Libertadores

O que fica da Libertadores 2017 ao Botafogo e ao torcedor alvinegro

Natural que o botafoguense tenha demorado um pouco mais para dormir nesta noite. Pensava no sonho (este, acordado, como poucas vezes se viveu nas últimas décadas) que não se concretizou. Na grande partida que o Botafogo fez contra o Grêmio, mas ainda assim não valeu a classificação. Na bola na trave de Bruno Silva, nas boas defesas de Marcelo Grohe e até na falta boba que resultou no gol de Lucas Barrios. Mas, quando enfim encostou no travesseiro, a cabeça não pesava. A consciência ainda era leve. E, frustrações à parte pela queda nas quartas de final da Copa Libertadores, o orgulho de ser botafoguense se mantinha. Nesta quinta, pensamento mais solto, já era hora de olhar para trás e também pensar no futuro.

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Quando Lamartine Babo escreveu o hino do Botafogo, certamente não imaginou que uma de suas estrofes poderia se casar tão bem com um momento do clube. Como destacou a capa do jornal Extra, o “foste herói em cada jogo” ecoa na mente de quem acompanhou a epopeia do time de Jair Ventura. Um heroísmo que se repetiu desde as preliminares, fase após fase. Derrubou Olimpia e Colo-Colo, em jogos nos quais muitos desconfiavam do potencial alvinegro. Superou também uma duríssima fase de grupos contra Barcelona de Guayaquil, Atlético Nacional e Estudiantes. Não deu margem ao erro contra o Nacional de Montevidéu. Por fim, apesar da eliminação, o time caiu em pé diante do Grêmio. Lutou e teve chances reais de classificação. Parou nos detalhes, como às vezes acontece.

Jair Ventura sempre será citado como o protagonista do Botafogo nesta campanha. Foi o treinador que chegou em um momento de perspectivas ruins, como uma aposta de risco da diretoria, e transformou o clima do clube. Elevou o moral de um elenco sem estrelas e o levou para a Libertadores. Mais do que isso, arrancou o melhor possível ao longo de quase todos os 14 jogos disputados. Não é o treinador perfeito. Ainda tem a evoluir. Entretanto, a maneira como soube extrair o máximo de um grupo consciente de suas limitações é emblemática. Ao longo da campanha continental, os botafoguenses jogaram com as suas armas. E isso não significou, necessariamente, se acuar sempre. A derrota para o Grêmio, independentemente do placar, conta uma história diferente. Faltou só um pouco mais de qualidade para aproveitar a postura ofensiva.

Para que o Botafogo continue rendendo frutos, a manutenção de Jair Ventura é o passo fundamental. Talvez não seja missão tão simples, considerando a valorização do treinador no mercado, candidato a receber polpudas propostas salariais de outros times. De qualquer maneira, o espírito que se imprimiu na equipe alvinegra vem muito da forma como o jovem comandante concebe o futebol. O coletivismo que impulsionou os botafoguenses são méritos dos conceitos e do trabalho intenso de Jair. Um dos desafios enormes em qualquer clube que depende de tamanha superação é justamente a manutenção desta garra. Seguir com a mesma gana além da campanha. Com o técnico, a impressão que fica é a de que essa energia tende a continuar irradiando. De que o caminho pode ser mais curto para a sequência dos desafios.

Logicamente, o Botafogo não pode ignorar as suas carências. É preciso pensar que, de certa forma, o elenco se enfraqueceu ao longo do ano. Grande contratação da temporada, Walter Montillo deixou o grupo por questões completamente acima de si, que fugiram de seu controle. A torcida botafoguense não deixou de apoiá-lo. Além disso, os alvinegros abriram mão de dois de seus principais talentos individuais, até por motivações mais extracampo. Será que Camilo ou Sassá poderiam fazer a diferença no segundo tempo contra o Grêmio? Talvez. Será que o Botafogo teria chegado tão longe com os dois no time? As dúvidas são um pouco maiores. Clube, jogadores e torcedores se fecharam ao redor de um projeto. Isso, de fato, teve muito mais preponderância para que a história fosse contada por tanto tempo.

Há aqueles jogadores que claramente formam uma espinha dorsal no Botafogo e deveriam ser mantidos pela diretoria, especialmente por aquilo que representam à filosofia do time – Gatito Fernández, Joel Carli, Bruno Silva, Rodrigo Pimpão. Há outras peças importantes, mas o conjunto prepondera. Os alvinegros precisam de mais individualidades, jogadores que chamem a responsabilidade e acrescentem em momentos de aperto. Neste sentido, o que a equipe de Jair Ventura demonstrou na Libertadores também ajuda no mercado de transferências. Pode ser um chamariz a atrair novos atletas, que preencham algumas lacunas. Até por suas dificuldades financeiras, o clube talvez não consiga competir tanto no mercado, por isso esse ambiente serve de diferencial. Além disso, deveria seguir em frente com sua política de apostar em jovens talentos, como Jair Ventura fez bem nos últimos meses.

Passada a febre de Libertadores, o cenário no Campeonato Brasileiro continua aberto. O time é um sério candidato ao G-6, até pela boa sequência de resultados ao longo do último mês, com quatro vitórias em cinco jogos – e algumas delas contra adversários diretos pela parte de cima da tabela. A dedicação será total aos últimos 14 compromissos na competição. O caminho se alongará por mais alguns meses. Mas a equipe pode manter o ritmo, demonstrando sua união e sua motivação. Até pela maneira como a eliminação para o Grêmio aconteceu, os alvinegros seguirão com a cabeça erguida, sonhando retornar à Libertadores em breve.

Por fim, é impossível analisar a campanha do Botafogo sem destacar a importância que ela teve à própria identidade alvinegra. Os botafoguenses vinham de anos nos quais, salvo exceções, tinham a sua dignidade desprezada. E quando criavam esperanças, quase sempre, voltava à tona aquela máxima de que “há coisas que só acontecem com o Botafogo”. Mas não dessa vez. Não com esse time, que foi digno durante todo o tempo, mesmo sem atrair os holofotes. Que fez da entrega a sua força e, assim, chegou tão longe na Libertadores – uma competição que não costuma premiar os melhores times, e sim aqueles que sabem jogá-la. Os alvinegros souberam, dentro e fora de campo. Basta ver o que se repetiu ao longo de cada um dos sete jogos no Estádio Nilton Santos. O retorno para a casa, ainda mais simbolizando o clube, também surge como trunfo para o futuro.

A maioria absoluta dos torcedores botafoguenses carregará com carinho a Libertadores 2017. Para aqueles com menos de 25 anos, então, ela representa o momento de reconhecimento que nunca viveram em tais proporções. E o grande legado do time de Jair Ventura é este: resgatar um pouco da grandeza alvinegra, tão surrada por times acomodados como coadjuvantes ou que refugavam quando mais se criava expectativas. A torcida chegou a sonhar com a taça, claro, mas não pode reclamar que faltou fome à equipe. As vitórias sobre Olimpia, Colo-Colo, Atlético Nacional, Estudiantes e Nacional serão recontadas por muito tempo. Os fiéis à Estrela Solitária só esperam que este seja apenas o início de uma história mais longa, e não o capítulo solto daquilo que nos últimos tempos só vinham experimentando na memória.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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