Libertadores

Palmeiras e Santos conquistaram algumas das suas maiores glórias no Maracanã: a Taça Rio e o Mundial de 1963

Houve uma dose de surpresa nas campanhas dos dois finalistas da Libertadores. De naturezas diferentes. Ao Palmeiras, por ter acontecido no ano de menor investimento desde 2015, sem Dudu e com uma troca de treinador no meio do caminho. Ao Santos, por todos os problemas extra-campo que abalaram a Vila Belmiro. Mesmo assim, quando ficou definido que ambos disputariam um título no Maracanã, foi como se nós sempre soubéssemos. Como se a decisão tivesse sido selada pelo destino no momento em que a Conmebol determinou o seu palco. É apropriado, condizente com a história, porque tanto Santos quanto Palmeiras conquistaram alguns dos seus maiores títulos no Maior de Todos.

O Santos, na realidade, levantou uma boa porção da sua prateleira de troféus no estádio carioca. Soma oito conquistas no Maracanã, uma a menos que o Flamengo, e atrás apenas dos outros cariocas. Foram quatro títulos posteriormente reconhecidos pela CBF como Campeonatos Brasileiros – três das cinco edições da Taça Brasil vencidas pelo Peixe em sequência e um Robertão -, e três canecos do Torneio Rio-São Paulo.

Teve também um Mundial de Clubes. Em meio a uma sequência histórica de títulos, o Santos enfrentou o forte Milan de Cesare Maldini, Giovanni Trapattoni, José Altafini e Amarildo e contou não apenas com o apoio da torcida, mas também com o gramado molhado do Estádio Mário Filho para carregar as bombas de Pepe ao fundo das redes. Um cenário quase irreversível – derrota no San Siro, 0 x 2 no intervalo da segunda partida, Pelé machucado – foi salvo e, no terceiro jogo, Dalmo marcou de pênalti o gol do bicampeonato mundial do Peixe. No ano seguinte, o time do Santos posou para uma foto com as camisas dos clubes cariocas para agradecer o carinho que recebeu dos torcedores no Maracanã:

Aquela foi uma história virtualmente sem Pelé. Há outras em que o Rei é protagonista. Como, naquele mesmo ano, no primeiro jogo da final da Libertadores no Maracanã. O Santos tinha uma seleção – Gylmar, Mauro, Calvet, Dalmo, Zito, Lima, Dorval, Pepe, Coutinho e Pelé – comandada por Lula em busca do bicampeonato sul-americano contra o Boca Juniors. Havia entrado diretamente na semifinal, como era de praxe naqueles tempos, e passara pelo Botafogo.

Havia realizado a final sul-americana do ano anterior na Vila Belmiro, mas precisava escolher um palco maior para a ocasião. Ao Pacaembu estava marcado um jogo de Campeonato Paulista entre Palmeiras e Portuguesa. A CBD sugeriu o Maracanã, onde Pelé foi garçom para construir a vitória por 3 a 2, com 30 minutos arrasadores. Em Buenos Aires, Pelé foi sublime para fechar o bicampeonato. Foi também no Maracanã que Pelé fez seu milésimo gol, em 1969, contra o Vasco.

O Palmeiras tem uma história um pouco menor no Maracanã, mas ainda muito relevante. Em 1967, conquistou dois torneios nacionais que também seriam considerados Campeonatos Brasileiros pela CBF no futuro. Ainda comemorando o Roberto Gomes Pedrosa, o clube alviverde derrotou o Náutico, no Recife, por 3 a 1, na final da Taça Brasil. A partida de volta foi marcada para o Pacaembu, em 27 de dezembro.

Acontece que Ademir da Guia tinha um compromisso para a véspera de Natal: casar-se com sua noiva chilena em Santiago. Ele conta que ao se apresentar para o segundo jogo, o treinador Mário Travaglini alegou que o Divino estaria cansado por causa da viagem e o deixou no banco de reservas. César Maluco apresenta uma segunda versão em que Travaglini teria ficado irritado que o seu principal jogador havia feito um bate-volta ao Chile em meio a uma decisão tão importante e o tirou da partida como punição. De um jeito ou de outro, o Palmeiras foi derrotado, em casa, por 2 a 1, e o título teve que ser decidido em uma terceira partida, em campo neutro. Ademir e César marcaram os dois gols da vitória por 2 a 0 no Maracanã que selou a conquista.

Anos antes, em 1951, houve outra ainda mais importante em solo carioca: “Não, meus amigos, não se repetiu o 16 de julho de 1950. Desta vez, a sorte não foi madrasta para o futebol do Brasil. Vencemos a Taça Rio, com honras e méritos. Fomos direitinho a ela, e o Palmeiras, hoje, é o clube campeão do mundo. Somente pode ser digno de orgulho de todos os torcedores brasileiros”.

Quando o lendário jornalista Thomas Mazzoni declarou o Palmeiras campeão do mundo, inclusive na capa da Gazeta Esportiva, no dia seguinte à final da Taça Rio, ele não tinha como saber que começava naquele momento uma discussão interminável. Foi campeão mundial ou não foi? Com Joseph Blatter, a Fifa chegou a dizer que foi. Depois, com Gianni Infantino, disse que não foi.

Melhor que nomear a Taça Rio é explicá-la: um torneio entre clubes sul-americanos e europeus, o primeiro com o apoio da Fifa, embora não tenha sido organizado por ela (nem pela Conmebol, nem pela Uefa, que ainda nem existia), com alguns dos melhores times do mundo, mas não com os melhores times do mundo, que teve um peso enorme no ano seguinte à derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950.

Mundial ou não, foi um dos títulos mais importantes do Palmeiras. Assim como a vitória sobre o Milan foi um momento marcante da rica trajetória do Santos. Em comum, o mesmo Maracanã que, no próximo sábado, será palco de mais um pedacinho de história para ambos.

O Torneio Mundial dos Campeões – mais ou menos

A manchete da Gazeta Esportiva sobre o título do Palmeiras na Taça Rio (Foto: Reprodução)

O investimento para organizar a Taça Rio, inicialmente nomeada de Torneio Mundial dos Campeões e rebatizada quando se notou que apenas metade dos convidados era efetivamente campeão de seus países, seria realizado a princípio pela Confederação Brasileira de Desportos, mas, na hora H, a conta foi enviada para os representantes brasileiros (Vasco e Palmeiras). A Fifa, à época presidida por Jules Rimet, ajudou com o lobby para trazer as equipes estrangeiras e destacando um dos seus homens mais importantes para integrar o comitê organizador.

O italiano Ottorino Barassi foi engenheiro, árbitro e presidente da Federação Italiana de Futebol. Era uma espécie de braço direito de Jules Rimet e guardou a taça da Copa do Mundo em uma caixa de sapatos durante a Segunda Guerra Mundial para protegê-la de saqueadores. Tem uma importância ainda mais ampla porque fundou a Uefa e deu início à Copa dos Campeões da Europa, inspirado pela Taça Rio.

Ele e Rimet queriam juntar 16 clubes, o que daria um trabalhão daqueles considerando que, na Copa do Mundo do ano anterior, apenas 13 seleções haviam vindo ao Brasil. Concordaram que era melhor mirar um pouco mais para baixo. Ficou definido que o ideal seria juntar os campeões nacionais de Itália, Inglaterra, Portugal, Áustria, Escócia e Espanha, além de dois representantes do país-sede.

O trabalho da organização teria sido muito mais fácil se o Brasil tivesse um campeão nacional. Muitas ideias – meio ruins – foram ventiladas para contornar esse inconveniente, quase uma década antes da primeira edição da Taça Brasil, mas acabaram decidindo que o país sede enviaria Vasco e Palmeiras, os mais recentes vencedores dos regionais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Era uma época de muita polarização do futebol brasileiro entre esses dois estados.

Chegou a hora de buscar os clubes europeus, e Barassi teve um companheiro de peso para essa missão. O francês Gabriel Hanot, do jornal L’Equipe e da revista France Football, foi um dos principais promotores do torneio na Europa, e seu relacionamento próximo com Jules Rimet ajudou a dar credibilidade ao projeto, e decisivamente influenciou no comprometimento das federações nacionais. Foi Hanot quem propôs à recém-fundada Uefa a criação de um torneio europeu de clubes e criou o prêmio Bola de Ouro.

Mas nem toda a influência de Hanot convenceu os escoceses a aceitarem o convite, então a organização se voltou para a Iugoslávia. A presença do Estrela Vermelha se tornou importante para a Fifa porque ela queria saber se poderia contar com os integrantes do bloco soviético em seus torneios posteriores, em meio à Guerra Fria. E quase que a CBD estragou tudo porque esqueceu de enviar o convite oficial, prova cabal de algumas coisas nunca mudam. O futebol profissional era proibido no governo do marechal Tito, mas nem por isso o clube iugoslavo era menos potente.

O Estrela Vermelha era a base da seleção iugoslava medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948. Foi campeão nacional em 1951 e tri da Copa Marechal Tito, em 1950. O elenco contava com seis jogadores que estiveram no Brasil com a seleção do país na Copa do Mundo de 1950: o zagueiro Stankovic; os meio-campistas Palfi e Jovanovic; e os atacantes Ognajinov, Tomasevic e Mitic.

O Tottenham chegou a ser confirmado como representante da Inglaterra por Barassi, mas os britânicos acabaram não mandando clube para o Brasil. Justificaram a ausência argumentando que o pouco tempo entre a definição do Campeonato Inglês e o início do torneio impossibilitaria o planejamento logístico. Era, também, impossível aos clubes que brigam pelo título recusar todos os convites para partidas internacionais, na expectativa de ganhar a liga e se qualificar a jogar no Brasil.

A vaga inglesa passou para a Áustria, e eis que a CBD atacou novamente, ao convidar o Áustria Viena, terceiro colocado da temporada 1950/51, e não o Rapid Viena, atual campeão. Tentou corrigir o erro, mas o Rapid recusou a solicitação desesperada dos organizadores. Ainda assim, o Áustria tinha um time respeitável, com oito jogadores regularmente convocados à seleção.

A Espanha também deu para trás porque, segundo os jornais da época, estava assustada com uma excursão da Portuguesa pelo país e não queria enviar um time para o abate. Por isso, a França entrou em jogo, com o Nice, campeão com o mesmo número de pontos do segundo colocado e apenas um a mais que o terceiro e o quarto depois de uma batalha ferrenha pelo título francês.

Restaram três vagas. Uma seria da Itália, país de Barassi. O Milan estava todo animado, mencionou amistosos de preparação e um prêmio de 50 mil cruzeiros para cada jogador, mas desistiu porque tinha que disputar a Copa Latina, que terminaria seis dias antes do início da Taça Rio, e não poderia contar com seus três principais jogadores. Os suecos Gunnar Gren, Nils Liedholm e Gunnar Nordahl, por conta de uma cláusula em seus contratos, tinham a liberdade de desistir de qualquer viagem internacional. Sem eles, o clube seria um saco de pancada.

A vaga acabou caindo no colo da Juventus, terceira colocada da temporada 1950/51, também liderada por um trio de estrangeiros: o meia esquerda John Hansen, o meia direita Karl Hansen e o ponta esquerda Karl Praest, todos dinamarqueses. O ataque era complementado por dois jogadores da seleção italiana, Boniperti e Mucinelli. A defesa também era de se destacar, com o goleiro Viola, os defensores Bertucelli, Parola e Manente, e os meio-campistas Mari e Picinnini.

O Sporting, de Portugal, completou a ala europeia da competição. Os Leões sempre fizeram parte das relações de equipes convidadas e poucas vezes tiveram sua participação colocada em dúvida. A equipe treinada pelo inglês Galloway foi soberana em Portugal, terminando o campeonato com 11 pontos de vantagem para o segundo colocado, o Porto. Foram 91 gols em 26 partidas, média altíssima de 3,5 gols por jogo, mesmo para aquela época. Vasques, sozinho, anotou 28, e foi o artilheiro do certame. Ele, Travassos, Canário, os ponteiros Jesus Corrêa e Albano faziam parte da seleção portuguesa.

O outro convidado viria da América do Sul e queriam que fosse argentino. A AFA, porém, tinha dois amistosos marcados com Inglaterra e Irlanda, e já teria que paralisar o campeonato nacional. Outra interrupção por causa da Taça Rio atrasaria demais o desenvolvimento do torneio. Além disso, a CBD e a entidade argentina haviam acabado de retomar relações depois daquela confusão envolvendo o argentino Battagliero na Copa Roca. Entrou o Nacional do Uruguai, campeão nacional de 1950 e 1952. Em 1951, acabou perdendo o título para o Peñarol, a base da seleção uruguaia.

Pela primeira tabela extra-oficial, o Áustria Viena havia sido colocado em São Paulo, ao lado de Palmeiras, Juventus e Nice. No Rio de Janeiro, o Vasco recebeu o Sporting, o Estrela Vermelha e o Nacional. Para alavancar público e renda, a organização decidiu explorar a grande colônia italiana da capital paulista com a Juventus, e os diversos portugueses que moravam no Rio de Janeiro com o Sporting. Em 25 de junho, a tabela foi confirmada, com apenas uma mudança em relação ao que era especulado: o Estrela Vermelha jogaria em São Paulo, e o Áustria no Rio de Janeiro.

A quinta coroa

O Palmeiras da Taça Rio

Choveu muito no Estádio Municipal do Pacaembu, em 28 de janeiro de 1951. O campo, sem os modernos sistemas de drenagem de hoje em dia, estava pesado, cheio de poças d’água e lama. Apesar de todos os problemas climáticos, 22 pessoas corriam atrás de uma bola.

Uma delas era Jair Rosa Pinto, natural de Quatis, no Vale do Paraíba do Rio de Janeiro, região sul do Estado, cujas principais cidades são Volta Redonda e Resende. Recusado pelo Vasco, deu seus primeiros chutes profissionais no Madureira. Em 1943, finalmente acertou com o time de São Januário.

Antes de entrar no lamacento Pacaembu para enfrentar o São Paulo com a camisa do Palmeiras, valendo o título do Campeonato Paulista de 1951, Jair passou pelo Flamengo e foi vice-campeão mundial com a seleção brasileira, em 1950.

O tricolor chegou a abrir cinco pontos de vantagem na tabela, mas um empate com o Guarani e derrotas para Ypiranga e Santos, somados às vitórias alviverdes sobre XV de Piracicaba e Portuguesa Santista, permitiram ao antigo Palestra Itália jogar pelo empate no Choque-Rei decisivo.

No primeiro tempo, Jair viu o adversário abrir o placar, aos quatro minutos, com Teixeirinha. Ele esperou até o intervalo, gritou com os companheiros, pediu garra e chamou o jogo para si. Participou de quase todos os lances ofensivos. Em um deles, driblou os médios do São Paulo, a água do Pacaembu, e armou o lance que deixaria a bola presa em uma poça, perfeita para o meia direita Aquiles estufar a rede e garantir o empate por 1 a 1.

O Jogo da Lama, como foi eternizado pela historiografia palmeirense, deu início à caminhada palmeirense na Taça Rio de 1951, já que o Brasil seria representado pelos campeões paulista e carioca.

O time do técnico Ventura Cambon chegou ao começo de julho esgotado, mas com quatro títulos no bolso. Quatro “coroas”, como se dizia à época: a Taça Cidade de São Paulo de 1950 e 1951; o Campeonato Paulista e o Torneio Rio-São Paulo também de 1951.

A busca pela quinta começou contra o Nice, no Pacaembu. O clube francês era liderado por Yeso Amalfi, ex-jogador do São Paulo que havia sido companheiro de Heleno de Freitas no Boca Juniors. Buenos Aires acabou sendo uma cidade pequena demais para os dois, e Amalfi seguiu para a Liga Pirata da Colômbia. Depois de uma breve passagem pelo Palmeiras, chegou à França, onde foi declarado o “Deus do Estádio” pelo artista francês Jean Cocteau e diz que apresentou Grace Kelly ao príncipe de Mônaco.

A categoria de Yeso não foi suficiente para o Nice parar o Palmeiras. No último dia de junho, o Palmeiras venceu por 3 a 0, com gols de Aquiles, de pênalti, Ponce de León, substituto de Liminha, e Richard. Em jogada caracterizada por A Gazeta Esportiva como “própria de um faquir”, Jair, cercado por todos os lados por adversários, colocou a sola sobre a bola, avançou um metro, se muito, e se esquivou da marcação. Ponce de León recebeu e marcou o segundo gol do jogo, sem interferência dos adversários, “já que todos estavam encantados”.

Segundo Yeso, o time entrou em campo em um sistema de jogo 2-6-2, semelhante ao do técnico suíço Karl Rappan, e utilizado pelo país no empate por 2 a 2 com o Brasil na Copa de 1950. O primeiro tempo terminou em igualdade. Animado, o técnico Numa Andoirre decidiu afrouxar a marcação no segundo, e os gols saíram. Ainda em São Paulo, a Juventus bateu o Estrela Vermelha por 3 a 2. No Rio de Janeiro, o Vasco começou arrasador, impondo uma goleada por 5 a 1 sobre o Sporting, e o Áustria Viena bateu o Nacional por 4 a 0.

Palmeiras e Estrela Vermelha disputariam a segunda rodada da Taça Rio no Pacaembu, em 4 de julho, uma quarta-feira, mas o jogo foi adiado para o dia seguinte por causa do mau tempo. No Rio de Janeiro, a partida entre Vasco e Áustria também passou para a quinta. Os austríacos foram à sede da CBD reclamar da mudança, pois tinham encontro marcado com o Sporting para sábado. A sugestão era mover o duelo contra os cariocas para a outra semana, na terça ou na quarta. A sugestão foi negada.

Os paulistas venceram em um lamacento Pacaembu, por 2 a 1, gols de Aquiles e de Liminha, recuperado de uma gastrite. Ognjanov descontou em falha de Juvenal. O resultado não satisfez a crítica da época, principalmente ao ser comparado à nova goleada do Vasco, novamente por 5 a 1, desta vez sobre o Áustria Viena.

“Enquanto o Vasco se agiganta, o alvi-verde decresce assustadoramente de produção, de jogo a jogo, quaisquer que eles sejam. Qualquer que seja a categoria do adversário. Vimo-lo trabalhar imperfeitamente contra o Comercial (3 a 0, em 3 de junho), na abertura do Campeonato Paulista. E se a modéstia do alvi-rubro justificava sua baixa e possivelmente desinteressada realização, que se dizer da obscura jornada com o Portsmouth (da Inglaterra, 0 a 0, em 20 de junho, em amistoso internacional)? E depois, apenas um segundo tempo simplesmente regular contra o Nice, e o quase nada a que se reduziu sua produção diante do Estrela Vermelha”, criticou o editorial de A Gazeta Esportiva em 7 de julho de 1951.

E olha que o Palmeiras tinha ganhado os dois primeiros jogos. O diagnóstico era que demorava demais para matar os seus jogos. O próximo duelo, contra a Juventus, seria o teste de fogo. E também a partida mais importante aos organizadores que sonhavam com uma final brasileira porque, quem vencesse, escaparia do Vasco na semifinal. Mas o Palmeiras fez todo o esforço possível para provar que os críticos estavam certos. Boniperti, duas vezes, Praest e Karl Hansen, de pênalti, fizeram os gols da vitória folgada da Juventus por 4 a 0.

Oberdan Cattani foi responsabilizado pela derrota. A mídia da época creditou dois gols a falhas suas. O primeiro, em um cruzamento, e o terceiro, quando a bola passou por baixo do seu corpo. “Nossa defesa ficou indecisa em muitas bolas. Eles entraram sozinhos e fizeram os gols. Acontece de a bola passar por baixo do nosso corpo, dependendo de onde ele chutou. A Juventus foi feliz de ganhar da gente de quatro. Eu não acho que falhei”, avaliou, 61 anos depois, à reportagem.

Cattani também lembrou que chegou a defender um pênalti, mas a zaga ficou de braços cruzados e permitiu que o juventino completasse às redes. As suas desculpas não foram suficientes para convencer o técnico Cambon. As cinco coroas conquistadas pelo treinador também não foram suficientes para convencer Cattani de que o seu comandante era um bom profissional. “Ele não falava nada. Como treinador, para mim, foi de altos e baixo. Deu sorte, porque tinha um bom elenco”, critica.

Não foram as primeiras falhas de Oberdan. Em 4 de março, ele havia errado duas vezes na derrota por 6 a 4 para o América, do Rio de Janeiro, em partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo. A reincidência fez com que Fábio Crippa chegasse ao posto de titular. A imprensa especulava outras alterações. Aquiles e Rodrigues seriam barrados por deficiência técnica. Entrariam, respectivamente, Richard e Brandãozinho. Ao desembarcar no Rio de Janeiro, porém, Cambon rapidamente confirmou a linha ofensiva com Richard, Aquiles, Liminha, Jair e Rodrigues. A única mudança foi Richard no lugar de Lima.

O Vasco tinha jogadores como o goleiro Barbosa, o atacante Ademir de Menezes e o ponta Tesourinha. Pouco antes da Taça Rio, o técnico Flavio Costa deixou o clube e deu lugar a Otto Glória, que promoveu uma reformulação. O zagueiro Clarel e o atacante Cabano vieram do sul do país. O time ainda contratou outros jogadores, como o atacante Vavá, os meias Adésio e Bira, e os pontas direita Celio e Friaça, este último vendido ao São Paulo por 300 mil cruzeiros e depois recontratado por 400 mil. Às vésperas da competição, as pretensões cruzmaltinas sofreraram um baque decisivo. Em 27 de junho, Ademir de Menezes machucou o tornozelo em uma goleada por 5 a 1 sobre o América de Pernambuco durante uma excursão pelo Recife. A primeira estimativa dos médicos previa 15 dias de recuperação, mas havia suspeita de fratura, o que o deixaria afastado de toda a Taça Rio.

Não ter que enfrentar Ademir era a boa notícia ao Palmeiras. A má notícia era que, para aumentar a renda, e com anuência da diretoria do Palmeiras, os dois jogos seriam no Maracanã. O Palmeiras havia vencido o último duelo entre as equipes por 4 a 1, no Torneio Rio-São Paulo, no primeiro dia de abril daquele ano. Otto Glória mandou a campo quatro jogadores que perderam para o Uruguai no Maracanã na final da Copa de 1950: Barbosa, Augusto, Danilo e Friaça.

Para o azar de Oberdan, a decisão de Cambon mostrou-se acertada. Fábio Crippa fechou o gol nos dois duelos contra o Vasco da Gama. A vitória por 2 a 1 no primeiro jogo, gols de Richard e Liminha, e o empate por 0 a 0 garantiram a equipe alviverde na decisão da Taça Rio. A nota triste foi a séria lesão de Aquiles, que fraturou o terço médio da tíbia em um choque com o goleiro Barbosa. Pelo restante da Taça Rio, Ponce de León assumiu a posição. A adversária da decisão seria a mesma Juventus da primeira fase. No jogo de ida contra o Áustria, empate por 3 a 3. O árbitro brasileiro Alberto da Gama Malcher apitou um pênalti para os austríacos nos minutos finais. Os italianos perderam a cabeça e partiram para cima do juiz e do delegado da partida. Acabaram presos.

Os pivôs da polêmica, que chegou até a Itália, foram o goleiro Viola e o atacante Muccinelli. O jornal italiano Corriere dello Sport pediu a desclassificação de ambos. O El Messaggero exigiu da Federação Italiana uma punição rigorosa à equipe e aos jogadores, “se o episódio do Pacaembu teve o caráter violento descrito pelas informações da imprensa”. A Juventus venceu a volta contra os austríacos por 3 a 1.

A lógica mandava que pelo menos uma das partidas finais fosse realizada no Pacaembu, já que o representante brasileiro que restava na Taça Rio era o Palmeiras – um clube de São Paulo. Além disso, os “cavalheiros” de Palestra Itália já haviam aceitado disputar os dois jogos contra o Vasco no Maracanã e seriam prejudicados novamente se as duas finais fossem em solo carioca, longe da sua torcida.

Houve dois empecilhos. O primeiro, o regulamento, que previa os duelos derradeiros no Maracanã, uma vez que a expectativa da organização era que Vasco e Palmeiras decidissem o título. O segundo foi a exigência da Juventus em jogar no Rio de Janeiro. O presidente do Palmeiras, Mário Frugiuelle, tentou interceder junto à CBD para que uma das partidas fosse no Pacaembu. Alegando problemas no gramado, e não querendo reviver os incidentes da semifinal contra o Áustria, os italianos recusaram.

“A gente queria jogar aqui, no Pacaembu, na nossa casa. Eles queriam jogar lá porque pensavam que a torcida seria contra, mas foi ao contrário. O Palmeiras tem muito torcedor no Rio, e os cariocas torceriam por um time brasileiro. Era uma questão política. Os estrangeiros vêm aqui e querem mandar? Não pode”, explica Oberdan. Com lobby da Federação Metropolitana de Futebol, a torcida carioca comprou a causa do Palmeiras. A Gazeta Esportiva ilustrou esse apoio entrevistando o Seu Manoel, dono de um café na Lapa, no centro do Rio de Janeiro: “Diga-me cá uma coisa. Esse tal Palmeiras não usa a cor verde? Pois se usa a cor da bandeira do Brasil, das matas e dos arvoredos do Brasil, não há dúvida: eu tenho é que torcer para ele. Que diabo!”.

Até 18 de julho de 1951, o Palmeiras havia disputado apenas quatro jogos contra equipes italianas, contando o da primeira fase contra a Juventus, e não vencera nenhum. Os primeiros amistosos, em 1929, terminaram empatados, apesar de o time contar com o atacante Heitor, ainda hoje o maior artilheiro da história do Palmeiras: 4 a 4 com o Bologna, e 0 a 0 com o Torino. Em 1948, o Verdão de Oberdan, Túlio, Waldemar Fiume, Lima e Canhotinho conseguiu nova igualdade com o Torino, também jogando em São Paulo: 1 a 1. O quarto, claro, fora o 4 a 0 para a Juventus.

A equipe entrou no gramado do Maracanã com as bandeiras do Brasil, de São Paulo e do Distrito Federal, e deu a volta olímpica. O jogo teve um gol solitário de Rodrigues garantindo a vitória alviverde. De volta ao time titular, Lima fez jogada pela ponta direita e centrou na cabeça de Rodrigues, que pulou alto e venceu o goleiro Viola, responsável por evitar um placar mais desfavorável para a Juventus, embora o regulamento não previsse saldo de gols. Empate em pontos nas duas partidas levaria à prorrogação. Ao fim do confronto, Fábio Crippa dirigiu-se ao arqueiro rival e o parabenizou: “Você foi o melhor em campo”.

Os italianos colocaram a culpa da derrota nos refletores do Maracanã, já que a primeira final foi realizada à noite. Eles estavam esperançosos para a volta, à luz do dia 22 daquele mês, mas o sol não brilhou para a Juventus. Com renda de 2,783 milhões de cruzeiros, e com cerca de 100 mil pessoas no Maracanã, segundo os jornais da época, o Palmeiras empatou por 2 a 2 e se sagrou campeão.

Ironicamente, Fábio falhou nos dois gols dos adversários. Muccinelli lançou Praest, o goleiro saiu em falso e foi vencido aos 18 minutos do primeiro tempo. Rodrigues empatou, mas a Juventus voltaria a ficar à frente no início da segunda etapa, quando Muccinelli arrematou, Fábio rebateu, e Boniperti, esperto, fez no rebote.

O Palmeiras, porém, tinha Liminha. Redimindo-se dos erros, Fábio fez uma perigosa defesa e passou a bola a Luiz Villa, que a endereçou a Túlio. Liminha recebeu o passe, driblou quatro adversários, entrou na pequena área, e marcou o gol do título, aos 32 minutos.

Coerente com seu comportamento durante toda a competição, o time italiano perdeu a pose. O goleiro Viola agrediu Liminha assim que o gol foi anotado. Na saída de bola, Johan Hansen deu um soco na barriga de Salvador. Com a cabeça bem longe do jogo de bola, os estrangeiros não conseguiram reagir.

A manchete de A Gazeta Esportiva do dia seguinte decretava: Palmeiras campeão do mundo. O jornal de 24 de julho de 1951 lembrou outros “milagres” do time naquele ano, como o título paulista, “completamente perdido a três rodadas do fim”, e a conquista do Torneio Rio-São Paulo, após estar “liquidado, 100 possibilidades contra uma a favor, salvo um milagre”.

“Somente um clube com os recursos espirituais e internos como o Palmeiras poderia três vezes seguidas, no prazo de seis meses, realizar três gigantescas reações, cada qual mais difícil que a anterior. Quando reputamos que uma só dessas façanhas é possível somente uma vez em 20 ou 30 anos”, disse a matéria.

E o Brasil estava vingado. “Quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai, há um ano, no mesmo estádio, todos os jogadores foram crucificados. Alguns mais, alguns menos, mas todos, de um jeito ou de outro, pagaram um preço alto pela derrota. Deus me ajudou e, pouco depois, em 1951, eu tive a chance de fazer o que não consegui em 1950: ser campeão do mundo. De alguma forma, a Taça Rio foi Mundial de Clubes”, disse Jair ao dossiê preparado pelo jornalista Arnaldo Branco Filho e utilizado pela diretoria palmeirense, já no século 21, para tentar a oficialização do título junto à FIFA.

O título também rendeu ao Palmeiras um gentil empréstimo de 5 milhões de cruzeiros do governador Lucas Nogueira Garcez como prêmio pelo título, que resultou na famosa piscina do Palestra Itália, destino inevitável de inúmeros chutes tortos de alguns jogadores de qualidade duvidosa da história do clube.

A Taça Rio teve outra edição, no ano seguinte. Ela seria realizada em 1953, mas foi antecipada para celebrar os 50 anos do Fluminense. Além do tricolor carioca, participaram Peñarol (Uruguai), Sporting (Portugal) e Grasshopers (Suíça) no Rio de Janeiro; e Corinthians, Áustria, Libertad (Paraguai) e Saarbucken (Alemanha) em São Paulo. A tão sonhada final brasileira de 1951 concretizou-se em 1952. O Flu eliminou o Áustria, e o Corinthians passou pelo Peñarol. Na decisão, o Fluminense comemorou seus meio centenário com uma vitória por 2 a 1 e um empate por 2 a 2, levantando a última taça da competição.

Possesso x Possesso

Mazzola e Amarildo, brasileiros campeões pelo Milan

Em sua segunda final de Mundial de Clubes, em 1963, o Santos poderia enfrentar o Benfica novamente, mas o brasileiro José João Altafini, o Mazzola, marcou duas vezes no Estádio de Wembley, em Londres, assegurando a virada para 2 a 1 e o título para o Milan, da Itália. O clube rubro-negro de Milão havia reforçado seu patamar de grande italiano com quato títulos nacionais na década de 1950, chegando a um total de oito com o de 1961/62.

O elenco era extremamente qualificado. A defesa tinha como líder Cesare Maldini, capitão e zagueiro de muita técnica nascido em 1932. Jogou no Milan de 1954 a 1966 e encerrou a carreira no Torino. Outro jogador daquele time que se tornou técnico foi o médio Giovanni Trapattoni, responsável por marcar Pelé em dois duelos anteriores ao Mundial. Em 12 de maio de 1963, ele anulou o camisa 10 na vitória da Itália por 3 a 0 sobre um Brasil com mais sete santistas: Gilmar, Lima, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Quarenta dias depois, o Milan bateu o Santos por 4 a 0, com Trapattoni mais uma vez se destacando na defesa. Com a prancheta na mão, dirigiu times como o próprio Milan, a Juventus, a Internazionale, o Bayern de Munique e a Seleção Italiana.

O sucesso com o trio de suecos na década anterior legitimou mais uma aposta em estrangeiros, dessa vez naturais do país bicampeão mundial, o Brasil – no fim dos anos 1980, o Milan repetiria a estratégia e teria um de seus períodos de maior sucesso, com holandeses: Marco Van Basten, Ruud Gullit e Frank Rijkaard. Revelado pelo Palmeiras, Dino Sani chegou a ser titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, mas perdeu a posição para o santista Zito a partir da vitória por 2 a 0 sobre a União Soviética. Em clubes, destacou-se no São Paulo e foi para a Itália depois de passar pelo Boca Juniors. Encerraria, ainda, a carreira no Corinthians. Por contusão, não atuou contra o Santos.

José Altafini ganhou o apelido de Mazzola por sua semelhança física com o italiano Valentino Mazzola, capitão e melhor jogador do Torino, que foi pentacampeão italiano na década de 1940, e morreu aos 30 anos em um acidente de avião que também matou seus companheiros.

O brasileiro aterrissou na Suécia com uma carreira de sucesso no Palmeiras e uma transferência concretizada para o Milan. Na Copa de 1958, havia sido titular nos dois primeiros jogos da fase de grupos e nas quartas de final, mas a comissão técnica diagnosticou que sua concentração estava comprometida pelo novo contrato e preferiu utilizar Vavá a partir da semifinal. Impossível saber se Mazzola faria o mesmo, mas o atacante do Vasco marcou contra a França, duas vezes na final diante da Suécia e deu uma contribuição decisiva ao primeiro título mundial da Seleção Brasileira.

Por fim, Amarildo, o Possesso. O meia-esquerda é o 11° maior artilheiro da história do Botafogo e foi incumbido da ingrata missão de substituir Pelé no Mundial do Chile, em 1962, após a distensão muscular que tirou o Rei de ação logo no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia. Amarildo mostrou suas credenciais imediatamente, com dois gols diante da Espanha, e nas partidas restantes foi um coajuvante de luxo de um iluminado Garrinha. Também deixou sua marca na decisão contra os tchecos. “Estou orgulhoso de ter sido o substituto de Pelé. Foi um grandíssimo jogador, o melhor de todos, ele e o Garrincha. Depois do jogo contra a Espanha, foi o primeiro a me cumprimentar. Eu estava tomando banho e ele entrou debaixo do chuveiro para me abraçar. Isso foi uma demonstração da amizade que havia entre nós”, afirma à reportagem o hoje aposentado Amarildo, que tentou carreira como técnico – chegou a comandar o América, do Rio de Janeiro.

Na noite de 16 de outubro de 1963, data do início do Mundial de Clubes daquele ano, Amarildo estava em estado de graça. No quarto minuto de jogo, viu o compatriota Mazzola cruzar para Trapattoni abrir o placar com um chute de muita força, e ampliou, de cabeça, aos 15. O Santos chegou com um pesado arremate de Pepe, mas Ghezzi fez a defesa. Sumido até então, mais uma vez apagado pela marcação de Trapattoni, Pelé conseguiu escapar e marcar um belo gol. Arrancou em velocidade, passou pelo seu principal perseguidor, depois pelo atacante Giovanni Lodetti, e colocou a bola no canto direito de Ghezzi.

Amarildo não se assustou. Dominou uma virada de jogo de Rivera e finalizou com categoria para ampliar o placar. Aos 37 minutos da etapa final, definiu a vitória do Milan com um cruzamento, completado por Bruno Mora. Pelé diminuiu, de pênalti, para 4 a 2. “Ganhamos até com certa facilidade. Ele (Pelé) foi muito bem marcado, mas não foi só por isso. Nós fomos muito superiores ao Santos”, avalia Amarildo. O santista Pepe recorda: “O Milan tinha uma marcação muito forte, com líbero (Trapattoni) e homem a homem. Fomos jogar na Itália muitas vezes e tínhamos dificuldades, mas sabíamos que o segundo e o terceiro jogos seriam aqui no Brasil”.

Os jogadores brasileiros ficaram incomodados com as declarações otimistas dos italianos e com a festa dos jornais, mas nada chegou perto da reação à suposta declaração de Amarildo ao semanário Supersports, da Itáia. Com a manchete “Amarildo: Pelé sono io!”, a matéria informou que o ex-jogador do Botafogo havia dito que “Pelé já era”.

“Eu seria incapaz, não sou ignorante de fazer uma afirmação daquelas. Foi uma fantasia do jornalista e do jornal para vender. Eu não dei nenhuma declaração de nenhuma espécie. Sou um grande fã de Pelé, sempre fomos amigos”, defende-se Amarildo, quase 50 anos depois, à reportagem.

Amarildo diz que tentou procurar o jornalista para exigir uma retratação, mas não conseguiu. “Não deixaram. Eu queria que ele desmentisse aquilo. Se não tivesse nada a esconder, falaria comigo. Ele se negou a me encontrar, e o próprio jornal dava desculpa, dizendo que ele tinha entrado em férias, que não estava mais no jornal”, conta.

“Amarildo era amigo nosso. Jogou conosco na Seleção, mas o apelido dele era papagaio. O que ele falava entrava por um ouvido e saía pelo outro”, brinca Pepe. Zito não acredita que o adversário tenha dado essa declaração. “Ele era um menino, mas não falava isso”, comenta.

Lima ficou bravo com Amarildo e lembra que o brasileiro tentou jogar a torcida italiana contra o Santos no jogo de Milão. “Ele ficava encenando, não podia encostar nele que ele se jogava, fazia encenações. Buscou uma situação e depois não soube como sair dela. Não precisava jogar a torcida contra a gente. O Pelé foi o maior jogador de todos os tempos, e o Amarildo? Acredito que 99% das pessoas vão achar tudo que ele falou ridículo”, aponta.

“Eu não era jogador de me sentir superior. Eu era Amarildo, o Possesso, e basta. O Pelé é o Pelé. O Garrincha é o Garrincha. Dois mestres, dois jogadores que para mim foram os melhores de todos os tempos”, diz Amarildo.

O outro Possesso

Almir à direita na fileira inferior

“Amarildo para mim parecia um mercenário. Estava seduzido pelas liras italianas a tal ponto que agredia Pelé sem razão”, escreveu Almir Pernambuquinho, o substituto de Pelé no segundo e no terceiro jogos, em seu livro Eu e o Futebol, publicado pela revista Placar em 1973. “Em entrevistas à imprensa italiana, ele cansou de repetir que o Milan faturaria o título fácil. Um jogador fazer isso é normal, faz parte da guerra de nervos, mas ele não ficou só nisso. Disse também que Pelé já era, que não era mais o Rei. Eu fiquei com raiva dele não apenas porque se tratava de um brasileiro que falava mal de Pelé. Como jogador, cara que conhece futebol, Amarildo não podia ignorar que Pelé, ainda hoje, é o maior jogador de futebol do mundo. Com uma bolinha na nuca, entrei em campo como um miúra, um touro bravo daqueles que vi na Espanha. Tomei uma resolução: logo de cara vou acertar Amarildo.”

Pela segunda vez em pouco mais de um ano, um técnico precisava lidar com um problema que não tinha solução: substituir Pelé. Obviamente, Lula não poderia fazer o mesmo que Aymoré Moreira na Seleção e lançar Amarildo, que estava a serviço do Milan. Então, utilizou Almir Pernambuquinho no lugar do Rei, que dias antes sofrera nova distensão no empate por 1 a 1 com o Juventus, no Pacaembu, pelo Campeonato Paulista.

De temperamento explosivo, Almir começou a carreira em 1956 no Sport Recife, e passou por Vasco, Corinthians, Boca Juniors, da Argentina, e Genoa, da Itália, antes de chegar ao Santos em 1963. Abandonou a profissão em 1968, após passar por Flamengo e América-RJ, e foi assassinado cinco anos depois em uma briga de bar em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Sem papas na língua, ou na caneta, Almir também escreveu na sua autobiografia que tomou anfetamina nos vestiários do Maracanã antes de encarar o segundo jogo contra o Milan. A “bolinha” teria sido oferecida pelo assistente técnico Alfredinho e imediatamente aceita, pois aquilo era “normal” e uma vitória renderia ao elenco um bicho de dois mil cruzeiros por cabeça, suficiente para comprar um carro Volskwagen “zerinho”.

“Por que eu não ia querer? Nós entramos em campo vendo o automóvel ao alcance da mão. Do outro lado, estavam os caras que poderiam impedir isso. Era preciso, então, fazer tudo, se matar em campo para não deixar que faturassem o bicho. Depois que Alfredinho me deu a ‘bola’, fiquei doido. Eu estava substituindo Pelé e precisava dar tudo de mim. O Santos tinha um timaço, mas estávamos sem duas peças principais: Zito, que foi substituído por Lima, e Pelé. Peguei a camisa dez mais famosa do mundo e fiz uma promessa: vou jogar por mim e pelo negão”, contou.

Pepe não sabe dizer se Almir realmente tomou a anfetamina, mas lembra que na época não existia exame antidoping e o seu companheiro estava pressionado pela responsabilidade de substituir Pelé. Ele garante que o resto do elenco do Santos não utilizava o reforço químico. “Se ele tomou, foi por conta própria. Não concordo com qualquer tipo de indisciplina, mas, valendo título mundial, um cara com o temperamento do Almir era capaz de qualquer coisa”, avalia Pepe.

Lima argumenta que o Santos tinha excelentes preparadores físicos e não precisava de estímulo para jogar futebol. “É horrível e ridículo ficar batendo nessa tecla. Almir falou que ele sempre jogou dessa forma. Se tomou alguma coisa ou não é um problema dele, não nosso”, explica.

Com autoridade moral sobre o time, Zito sempre tentava dissuadir os companheiros de usar doping. “Aquilo fazia mal. Não sei se ele tomou ou não. Com a força que tinha, raivoso, dá a impressão que tomou anfetamina, mas não sei. Eu procurava tirar da cabeça do jogador de usar aquilo”, lembra.

Houve uma disputa política sobre o local do segundo jogo, com mando do Santos: Pacaembu ou Maracanã? Segundo o Jornal dos Sports, o presidente da Federação Paulista, Mendonça Falcão, queria que o jogo fosse em São Paulo. Dirigentes cariocas defendiam o Maracanã. O Santos, de acordo com a publicação, mantinha-se “como a dama rica que ri dos que a cortejam”. Os dirigentes pesariam as vantagens políticas e econômicas da escolha.

Uma disputa política entre João Havelange, então presidente da CBD, e Emílio Ibrahim, no comando da ADEG (Administração dos Estádios do Estado da Guanabara) parecia estar no centro da disputa. O Santos queria agradar a Havelange, mas uma partida daquele tamanho no Maracanã geraria dividendos financeiros a Ibrahim. “Poderá ou não ser indicado o Maracanã, dependendo em particular do afastamento do sr. Emílio Ibrahim da presidente da ADEG. Se isso ocorrer, o jogo será no Maracanã. Do contrário, será no Pacaembu”, escreveu o Jornal dos Sports.

Aos diretores, os jogadores do Santos confessavam que preferiam o Maracanã. Gostavam mais do gramado e não achavam que perderiam apoio da torcida porque sempre haviam sido muito bem recebidos na capital carioca. No fim, foi o que prevaleceu, com mais uma pitadinha de politicagem. Aproximadamente duas semanas depois do título sul-americano sobre o Boca Juniors, a diretoria do Santos rachou com a Federação Paulista de Futebol e anunciou que mandaria o Mundial no Maracanã.

“Todas as relações amistosas estão cortadas desde o domingo passado, quando a FPF indicou o juiz Armando Marques, que estava vetado pelo Santos, para dirigir as suas partidas”, apontou o Jornal dos Sports, relatando também que diretores do Santos haviam se demitido da FPF.

Cerca de 150 mil pessoas no total, das quais 132.728 mil pagantes, abarrotaram o Maracanã naquele 14 de novembro. Boa parte vaiou quando Amarildo entrou em campo. Um sentimento estranho para o jogador que naquele mesmo estádio tantos gols marcou pelo Botafogo.

“Eu compreendi o seguinte: era como se eu estivesse jogando em uma seleção estrangeira contra o Brasil. Eles não podiam imaginar que, depois de ganhar uma Copa do Mundo pelo Brasil, eu pudesse disputar um Mundial de Clubes contra o Santos. A vaia foi mais uma decepção de me ver jogando por outro clube, contra brasileiros. Isso foi pelo carinho que tinham comigo, amor que tinham comigo. Eu cumpri minha obrigação, meu dever de jogar, porque era um jogo de campeonato, não era uma seleção”, explica Amarildo.

O árbitro argentino Juan Brozzi apitou o início da partida e Amarildo recebeu a bola. Deslocou-se à esquerda para se aproximar da linha de fundo e fazer uma jogada característica, buscando o cruzamento ou um chute direto ao gol. Almir foi atrás e deu uma pancada no tornozelo do adversário.

Em sua biografia, Almir escreveu: “Logo que entrei em campo, mirei o Amarildo e disse comigo que desta vez ele não escapava. Eu ia dar por mim e pelo Pelé, que nem sabia da minha intenção. O cara que fala mal de Pelé tem de receber o troco na hora. O tempo estava meio chuvoso, não caía tanta água como no primeiro jogo, mas isso afastou um pouco o público. Com um minuto de jogo, Amarildo pegou a bola e fez uma jogada que executava no Maracanã desde os tempos de Botafogo. Eu tinha sido advertido para isso, manjei bem o estilo dele. Ele descambou para a esquerda e procurou se aproximar da linha de fundo, por fora da área. O danado tinha bom domínio de bola, driblava bem, chutava como gente grande. Vinha saçaricando, queria impressionar o público, estava naquela de mostrar que era o Possesso, apelido que ganhou na Copa do Mundo de 1962. Mas o possesso ali era eu. Falei: ‘deixa esse filho da mãe comigo’. Foi um toco só. Ele caiu se contorcendo de dor, mas acho que fez cena demais. Depois disso, o cacete comeu firme dentro de campo”.

Amarildo acha que o substituto de Pelé estava com carta branca para fazer o que quisesse naquela noite. O próprio Almir disse em seu livro que ouviu do vice-presidente Nicolau Moran que o árbitro estava comprado e não o expulsaria, independente do que fizesse.

“Ele fez porque estava autorizado a fazer”, reclama Amarildo. “Mesmo se eu tivesse feito a declaração, aquilo ali foi uma ação que ele tinha que ser expulso. Foi uma coisa premeditada. Isso faz crer que o juiz já estava autorizado a deixar o comportamento livre para o Santos. Iniciando o jogo, me passaram a bola e a primeira coisa que Almir fez foi me dar uma cabeçada e uma joelhada. O juiz não tomou nenhuma atitude. Valia tudo para o Santos e para nós nada.”

Mas os jogadores do Santos voltaram para os vestiários do Maracanã com a cabeça inchada. Haviam sofrido dois gols do Milan e precisavam virar o jogo para manter vivas as chances do título mundial. Aos 14 minutos do primeiro tempo, Amarildo havia alcançado, finalmente, a linha de fundo e cruzado para Mazzola, que ganhou de Haroldo pelo alto e cabeceou no canto direito de Gilmar, fixo na meta. O segundo gol veio em lançamento de Cesare Maldini para Mora, entre Haroldo e Mauro. O ponta tocou na saída do goleiro para ampliar.

Almir contou que, ao chegarem no vestiário, um repórter de um jornal do Rio de Janeiro disse-lhes que havia uma mesa de 20 metros nas acomodações do Milan, com todo o tipo de bebida e comida. A festa do título mundial já estava preparada. “Foi a melhor preleção que ouvi na minha vida. Se você olhasse no rosto de cada jogador, notaria a ansiedade para voltar a campo. Acho que nem ficamos cinco minutos no vestário. Voltamos a campo e começou a chover. Tomamos uns dez minutos de chuva esperando os italianos”, recordou.

Lima lembra-se bem desse momento e também considera a notícia do profissional do Jornal dos Sports como a maior preleção da sua vida. “Eles tinham uma mesa de mais ou menos quatro ou cinco metros, com comida e bebida, só esperando para comemorar. Estava 2 a 0 para eles, maravilhoso, mas não poderiam esquecer que havia uma grande equipe do outro lado. Não houve respeito”, reclama.

Amarildo, mais uma vez, nega. Indignado, disse que a festa, em caso de vitória, seria no hotel e não no vestiário. No máximo, os jogadores trocariam abraços e abririam uma garrafa de espumante. “Banquete? Isso é uma coisa realmente abusada, mentirosa, que jamais passou pela nossa cabeça. A cultura dos europeus é diferente da nossa aqui no Brasil. Talvez se fosse ao contrário eu poderia acreditar, que o Santos tinha preparado isso no terceiro jogo, mas o Milan absolutamente nada”, assegura.

Pepe recorda que Almir era um dos mais vibrantes no vestiário e que Lula deu uma preleção rápida, de uns cinco minutos, na base do “vamos lá, com força, entusiasmo”. “Se era outro time, sem a nossa raça e vibração, levava um saco de gols, mas o Santos tinha força, time e o meu chute, que poderia resolver”, constata.

O fato é que o Santos voltou diferente. Logo na saída de bola, Almir acertou a trave. Falta na entrada da área em cima de Coutinho. Pepe cobrou com muita força, rasteiro, e acertou o canto direito de Ghezzi, diminuindo o placar para 2 a 1. Outra infração, Dalmo levantou na boca do gol para Almir e Mengálvio brigarem pela bola. O meia diz que o gol foi dele, mas o árbitro assinalou para o Pernambuquinho.

O jogo estava empatado, e o gramado encharcado. O Santos chegava bastante em faltas, mas também conseguiu balançar as redes com bola rolando. Lima recebeu lançamento de Mengálvio e chutou de fora da área. Ghezzi não se mexeu, viu a bola entrar e foi bastante criticado pelo capitão Cesare Maldini.

Mais uma falta, mais um gol de Pepe. Aos 22 minutos, ele acertou um petardo que furou a barreira, entre Maldini e David, e entrou. “O Pepe era um jogador de chuva”, brinca Zito. O ex-ponta-esquerda concorda: por ter muita velocidade, ajeitar bem a bola e ter um dos arremates mais fortes da história do futebol, Pepe gostava de atuar em gramados molhados. Mas naquele dia ele quase não jogou no Maracanã.

No dia da partida, Pepe conversou com Dalmo e ficou sabendo que Lula havia dado a primeira preleção para os jogadores que entrariam em campo com Batista na ponta-esquerda, pois o ex-atleta do Noroeste era mais defensivo, e o treinador estava com medo da força do Milan. “Porra, sou titular há anos e na hora do vamos ver ele vai me tirar para colocar um jogador absolutamente comum? Se era outro jogador, pensaria ‘dane- se’, vou ficar ‘numa boa’, sem jogar, sem responsabilidade. Mas fiquei puto da vida. Se eu tivesse condições, pegava o ônibus e ia embora”, afirma Pepe.

Por volta das 17 horas daquele dia, Pepe foi chamado para um reunião em seu quarto com Lula e os diretores Modesto Roma e Nicolau Moran. “Quando subi a escada, Lula disse: ‘E aí, ‘Bomba’, como está para hoje?’”. Respondi: ‘Estou bem, estou legal, pode contar comigo’. Ele disse: ‘Ah, precisamos muito de você hoje’. Saí dali com uma injeção de ânimo e imaginei que o Modesto Roma e o Nicolau haviam tirado da cabeça do Lula a asneira que ele ia fazer. O Santos não teria ganhado se eu não tivesse jogado. Foi, na minha carreira de futebolista, o maior jogo da minha vida.”

Nos últimos minutos, Dalmo, Lima e Almir “se vingaram” de Trapattoni e o colocaram na “roda”, tocando a bola propositalmente em torno dele, sem deixar que o italiano a alcançasse. Amarildo lamenta: “Qualquer jogada que fazíamos era falta. O Santos jogou os 45 minutos do segundo tempo à base de faltas. Nós começamos muito bem, um jogo muito fácil, e depois deu um temporal, não poderia mais se jogar futebol, era apenas ‘balão’. Nós poderíamos ter liquidado o jogo no primeiro tempo, feito mais de dois gols, saído com 4 a 0. O segundo tempo foi um desastre, pela chuva que caiu e o juiz que não se comportou bem. O Santos tinha um jogador como Pepe, um exímio batedor de faltas, e concluiu com isso”.

O Santos ganhou, por 4 a 2, mas haveria ainda uma terceira partida. Que ocorreu apenas dois dias depois, em um sábado, 16 de novembro. Lula repetiu a escalação, mas o técnico do Milan, Luis Antonio Carniglia, trocou o goleiro Ghezzi por Balzarini. O arqueiro havia reclamado da pouca visibilidade por causa da chuva e acabou responsabilizado pela imprensa por três dos quatro gols do Santos na partida anterior.

Em seis minutos, Balzarini estava sangrando. Almir tentou um chute dentro da área, mas acertou a cabeça do goleiro, que precisou de faixas para continuar jogando. Maldini foi tirar satisfações com o Pernambuquinho, Ambrosio Pelagalli agrediu Coutinho e Mauro juntou-se à confusão. Instantes após a bola voltar a rolar, Maldini fez falta em Almir.

Aos 30 minutos, o zagueiro Mario Trebbi escorregou e a marcação em Almir ficou frouxa. Maldini tentou cortar a bola, mas acertou a cabeça de Almir. O argentino Juan Brozzi, novamente no comando do apito, marcou pênalti para o Santos. O jogo foi interrompido por quatro minutos. O capitão do Milan perdeu a cabeça e partiu para cima do árbitro com a óbvia intenção de agredi-lo. Acabou expulso e foi preciso intervenção policial para retirá-lo do gramado.

Em sua autobiografia, Almir escreveu: “Lima fez um cruzamento alto, eu estava mais ou menos pela marca do pênalti. Chegaria um pouco atrasado na bola, mas tinha de tentar, acreditar em mim. Eu vi quando Maldini, desesperado, levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Eu tinha de dar tudo naquele lance, meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correr o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer. Era ele ou eu. Meti a cabeça, Maldini enfiou pé. Eu rolei de dor pelo chão”.

Dalmo não era o craque do time. Na ausência de Pelé e Zito, esse posto certamente ficava com Pepe. Portanto, o lateral de 29 anos precisou de muita convicção para pedir ao ponta-esquerda a permissão para cobrar aquele pênalti. Pepe assentiu e não se arrependeu. Dalmo cobrou com a perna direita no canto esquerdo de Balzarini e marcou o gol do título mundial.

Pepe declara: “Eu tenho respondido essa pergunta há quase 50 anos. Por que eu não bati o pênalti? Antes do jogo, o Lula falou: ‘Se tiver pênalti cobra o Dalmo ou o Pepe’. Eu não vinha em uma fase muito boa, quem estava batendo pênalti era o Pelé. O Dalmo estava muito seguro. Foi a melhor coisa que aconteceu. Eu poderia ter marcado o gol do título, mas fiquei muito contente porque o Dalmo é muito meu amigo e merecia, por tudo o que fez, estar na história do Santos. Foi um jogador extremamente eficiente e ficou marcado na galeria de conquistas como o homem que marcou o gol do título”.

O Santos consagrou-se mais uma vez. Foi o nono título consecutivo daquela equipe que desde 1961 vinha ganhando tudo o que disputava. Naquele período, levantou os troféus do Campeonato Paulista (1961 e 1962), da Taça Brasil (1961 e 1962), do Rio-São Paulo (1963), da Libertadores (1962 e 1963) e do Mundial de Clubes (1962 e 1963).

Sobre o bicampeonato mundial, pairam a confissão de doping e a denúncia compra do árbitro por parte de Almir Pernambuquinho. O Milan não conseguiu digerir a derrota. O técnico Carniglia, anos depois, disse à revista argentina El Gráfico que ouviu de Dino Sani que Juan Brozzi havia sido comprado. “Quando chegamos ao Rio de Janeiro, Dino Sani aproximou-se de mim e disse: ‘Don Luis, eu ouvi uma coisa’, e me contou que eles tinham comprado o árbitro. Era um argentino, Juan Brozzi. Eu relatei o fato para os diretores do clube, que imediatamente solicitaram à Confederação Sul-Americana de Futebol a substituição de Brozzi por (Juan Luis) Praddaude, um dos bandeirinhas. Os diretores da Confederação recusaram”, reclamou.

“Eu acho isso daí ridículo, principalmente porque quem falou esse monte de bobagens foram os brasileiros”, ataca Lima. “Nunca viram um time perdendo de 2 a 0 virar para 4 a 2? Eles questionam o quê? Pergunte para quem assistiu se houve algo de anormal. Todo mundo vai falar nada. E foi pênalti claríssimo. Eu até hoje não sei por que ele não chutou a cabeça do Almir. No que eu entendo de regra de futebol, é pênalti.”

Pepe provoca: “Acho que isso é choro do Milan, que era um grande time, mas a nossa vitória foi merecida. A única dúvida foi o pênalti no Almir. A bola estava em disputa no alto e o Almir subiu para cabecear. O Maldini era um jogador de muita categoria e até estranho ele dar uma bicicleta daquelas, quase acertou o pescoço do Almir. Foi bem marcado”.

O Canhão da Vila conquistou dois títulos mundiais pela Seleção Brasileira, mas, machucado em ambas as Copas, pouco conseguiu contribuir. Pelo Santos, foi decisivo no jogo mais importante do bicampeonato. “Foi uma massagem incrível no ego. Ser bicampeão mundial dentro de campo, produzindo. Melhor que ficar na torcida, como na Suécia e no Chile, de paletó e gravata. Embora tenha jogado 40 vezes pela Seleção Brasileira e marcado 22 gols, nas principais conquistas tive essas lesões que me encheram muito a paciência. A revanche foi em cima do Milan, jogando pelo Santos”, comemora.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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