Voltar da Bombonera com o empate por 0 a 0 parece um bom negócio, considerando a mística do Boca Juniors em sua casa e o histórico favorável contra os brasileiros no estádio. Ainda assim, ao final dos 90 minutos em Buenos Aires, o Santos mostrou condições de sair com um resultado ainda melhor nas semifinais da Libertadores. Numa partida truncada, sem tantos lances de perigo, o Peixe manteve a segurança durante a maior parte do tempo e pareceu capaz de causar problemas ao Boca com sua velocidade. Faltou apenas um pouco mais de acerto nos arredores da área, ainda que os santistas tenham motivos para reclamar da arbitragem. Um pênalti sobre Marinho revertido pelo VAR, sem que o lance fosse realmente conferido no monitor pelo árbitro de campo, dá razão para os alvinegros se sentirem prejudicados.

O Santos tinha novidades em sua escalação. Apesar das ótimas atuações de Sandry contra o Grêmio, o meio-campista deixou a equipe para a entrada de Soteldo, dando mais velocidade nos contragolpes. Além disso, Pará também era um retorno importante à lateral alvinegra. No Boca Juniors, a formação que deu certo contra o Racing se repetia. Franco Soldano ficava mais à frente, com Carlos Tevez recuado na armação, além de Sebastián Villa e Eduardo Salvio abertos pelas pontas.

O primeiro tempo na Bombonera seria bastante equilibrado. O Boca Juniors começou com um pouco mais de iniciativa e chegaria a acertar uma bola no travessão, com Villa, em lance que acabaria anulado por impedimento. O colombiano era quem mais aparecia entre os xeneizes, dando trabalho a Pará e Lucas Veríssimo pelo lado esquerdo. Com o passar dos minutos, o Santos passou a encontrar mais espaços para atacar em velocidade. A entrada de Soteldo fazia sentido, especialmente pela maneira como o venezuelano tentava expor os marcadores com suas arrancadas pela esquerda. A primeira finalização certa do Peixe viria aos 23, com Pituca testando Esteban Andrada no meio do gol.

Não foi um primeiro tempo muito vistoso, com poucas chances de gol e as defesas prevalecendo na maior parte das vezes, mesmo quando pareciam mais vulneráveis. A estratégia do Santos era interessante, dependendo apenas de um bom ataque para fazer estrago. Apesar das boas ações de Soteldo, faltava construir um pouco melhor as jogadas, sem tanta colaboração dos companheiros de frente. Era uma postura relativamente agressiva do Peixe, que ficava até com mais a posse de bola na Bombonera. Além disso, os santistas marcavam bem, sem dar espaço a Tevez na cabeça de área. O Boca dependia de Villa, que mudaria de lado, incomodando depois pela direita. Pouco antes do intervalo, Marinho tentaria surpreender Andrada, mas o goleiro pegou em dois tempos.

Na volta ao segundo tempo, o Boca Juniors apresentou outra postura. Os xeneizes se adiantaram em campo e empurraram o Santos para trás. Salvio começou a aparecer e exigiu uma boa defesa de John logo no primeiro minuto, em chute forte. Os argentinos dominavam as ações e, quando o Peixe tentou responder, o bom lance de Felipe Jonathan foi anulado por um toque de mão. Os alvinegros só voltaram a equilibrar as ações aos 11 minutos, quando Cuca decidiu garantir mais força ao meio-campo com a entrada de Sandry. Soteldo deu lugar ao garoto, numa escolha que não parecia tão lógica, diante do primeiro tempo do venezuelano.

O Santos melhorou com a mudança e o próprio Sandry tentaria se aproximar mais do ataque para arriscar. Marinho e Kaio Jorge também insistiriam, numa sequência de arremates dos alvinegros. O Boca tentaria mais uma resposta com a entrada de Edwin Cardona, mas o colombiano não surtiu a capacidade ofensiva imaginada por Miguel Ángel Russo. Os xeneizes permaneciam com dificuldades na criação e não davam muito trabalho a John. Quando Tevez encontrou um pouco mais de espaço para finalizar, mandou para fora.

O lance capital aconteceu aos 29 minutos. Numa boa arrancada pela direita, Marinho aproveitou o erro da marcação e ia passando à linha de fundo quando foi derrubado por Carlos Izquierdoz. O árbitro Roberto Tobar até apontou a marca da cal, mas voltou atrás após a orientação da cabine do VAR. Causou muita estranheza a mudança, até porque o juiz de campo não conferiu o lance no monitor – e o contato do defensor era mesmo suficiente à marcação do penal. Sem a penalidade, o Peixe precisaria manter sua postura, sem se descuidar.

O final da partida seria mais arrastado. O Boca até realizou novas trocas, tentando aumentar a força nas laterais e acionando Ramón Ábila. De novo, prevalecia o bom trabalho defensivo do Santos, travando muito bem os xeneizes na cabeça de área. Porém, talvez sentindo um pouco mais o cansaço, os alvinegros não construíam muito no ataque. Faltavam mais combinações na frente e sobrava certa afobação, sem que Andrada tivesse que trabalhar mais. Os santistas pareciam satisfeitos com o resultado, mesmo que as circunstâncias pudessem render uma vitória. Somente nos acréscimos o Boca faria os adversários prenderem a respiração, mas Leonardo Jara não aproveitou a chance na área e bateu por cima do gol.

O Santos mostrou condições para vencer o Boca Juniors dentro da Bombonera e leva esse favoritismo à Vila Belmiro. O Peixe teve uma estratégia mais clara e funcionou melhor coletivamente. Faltou aproveitar um pouco melhor seus contra-ataques, mesmo que o lamento fique pelo pênalti negligenciado. Os xeneizes podem ter uma história respeitável na Libertadores, mas oscilam demais nesta edição e se mostram dependentes de lampejos individuais. Time por time, os santistas parecem estar um passo à frente, mesmo com o empate.