Encarar o River Plate nas semifinais da Libertadores oferece um desafio duríssimo ao Palmeiras. Ainda assim, o confronto garante uma lembrança saborosa da competição continental ao torcedor alviverde. Afinal, os millonarios estavam do outro lado numa das maiores façanhas palmeirenses além das fronteiras. E passar pelo timaço argentino na semifinal foi um dos ápices na campanha que culminou na glória palestrina em 1999. Aquele duelo serviu para santificar um pouco mais a figura de Marcos, colecionando milagres no Monumental de Núñez. De qualquer maneira, o grande nome na equipe de Luiz Felipe Scolari foi Alex, imparável para determinar a vitória dentro do Parque Antárctica.

Aquele time do Palmeiras dispensa apresentações. É provavelmente a escalação mais decorada pelos torcedores. Talvez a Parmalat tenha montado constelações até maiores durante a década de 1990. No entanto, nenhuma equipe foi tão competitiva na Libertadores quanto aquela dirigida por Felipão. Marcos fechava o gol. As laterais tinham enorme qualidade no apoio com Arce e Júnior. O miolo da zaga contava com a solidez de Júnior Baiano, Roque Júnior e Cléber. No meio, César Sampaio era a grande referência, com as companhias de nomes como Galeano e Rogério. Alex e Zinho garantiam a qualidade na armação. Já na frente, Paulo Nunes e Oséas se complementavam bem como dupla principal, tendo ainda as alternativas de Evair e Euller no banco.

O River Plate não ficava muito atrás em termos de qualidade técnica. Afinal, o time dirigido por Ramón Díaz havia conquistado a própria Libertadores em 1996 e seguiu dominando o Campeonato Argentino naquela virada de século – apesar dos pesadelos com os brasileiros no torneio continental. Em 1998, os millonarios possuíam nomes como Roberto Bonano, Eduardo Berizzo, Juan Pablo Sorín e Leonardo Astrada para garantir a proteção defensiva. Os craques, de qualquer maneira, se encontravam mais à frente. Marcelo Gallardo era o maestro naqueles tempos, quando também explodiam jovens talentos da categoria de Pablo Aimar, Javier Saviola e Juan Pablo Ángel. A parada seria duríssima aos palmeirenses, já vacinados naquela caminhada.

O Palmeiras atravessou um dos mata-matas mais difíceis da Libertadores naquela edição de 1999. Depois da classificação na fase de grupos, começou despachando o Vasco, campeão no ano anterior e que ainda contava com uma equipe bem forte. Mas nada que se comparasse às lendárias quartas de final diante do Corinthians, com dois jogaços entre os esquadrões rivais. Uma vitória para cada lado acabou provocando a decisão nos pênaltis e São Marcos conduziu os alviverdes às semifinais. O River Plate vinha menos badalado. Passou em terceiro na fase de grupos, em chave que contava com o futuro vice-campeão Deportivo Cali. Superou a ascendente LDU Quito nas oitavas, antes de um duelo doméstico contra o Vélez Sarsfield nas quartas. A vitória por 2 a 0 no Monumental (com ajuda da arbitragem) abriu o caminho, apesar da derrota por 1 a 0 no José Amalfitani.

A primeira partida daquela semifinal aconteceu no Monumental de Núñez. O Palmeiras não contaria com o lateral Júnior, suspenso. Enquanto isso, Felipão montaria uma equipe diferente para encarar o desafio. Rogério reforçaria o meio-campo, ao lado de César Sampaio, Galeano e Zinho. Antes da partida, esperava-se que Alex fosse sacado, mas o técnico preferiu uma formação mais leve sem Oséas. Assim, os alviverdes contariam com Alex se aproximando de Paulo Nunes na frente. “A decisão é lá. É o jogo que pode mudar toda a situação e as características das equipes para a segunda partida”, declararia Scolari, antes do duelo, segundo a Folha de S. Paulo.

O técnico ainda enfatizava como o Palmeiras deveria ficar de olho na forma como o árbitro paraguaio Ubaldo Aquino deixaria a partida correr. “Temos que jogar dentro do critério dos árbitros da Conmebol. Estou preparando o meu time para esse estilo. Eles permitem mais o contato corpo a corpo e não marcam falta por qualquer coisa”, comentou o gaúcho. “Ninguém imagina o que é jogar num Monumental de Núñez lotado. A torcida deles é mais fanática do que a do Corinthians”.

Felipão também apontava como o Palmeiras não deveria entrar nas provocações dos argentinos. Sua tática? A cordialidade. “Queremos mostrar para os argentinos que temos uma educação tão boa quanto a deles. Não pensamos em bronca nem revide, vamos lá para jogar bola. Não queremos problema e faremos de tudo para que eles sejam muito bem recebidos aqui”, assinalou o técnico. O Palmeiras viajou com 12 seguranças para evitar qualquer conflito fora do campo. Além do elenco e da comissão técnica, o clube contaria com mais 140 pessoas na delegação, incluindo dirigentes e convidados.

Zinho disputa no alto com Marcelo Escudero (DANIEL LUNA/AFP via Getty Images/One Football)

O River Plate, por outro lado, se preparava especialmente à força do Palmeiras no jogo aéreo. Ramón Díaz realizou um treino tático especial antes do duelo, para acertar o posicionamento de sua defesa em lances do tipo. “O Palmeiras é uma equipe madura, que sabe manejar bem a bola. É preciso que nossa defesa acerte alguns detalhes nas jogadas de bola parada”, declarava o técnico. Ángel foi colocado entre os titulares especialmente por sua qualidade pelo alto. Além do mais, Díaz fazia sua aposta em Saviola, aos 17 anos e uma série de boas aparições recentes pelos millonarios.

Dentro do Monumental, o Palmeiras não lamentou apenas a derrota por 1 a 0, que deixava o River Plate com a vantagem do empate para o reencontro em São Paulo. Tão ruins quanto o resultado eram os desfalques defensivos, com a lesão de Clébão e a expulsão de Júnior Baiano. O estrago poderia ter sido maior, considerando as chances criadas pelos argentinos, mas uma nova noite inspirada de Marcos e uma pitada de sorte valeram a diferença mínima. Ainda assim, a classificação alviverde parecia ameaçada.

O primeiro tempo contaria com um grande abafa do River Plate. Os millonarios empilhavam chances e paravam em Marcos. O goleiro operou seu primeiro milagre logo aos cinco minutos, desviando de maneira incrível um chute de Saviola em seu contrapé. As oportunidades se acumulavam, com Gallardo batendo para fora com perigo. Quando conseguia responder, o Palmeiras dependia da velocidade nos contra-ataques e dos chutes de fora da área. Desta maneira, Paulo Nunes chegaria a carimbar a trave antes dos dez minutos. Mesmo assim, a pressão acontecia do outro lado.

Bonano até realizou boas defesas durante o primeiro tempo, quando Zinho e Galeano arriscaram de longe. Porém, o mais exigido era mesmo Marcos. O goleiro espalmou um chute de Gallardo à queima-roupa e, em sua maior defesa, buscou no ângulo uma bomba de Saviola que tinha endereço certo. Como se não bastasse, o camisa 12 ainda contou com a sorte em peixinho de Sorín que triscou no pé da trave. O placar zerado era lucro ao Palmeiras, que ainda precisou substituir Cléber por Roque Júnior logo aos 17 minutos, depois que o beque sofreu uma contusão muscular.

Ao final do primeiro tempo, o River Plate indicava certo descontrole, abusando das faltas duras. Entretanto, o intervalo fez bem à equipe de Ramón Díaz, que esfriou os ânimos e voltou à etapa complementar mais focada para buscar a vitória. O gol decisivo aconteceu aos três minutos. Gallardo recebeu livre na direita e cruzou. Foram duas bolas na trave em sequência, além de um chute bloqueado na pequena área pela defesa palestrina. A sobra continuou com os argentinos e Sergio Berti fuzilou nas redes. Apesar da vantagem, o River não mudou sua postura agressiva, com o Palmeiras limitado aos contra-ataques.

Júnior Baiano teve a melhor oportunidade para empatar. Na sequência de uma cobrança de escanteio, o zagueiro cabeceou com pouco ângulo e forçou uma defesa difícil de Bonano. Contudo, o River Plate tinha mais volume e poderia ter anotado o segundo. Marcos abafou uma bola nos pés de Saviola, antes de Galeano salvar uma cobrança de escanteio fechada na pequena área. Felipão até quis soltar mais o time, mas a entrada de Oséas na vaga de Galeano surtiu pouco efeito. A partir de uma bola perdida por Alex, Gallardo acertou o travessão de Marcos numa pancada do meio da rua. E o caminho se abriu de vez ao River aos 34, quando Júnior Baiano parou Cristian Castillo com um carrinho por trás na entrada da área e foi corretamente expulso.

Rivarola entrou no lugar de Alex para arrumar a defesa e Saviola terminaria de consagrar Marcos na sequência, em chute de frente para o gol que exigiu mais uma defesa do goleiro, com a ponta dos dedos. Todavia, o River Plate não conseguiu aproveitar a vantagem numérica e também terminou a partida com dez homens, diante da expulsão de Astrada aos 45 – recebendo o segundo amarelo por toque de mão. Mas, diante da superioridade dos anfitriões, o placar até parecia magro ao time de Ramón Díaz.

Apesar da derrota, Scolari destacava a mentalidade do Palmeiras naquele momento: “Vejo hoje nos jogadores o espírito que busco desde que cheguei. É o momento mais bonito que vivo nesses dois anos. É o mesmo espírito que eu tinha no Grêmio. Tenho cobrado um sentido de profissionalismo e doação, e eles estão dando isso e muito mais. Quero que saibam que o comandante acredita neles piamente. Se não ganharmos nada, a culpa será minha ou do planejamento. O mérito deles continua. Se morrermos, vamos morrer abraçados”.

E era fundamental que o Palmeiras se mantivesse centrado, diante da semana decisiva. Antes do reencontro com o River Plate no Parque Antárctica, os alviverdes disputaram dois jogos. Primeiro, encararam o Flamengo nas quartas de final da Copa do Brasil. Os rubro-negros haviam vencido a ida por 2 a 1 e chegaram a ficar duas vezes em vantagem no segundo embate, dentro do Parque Antárctica. Então, aconteceu uma das viradas mais emblemáticas da história da competição: Euller saiu do banco e provocou o pavor nos cariocas, balançando as redes duas vezes para garantir a vitória palestrina por 4 a 2 – consumada aos 43 do segundo tempo. Menos de 48 horas depois, o Palmeiras ainda venceu a Matonense em partida importante do Paulistão. E com mais três dias, ocorreu o segundo jogo diante do River.

Para o duelo no Parque Antárctica, o Palmeiras contou com a volta de Oséas ao ataque. Galeano perdeu o lugar no meio-campo. O desafio de Felipão, ainda assim, era montar sua defesa sem Cléber e Júnior Baiano. Roque Júnior e Agnaldo Liz compuseram a nova dupla de zaga, com a manutenção de Rubens Júnior na lateral esquerda, diante da suspensão de Júnior. Já no River Plate, o maior lamento estava na lesão de Saviola. Ramón Díaz optou por alinhar sua equipe com três zagueiros, protegendo mais a defesa e bloqueando as subidas dos laterais adversários. O embate entre Sorín e Arce era um dos que mais chamavam atenção.

Um desafio para o Palmeiras era segurar a empolgação, depois do milagre contra o Flamengo na Copa do Brasil. Porém, também haveria um jogo de nervos contra o River Plate, considerando a vantagem dos visitantes. “Eles precisam do empate e vão tentar nos segurar no grito. Lá em Buenos Aires já pisaram no meu joelho e me chamaram de macaco. Mas nós somos experientes e não vamos deixar isso influenciar nossos nervos”, contava César Sampaio, à Folha. Já Paulo Nunes reforçava um tom belicoso: “Temos que mostrar a eles que aqui tem homem. Se derem cotovelada, soco, vamos responder do mesmo jeito”.

Do lado do River Plate, a promessa era de uma postura combativa, mas sem necessariamente se fechar na retranca. “Vamos jogar com muita garra para superar a ausência de Saviola e Astrada. Temos a vantagem do empate e vamos tentar aproveitá-la. É claro que temos um esquema mais cauteloso, mas isso não quer dizer que não podemos atacar também”, apontava Ramón Díaz, ao Estado de S. Paulo.

Saviola é travado por Rubens Júnior (DANIEL LUNA/AFP via Getty Images/One Football)

Até se cogitou que o jogo acabasse realizado no Morumbi, para comportar uma parcela maior da torcida do Palmeiras. No fim das contas, o clube preferiu jogar mesmo em sua histórica casa, o Parque Antárctica. E os 32 mil lugares nas arquibancadas estavam abarrotados, com um clima único para empurrar os alviverdes dentro de campo. A missão se cumpriu com êxito, com a inapelável vitória por 3 a 0. Alex viveu uma das maiores noites de sua carreira.

A tentativa do River Plate em conter os laterais do Palmeiras não deu muito certo. Tanto é que, logo aos nove minutos, Arce cruzou para Oséas emendar uma cabeçada na trave. Os maiores espaços surgiam diante dos zagueiros, sem a devida proteção dos cabeças de área. E foi assim que a pressão palmeirense logo rendeu o primeiro gol. Zinho já tinha dado um aviso, batendo ao lado da trave de Bonano. Seria dele a assistência para o tento, marcado aos 17: num lançamento perfeito do veterano, a bola morreu no peito de Alex, na entrada da área. O meia cortou para a esquerda, se livrou de Berizzo e virou o corpo para acertar um chutaço de canhota, que saiu do alcance de Bonano.

O placar agregado estava igualado com aquele gol. E o Palmeiras nem esperou muito para tranquilizar a situação, ampliando a vantagem aos 19. Numa falta cobrada por Rogério, a bola passou por todo mundo, mas Oséas aproveitou a sobra pela esquerda. O centroavante virou ponta e descolou o cruzamento preciso, na cabeça de Roque Júnior, que acertou o canto de Bonano. Naquele momento, um gol do River forçaria os pênaltis. No entanto, os palestrinos seguiram com o domínio no restante do primeiro tempo. A única chance dos argentinos ficou restrita a uma cobrança de falta que Marcos soltou e Agnaldo afastou. Muito mais clara foi a oportunidade de Paulo Nunes, infernizando a defesa, antes de mandar por cima do travessão.

O segundo tempo ficou mais aberto, especialmente depois que Ramón Díaz tirou um de seus zagueiros e colocou Juan Antonio Pizzi para reforçar o ataque. O River Plate avançava mais, mas ainda via suas melhores oportunidades ficarem restritas a cobranças de falta. Gallardo travou um duelo particular com Marcos e o goleiro defendeu duas boas batidas do meia. Do outro lado, o Palmeiras respondeu com uma cabeçada na trave de Paulo Nunes, além de uma arrancada de Oséas que Bonano se antecipou. O jogo permanecia aberto e Marcos voltou a aparecer num míssil de Sorín no alto. Foi quando Felipão recuperou o controle, após as entradas de Galeano e Euller nos lugares de Rogério e Oséas.

Mais inteiro, o Palmeiras passou a criar um caminhão de chances na base da velocidade. Alex carimbou Bonano aos 35 e Euller acertou a trave logo depois. O ‘Filho do Vento’ causava um furdúncio na zaga argentina, assim como tinha feito diante do Flamengo. E o gol que confirmou a classificação aconteceu aos 43. Paulo Nunes arrancou pela esquerda e cruzou ao segundo pau. Com espaço, Alex dominou e bateu de chapa, tirando do alcance de Bonano. A superioridade dos palmeirenses ficava expressa no placar. O clube voltava à decisão da Libertadores depois de 31 anos e tentaria o título inédito contra o Deportivo Cali.

Alex saiu ovacionado do Parque Antárctica. Vaiado em jogos anteriores e criticado por sua postura “apática”, o camisa 10 deu a resposta em grande estilo. E não pretendia se vingar com a atuação de gala, na qual poderia ter saído uma goleada: “Não fui eu quem deu a classificação. Foram os torcedores e a equipe, que soube se fechar. Tivemos muitas chances e fomos preciosistas”. Marcos, por sua vez, vislumbrava a taça: “Do jeito que o Palmeiras está chegando, com essa determinação, vamos alcançar o título”. Palavras premonitórias.

A conquista da Libertadores veio nos pênaltis, dentro do Parque Antárctica, com um sofrimento até maior que o esperado contra o Deportivo Cali. E aquelas batalhas contra o River Plate acabaram mais eternizadas na história do Palmeiras. Depois disso, foram mais quatro partidas oficiais entre os clubes, pela fase de grupos da Copa Mercosul em 1999 e 2001. Os palmeirenses chegaram a aplicar outro 3 a 0, enquanto aconteceram ainda dois movimentados empates por 3 a 3. As novas ocasiões, entretanto, não tinham o peso de uma semifinal de Libertadores. É isso que os alviverdes esperam reviver nesta terça, evocando o espírito e os craques de 21 anos atrás.