, sob a atual diretoria, Palmeiras se tornou o clube a ser batido na competição continental
Até Rony cruzar, Jhon ficar parado, e Breno Lopes balançar a rede do Santos, no Maracanã, em janeiro de 2021, o Palmeiras ainda chamava a Copa Libertadores de Vossa Senhoria.
Obsessão desde o início da Era Parmalat, em 1992, o torneio continental foi a meta principal de todas as diretorias de futebol do Palmeiras desde a retomada do prestígio do torneio, na última década do século passado.
Mesmo na Série B, em 2013, mas classificado por ganhar a Copa do Brasil em 2012, o Palmeiras sonhou com o Continental, do qual só foi eliminado nas oitavas por conta de um frango monumental do goleiro Bruno, contra o Tijuana, no Pacaembu.
A primeira conquista, em 1999, parecia ser o início de uma dinastia. Em 2000, finalista. No ano seguinte, semi. E depois, uma série de participações esporádicas, com duas eliminações diante do São Paulo (2005 e 2006) e o inesquecível gol de Cleiton Xavier, em 2009, contra o Colo-Colo. Mas levantar a taça, nunca mais.
Corta para 2024

Faz nove edições que o Palmeiras joga o torneio mais importante do continente. Há quatro, seguidamente, faz semifinais. E, agora, já são três as taças Libertadores em sua Sala de Troféus.
De Vossa Senhoria, o Palmeiras não só passou a chamar a competição de “você”, bem como a transformou em um lugar confortável e seguro, ainda que as duas últimas edições tenham trazido eliminações desagradáveis.
O conforto chegou ao ponto de o time não hesitar em estrear contra um rival do tamanho do San Lorenzo, na Argentina, nesta quarta-feira (3), basicamente com os reservas. Os principais titulares estão poupados para a segunda final do Campeonato Paulista, domingo, no Allianz Parque, contra o Santos.
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Supremacia no Brasil
Os números do Palmeiras na Libertadores falam sozinhos. O Alviverde é o clube brasileiro com mais títulos, mais finais, mais semifinais, mais quartas de finais, mais oitavas de finais, mais participações, mais jogos, mais vitórias e mais gols.
Desde 2016, o clube disputou 48 jogos válidos pela fase de grupos. Somou 37 vitórias, cinco empates e seis derrotas, com 130 gols marcados e 39 sofridos.

Na era Abel Ferreira, desde 2020, são 18 jogos de fase de grupos, com 16 vitórias e apenas duas derrotas, ambas atuando com um time alternativo, como fará na noite de hoje.
O Palestra fez a melhor campanha da fase de grupos em cinco das últimas seis edições (exceto 2021, quando foi o segundo), sendo o único da história a fazê-lo três vezes seguidas (2018 a 2020). Em 2022, bateu o recorde continental nesta etapa da competição com seis vitórias em seis jogos e 22 gols de saldo.
Como o Palmeiras chegou lá
Não tem muita invenção: a transformação do Palmeiras em potência continental está diretamente ligada à mudança de mentalidade anunciada no fim de 2019.
Foi no fim daquela temporada, minutos antes de ser demitido, que Alexandre Mattos anunciou uma virada de chave na diretoria de futebol. Saíam os investimentos vultuosos em contratação, e entrava a aposta em jogadores das categorias de base e manutenção do elenco.
Naquele mesmo dia, Mauricio Galiotte, então presidente, anunciou também que o Palmeiras iria apostar em um técnico de métodos mais modernos, e demitiu Mano Menezes. Inicialmente, veio Vanderlei Luxemburgo, o que não poderia estar mais distante da promessa. Mas a pandemia ajudou e, ainda em 2020, veio Abel Ferreira.
Abel era o treinador de métodos avançados e gestão diferenciada que havia sido idealizado. O piloto perfeito para a máquina que o clube se tornara em termos de instalações e processos esportivos e de gestão.
Sobre gestão, vale sempre ressaltar que o criticado diretor Anderson Barros é quem mantém a máquina funcionando há quase cinco anos, ainda que parte da torcida nem sempre enxergue isso.
Competir
Em suma, a resposta para a transformação do Palmeiras em uma potência continental é a mesma que fez o clube disparar no ranking de títulos do Campeonato Brasileiro: um estádio sempre cheio, o técnico certo para o orçamento possível, o apoio devido da diretoria, um elenco competitivo e um trabalho mais do que competente na base.
Tantos atributos não são garantia de vitórias, é claro. E, nem sempre, o clube acerta integralmente. Em 2022, perder Raphael Veiga e Rony, lesionados, matou o Palmeiras na semi — o que evidenciou que o clube tinha lacunas no elenco. No ano passado, os vilões foram o Boca Juniors e os pênaltis.
Ganhar sempre, nenhum clube vai. Mas, como diz Abel Ferreira, o Palmeiras vai sempre entrar para competir ao máximo. E na Libertadores, ainda mais: é o que mostra a história.



