Libertadores

O que deu certo e o que não deu certo nas finais da Conmebol em Montevidéu

Finais sul-americanas ignoraram aspectos fundamentais, sobretudo relacionados ao público

* Direto de Montevidéu

Se a Conmebol fosse um time disputando as finais da Sul-Americana, Libertadores Feminina e Masculina, certamente a instituição não conquistaria nenhum caneco. A organização dos eventos pecou em diferentes pontos. Os preços absurdos serviram para gerar mais dinheiro à confederação continental, mas prejudicaram o público presente (com os visíveis vazios nas arquibancadas) e não consideraram o próprio contexto de pandemia, que exigia outros gastos. Além disso, falhas de informação e de planejamento também foram constantes por parte da entidade, mesmo que a infraestrutura uruguaia garantisse aspectos positivos.

As três finais realizadas no Uruguai, na capital Montevidéu, serviram como um possível termômetro para compreender a capacidade do país em receber eventos de maior escalão – como, no caso, uma eventual Copa do Mundo em 2030, ano que marca o centenário da realização do primeiro Mundial. Montevidéu foi escolhida por conta da situação sanitária no país relacionada à pandemia. O Uruguai apresentou uma alta porcentagem de vacinação da população até o mês de julho e isso contribuiu para colocar o país entre os mais seguros da América do Sul, e assim receber as finais planejadas pela Conmebol. Antes disso, também pesou a própria maneira como o governo uruguaio ajudou a disponibilizar vacinas para a Conmebol realizar a Copa América.

Para destacar o que deu certo e o que não deu certo nas finais únicas, iremos abordar cada competição em sua individualidade e também tratar de outras questões relacionadas às três decisões como um todo, com a visão de dois jornalistas que acompanharam os eventos de formas diferentes: um, à beira do campo, vivendo as partidas e seus desdobramentos; outro, na parte externa dos estádios, acompanhando o clima e a repercussão pós-jogo.

Copa Sul-Americana

A visão do campo (Foto: Giancarlo Santorum / Trivela)

Com um público de aproximadamente seis mil pessoas, a final da Copa Sul-Americana não atingiu as expectativas. Na verdade, deixou bem claro que o evento não foi planejado para o público-torcedor, mas sim para o plano comercial da Conmebol. Se olharmos apenas dessa forma, ainda podemos dizer que a final não correspondeu nem às expectativas econômicas da confederação, dado o fracasso de público e o modo como a situação repercutiu no continente.

Neste jogo único, foi possível ver nitidamente o erro crasso que foi a imitação de um espetáculo europeu, protagonizado pela  Conmebol. Não há como equiparar Europa e América do Sul, tanto na infraestrutura, quanto na economia. Além, obviamente, de uma cultura completamente diferente, principalmente no assunto futebol. Mas o business da entidade, em algum momento, acreditou que isso fosse possível.

No pré-jogo, ao chegar nos arredores do estádio, foi possível ver um isolamento gigantesco em volta do Parque Batlle, praça que rodeia boa parte do Centenário. Como se esperasse 60 mil torcedores ou mais, o protocolo de segurança vigente para o confronto foi completamente desnecessário. Não bastasse, ainda houve muita reclamação sobre a desorganização e falta de informação nos pontos de troca de ingresso, principalmente por parte da torcida athleticana.

Aos poucos, os torcedores do Athletico Paranaense e do Red Bull Bragantino foram chegando. Via-se uma movimentação, mas nada tão grande. Minutos antes da bola rolar, a Conmebol realocou os torcedores que tinham ingressos para ficar atrás das traves, colocando-os na tribuna olímpica, frente às câmeras de transmissão, para que ludibriasse quem conseguiu assistir de casa, dando a falsa ideia de estádio cheio. Enfatizamos o termo ‘conseguiu’ assistir, já que a transmissão da partida era exclusiva da Conmebol TV, canal pago que tem parco acesso no Brasil.  Novamente, outra decisão totalmente comercial de quem organiza o esporte e que não necessariamente ajudou o torneio.

As imagens aéreas mostravam o lendário Centenário com espaços completamente vazios, provando que o evento não vingou. Em meio à crise financeira e sanitária, a Conmebol insistiu na ideia de jogo único, imitando o estilo europeu, com ingressos custando meio salário mínimo ou mais. Ainda havia custos de deslocamento, alimentação, hospedagem e RT-PCR. Ou seja, quem veio a Montevidéu quebrou o cofrinho. O tamanho do equívoco se tornou visível. E tais custos se tornariam até maiores para a Libertadores, o que também atrapalhou a ida de muita gente, embora sem tanto impacto na falta de público.

Libertadores Feminina

Imagens do Corinthians campeão da Libertadores (Giancarlo Santorum/Trivela)

Diferentemente da Sul-Americana, a Libertadores Feminina atingiu um resultado interessante para o tamanho que o evento foi pensado. Os ingressos para a partida entre Independiente Santa Fe e Corinthians foram disponibilizados às escolinhas de futebol de Montevidéu e região. Na Embaixada do Torcedor, uma das atividades culturais também poderia premiar com ingressos à final.

Por conta disso, o público presente no Gran Parque Central, foi em sua maioria, de meninas e meninos que jogam futebol em escolinhas espalhadas pelo Uruguai. A iniciativa de distribuir os ingressos de uma final de Libertadores incentiva a nova geração a conhecer e consumir o futebol feminino, e também possibilita o crescimento da modalidade entre meninas e mulheres dentro e fora de campo. Muitos pares de pequenos olhinhos marejados assistiram à partida. De perto, meninas puderam acompanhar suas ídolas e sonhar, ainda mais, com uma carreira no futebol feminino. 

Libertadores Masculina

(Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

O último e mais aguardado confronto realizado pela Conmebol apresentou o que era de se esperar de um jogo valendo a Libertadores. A grandeza das duas equipes finalistas e de suas torcidas proporcionou um espetáculo digno de final continental. Porém, a torcida alviverde não esgotou seus ingressos e existiam também espaços vazios no setor central do estádio. Ou seja, mais um reflexo do equívoco da Conmebol.

Preços absurdamente caros (200 dólares o setor mais barato, quase o salário-mínimo brasileiro) somados ao momento pandêmico (sanitário e financeiro) vivido no país tornaram-se claros empecilhos a muita gente que desejava acompanhar seu time. Desta vez, o isolamento de segurança foi utilizado corretamente e o número de policiamento era mais do que suficiente. 

Durante o jogo, as torcidas proporcionaram seus shows à parte. Principalmente o lado alviverde, que preparou faixas e balões. Pelo gol de Raphael Veiga ter saído cedo, o Flamengo passou grande parte do jogo atrás do placar, o que fez com que sua torcida murchasse em alguns momentos. Sem contar, claro, aqueles torcedores que não estão acostumados a cantar os 90 minutos, mas que tinham poder aquisitivo para ir a Montevidéu. Durante a festa palmeirense, houve falha de segurança e alguns torcedores conseguiram pular a tela e invadir a comemoração dos atletas. 

Menção honrosa: Embaixada do Torcedor

Pia Sundhage, em evento da Conmebol (Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

O espaço criado pela Conmebol para o torcedor apresentou diferentes aspectos em relação às finais como um todo. Durante a programação, foram cinco dias em que os torcedores presentes na capital uruguaia puderam se divertir com jogos interativos e shows, assistir a duas partidas de ex-jogadores e jogadoras do futebol sul-americanos e também presenciar o Conmebol Talks, conversas com personalidades do esporte aberta ao público e realizadas no local.

Em relação à chamada “Embajada del Hincha”, algumas considerações precisam ser feitas: a final da Libertadores Feminina não teve, nem de longe, o mesmo apelo por parte da organização. Obviamente, a falta de presença de torcedores de Independiente Santa Fe e Corinthians no evento era algo esperado. Mas não oferecer aos torcedores de outras equipes, e que foram ao evento, as mesmas experiências de Athletico Paranaense e Red Bull Bragantino foi um equívoco. Elogios devem ser feitos às palestras do Conmebol Talks, principalmente a de Pia Sundhage, técnica da seleção brasileira feminina. 

Organização Geral 

As finais da Conmebol tiveram fatores determinantes para comprovar o descaso com o público: os shows e as cerimônias de premiação. O que deveriam ser momentos de alta expectativa e de lembrança eterna, foram transformados em algo privado. Apenas quem estava nas tribunas Vip´s ou quem assistia às transmissões conseguia ver a taça sendo erguida, bem como os shows de Barões da Pisadinha e Anitta. As estruturas dos palcos foram montadas de costas para a maior parte dos torcedores.  Principalmente na Sul-Americana e na Libertadores Feminina, onde havia apenas um setor com um elevado número de torcedores, pareceu que a Conmebol não usou nenhum neurônio ao tomar tal decisão. Tanto que, assim que finalizado o protocolo de premiação, as (os) atletas pegavam o troféu e levavam até a torcida, para que houvesse uma comemoração justa. 

Transporte público

No Uruguai, o transporte público funciona perfeitamente. Facilmente, é possível atravessar a capital pagando apenas 44 pesos uruguaios- algo próximo de 6 reais. Com uma boa frequência de horários e higienizados, os ônibus ligam todos os bairros de Montevidéu, o que facilita o deslocamento. Quem baixou o aplicativo “Como ir” teve um grande aliado, já que o app mostra, em tempo real, o trajeto dos ônibus e mostra qual linha pegar para determinado destino. Bola dentro da cidade.

O país-sede

Se a Conmebol deixou a desejar em alguns pontos, o povo uruguaio foi quem segurou as pontas em muitos momentos. Com uma receptividade sem igual, característica natural da população local, o Uruguai foi o lar de milhares de brasileiros nos últimos dias. Sua rica gastronomia, suas ruas boêmias e arborizadas e a sensação de segurança eram enriquecidas pelo sol ao fim de tarde. Quem andou pela “Rambla” ou quem preferiu desacelerar e respirar em um dos muitos parques uruguaios pôde desfrutar de uma cidade rica em natureza, educação e tranquilidade.

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Giancarlo Santorum

Giancarlo Santorum é jornalista e fotógrafo. Acostumado a cobrir jogos do futebol gaúcho, também escreve sobre o Borussia Dortmund no @loucospelobvboficial. Além disso, tem um carinho especial por sua coleção de camisas - algumas delas históricas. Acompanha in loco as finais continentais de 2021 em Montevidéu, através do apoio da KTO Brasil.

Talyssa Machado

Talyssa Machado é jornalista e também trabalha com edição de vídeo. Desde pequena, ama o futebol e tudo aquilo que proporciona ao povo. Coleciona camisas de equipes femininas e seleções africanas. Acompanha in loco as finais continentais de 2021 em Montevidéu, através do apoio da KTO Brasil.

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