Libertadores

A coletiva de Abel Ferreira foi uma aula de sensibilidade, humanidade e reflexões pertinentes

Abel Ferreira precisou de pouquíssimo tempo para provar como é um excelente treinador. A partir de sua chegada, ampliando o projeto de Vanderlei Luxemburgo e aproveitando a guinada que vinha desde o interino Andrey Lopes, o novo comandante do Palmeiras conseguiu moldar um time campeão. E o título da Libertadores, com meses no cargo, é o suficiente para garanti-lo na história do clube. Porém, o lusitano se mostra um ser humano ainda melhor que o técnico. Tal virtude se reafirmaria diversas vezes durante a coletiva de imprensa realizada no Maracanã.

Ao longo de meia hora de conversa, Abel Ferreira não quis puxar sardinha para o seu lado ou se concentrar nas obviedades muitas vezes expressas nesses momentos. O treinador preferiu valorizar o lado humano. Exaltou o trabalho ao redor do Palmeiras, citando seus antecessores e os demais funcionários do clube. Deu seus puxões de orelha, ao comentar a ciranda de treinadores no Brasil, as comparações com os comandantes estrangeiros ou mesmo a competitividade no país. Mas, muito mais importante, trouxe seu sentimento e sua sinceridade à mesa. O português chegou a chorar, quando comentou os sacrifícios em sua vinda a São Paulo, deixando a família em busca de seu objetivo profissional.

Sem mais delongas, quem precisa mesmo ser ouvido (ou, neste caso, lido) é Abel Ferreira. Abaixo, transcrevemos boa parte da coletiva do treinador palmeirense. Para facilitar a leitura, as respostas foram divididas e separadas conforme os tópicos – porque, em seus pensamentos, o comandante alviverde não se limitou a responder apenas as perguntas feitas. Até por isso, foi um papo com o peito aberto,

O agradecimento a todos

“Sinceramente, a palavra que mais passa pela minha cabeça é obrigado. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a todos no clube e, de forma muito especial e carinhosa, aos jogadores do Palmeiras. Não há bons treinadores sem bons jogadores, sem bons nomes. Essa caminhada quem começou foi o Mister Vanderlei Luxemburgo e ele também tem trabalho feito nessa competição. Quando eu assumo a equipe, o Palmeiras estava em todas as competições. Há um trabalho também feito por ele, não é só meu. Também agradecer à estrutura do Palmeiras, que me contratou”.

A ótima relação no Palmeiras

“É verdade que eu não tinha títulos no futebol profissional, mas há coisas que falam mais do que títulos. Pra mim, hoje, a minha maior alegria não foi levantar a taça. A minha maior alegria foi ver os meus jogadores felizes. Foi ver toda a gente que trabalha na Academia feliz. Perceber que todos eles vão receber um salário extra. Perceber que todos eles, quando saímos do CT, nos apoiaram. Antes de sairmos do CT, já tinham feito uma pequena homenagem à comissão técnica – vindo dessas pessoas que estão na base, que são absolutamente extraordinárias”.

Como o grupo abraçou a filosofia

“Eu, juntamente com minha equipe técnica, com meus jogadores, quando chegamos sabíamos que tinha muita matéria-prima aqui. Mais que matéria prima, tinha aqui homens, e isso pra mim é importante, porque sem homens não se ganha títulos. Acima de tudo, foi indicar a eles um caminho, dizer a eles o que eu acreditava, porque não posso vender uma ideia que não acredito. E, de uma forma muito humilde, muito simples, eles foram agarrar a ideia, foram construindo uma forma coletiva de jogar”.

Os méritos de Luxa

“Foi o Luxemburgo que começou esse trabalho. Quando ele saiu e me entregou o time, deixou em todas as competições. Não escondo o jogo, a verdade é essa. Depois tivemos que fazer um trabalho, acreditar nos jogadores, potencializar outros jogadores. Porém, quem começou o trabalho foi ele. E esta é a realidade. Quem fechou fomos nós, fomos todos”.

Melhor treinador, pior pai

“No futebol, ninguém ganha sozinho. Os jogadores falam comigo, falam com os psicólogos, falam com os fisioterapeutas, falam com o presidente, falam com a senhora da cozinha. Quando eu cheguei, passei a viver na Academia, era a minha família. É verdade que sou melhor treinador e muito mais valorizado, mas sou o pior pai, sou o pior filho, sou o pior tio, sou o pior marido. Deixei minha família lá. Conquistei muito aqui, mas vocês não sabem a quantidade de vezes que, ao deitar no meu travesseiro, eu chorei sozinho de saudades”.

O que deixou para trás

“Vocês viram no final, eu não chorei pouco, eu chorei muito, e saí do campo pra ninguém ver o quanto eu estava chorando. É muito difícil, eu sou uma pessoa de família, adoro as minhas filhas e a minha esposa, e atravessei o Atlântico por acreditar numa coisa antes dela acontecer. Contra todas as previsões eu vou descobrir, vou me desafiar, vou para um clube que tenho a certeza que pode me proporcionar títulos. Sou melhor treinador? Sou. Sou muito melhor treinador do que era há três meses. Mas, como disse, sou pior filho, pior pai, pior marido, pior irmão, pior tio. Infelizmente, há sempre algo que temos que sacrificar em prol da nossa profissão”.

Lágrimas durante a coletiva

“É muita hora de estudo, é muita hora de trabalho. Mas, infelizmente, o que mais me custa é isso: para ser um bom treinador, dói, porque não é possível ter os dois mundos. Sou o pior pai, sou o pior tio, sou o pior marido, sou o pior irmão. É verdade que sou melhor treinador, mas perco isso tudo. E não há dinheiro nenhum que recupere. É por isso digo que choro no meu travesseiro… [pausa para as lágrimas] por não estar com as minhas filhas”.

A extensa preparação à final

“É verdade que hoje não foi uma final brilhante em termos de jogo, por vários motivos. O primeiro, o calor. O segundo, sabíamos que era jogo único. E sabíamos que a equipe que faria o primeiro gol seguramente sairia em vantagem. Mas aconteceu graças a muito trabalho, porque esses jogadores sabem o quanto nós nos preparamos para essa final. Abdicamos de vir aqui treinar, neste estádio, porque queríamos estar preparados. Fosse para os pênaltis, fosse para as bolas paradas, fosse para as substituições. As duas últimas substituições, eles já sabiam o que ia acontecer se estivéssemos em vantagem no jogo. Acima de tudo, gostaria de referir que é fruto de um trabalho de muita gente. E mais uma vez, agradecer de forma especial e carinhosa aos meus jogadores”.

Sobre o jogo

“Não posso deixar de dar uma palavra ao Santos, que também é uma grande equipe, tem um grande treinador, os jogadores deles também mereciam, fizeram um trabalho espetacular na Libertadores. O título é fruto da equipe que acreditou mais, da equipe mais organizada, num jogo difícil, duro, muito emocional, de muito calor. Aconteceu graças à competência do Breno. Gosto muito de apostar nos jogadores que vêm de baixo porque eu sei que eles vão dar a vida por uma oportunidade, eu sei que eles vão querer absorver tudo o que o treinador diz”.

A estrela de Breno Lopes

“É muito difícil trabalhar aqui, muito difícil. Mas, acima de tudo, tive a sorte de encontrar um grupo de homens. E isso foi o que mais me surpreendeu. Eu valorizo primeiro o homem, depois o jogador. Encontrei um grupo de homens, com muita personalidade, muito caráter. E como disse, fomos buscar esse menino [Breno Lopes]. O destino às vezes é incrível. Não podíamos gastar mais, fomos buscar alguém que pudesse ajudar. Saímos com esta boa peça, que foi abençoado hoje. Na hora certa, fez o que lhe cabia, marcar o gol e nos dar essa grande vitória”.

A comemoração e os próximos passos

“Não serão poucas as horas de comemoração, serão muitas. Eu primeiro tenho que agradecer ao Brasil, tenho que agradecer de forma muito especial ao Palmeiras e à família Palmeiras. Para toda regra há uma exceção. E vou permitir quebrar essa regra que eu disse antes, que só podem comemorar uma vitória durante 24 horas. Porém, ainda há muita coisa para trilhar. Subimos a montanha, estamos saboreando a paisagem, é bom sentir esta emoção. Mas temos que perceber que logo depois vamos ter que descer, porque há mais coisas para conquistar e não dá para estar lá, nos distraindo com a paisagem, que é fantástica”.

A glória eterna

“Também agradeço publicamente o presidente da república de Portugal, que me ligou. Para mim, é um orgulho tremendo receber uma chamada dele. Agradecer em nome da minha equipe técnica, como portugueses que somos. […] Não houve outra coisa que passasse na cabeça que não fosse levantar a taça. É uma emoção muito grande, e só o fato de ouvir o lema ‘glória eterna’ é inacreditável. Eu disse aos jogadores: aconteça o que acontecer, ou ficaremos na história ou seremos eternos. E, hoje, eu e toda a estrutura que trabalha comigo conseguimos a glória eterna, porque é algo muito poderoso”

A dedicatória a Gallardo

“Quando perguntaram o que eu disse para o Gallardo depois do jogo: eu disse a ele que íamos ganhar esta competição e que ia dedicar uma porcentagem dessa vitória a ele. Porque, se hoje eu sou melhor treinador, isso também se deve a ele. Gallardo me disse para vencer por ele também. Portanto, fica compartilhado com vocês. Eles [o River Plate] mereciam também, pelo jogo que fizeram aqui – não por lá, quando fomos muito melhores e poderíamos ter matado a eliminatória. Se eu sou melhor treinador, devo também ao Gallardo”.

Abel comemora a vitória com Weverton (Nelson Almeida – Pool/Getty Images/One Football)

Uma vitória de todos os seus ex-comandados

“A primeira coisa que me lembrei foi da minha família. A segunda foi do primeiro título que ganhei, com minha equipe de juniores no Sporting. Foi ali que começou tudo. E por isso digo que agradeço a todos os jogadores que treinei, a todos. E de forma muito especial a estes do Palmeiras. Mas não posso me esquecer dos jogadores dos juniores do Sporting, da equipe B do Sporting, da equipe B do Braga, dos jogadores da equipe A do Braga, onde fizemos um trabalho extraordinário. Por que não falar também do presidente do Braga? Foi alguém que me deu a oportunidade. Nunca na história do Braga um presidente apostou num treinador da formação, e apostou em alguém que não tinha feito nada na primeira divisão”.

A mudança do PAOK

“Tenho que falar também sobre o Mister Savvidis, que é o dono do PAOK, que pagou uma fortuna para eu ir para o clube sem um título e que me vendeu ao Palmeiras. Eu iria aceitar a decisão dele, mas pedi que me deixasse vir para um lugar onde o futebol é algo de apaixonados, que me desse essa oportunidade também. Sabia que aqui iam me dar condições que eu não tinha no PAOK. Agradeço também a essa boa vontade do presidente do PAOK, porque de fato aceitaram meu pedido”.

As comparações entre treinadores portugueses e brasileiros

“Eu sei que vocês gostam muito de comparar. Eu não gosto muito. Eu já disse que a grande diferença da escola portuguesa é que nós, treinadores, partilhamos conhecimento. Nós constantemente vamos a colóquios, posicionamos uns aos outros, procuramos encontrar soluções aos problemas. Essa é que é a diferença. Mas cada um faz seu caminho. Jorge Jesus conseguiu ter sucesso com uma forma de ser e de estar diferente da minha; com uma forma de jogar completamente diferente da minha; com uma equipe completamente diferente da minha”.

A adaptação ao Brasil

“Quando falamos em coração, estamos a falar em afeto, em amor de treinador. E os jogadores sabem, disse várias vezes, que a minha família aqui são eles. Cheguei ao Brasil sem conhecer ninguém. Tive que perceber muito bem como funcionava o clube, como funcionava a cultura do país e, sobretudo, como funcionava o futebol. Percebi que é um campeonato extremamente difícil. Percebi também que aqui, se o treinador não ganha dois ou três jogos, é mandado embora. Toda a gente corneta e não quer saber se é competente ou não”.

A força do Brasileirão

“É o único campeonato onde tem seis, sete claros candidatos ao título. Vamos a Portugal, tem poucos. Vamos à Alemanha, tem poucos. Vamos à França, é sempre o mesmo. Vamos à Inglaterra, tem um ou dois. Vamos à Espanha, são sempre os mesmos. Chegamos aqui, são quantos para conquistar o título? Quantos não investem? Só um pode ser vencedor, as pessoas precisam meter na cabeça. Se cada equipe tivesse um Klopp, só um era campeão. E todos iam embora”.

A rotatividade dos técnicos no Brasil

“Outra coisa que eu gostaria que vocês mudassem um bocadinho – e eu tenho que dizer isso, porque é o que eu sinto. Quando eu cheguei aqui, queriam mandar o Abel Braga embora, porque perdeu a Copa do Brasil e foi eliminado na Libertadores. Se tudo correr de forma natural, ele vai ser campeão – com grande trabalho, com grande mérito, porque é muito difícil de competir aqui, há muitas equipes que lutam pelo mesmo objetivo. Tem o Renato, que tem um trabalho espetacular no Grêmio. E vocês devem valorizar mais o que é vosso. Os portugueses também são um bocadinho assim, só se valoriza quando se vai embora. Vocês são bons em tudo o que fazem, vocês são uma potência mundial, têm um país com recursos naturais que não tem em mais lado nenhum. Quando vejo o próprio Diniz, vocês precisam ter um bocadinho mais de paciência”.

O papel dos dirigentes na continuidade

“Para se construir trabalhos como deve ser, é preciso tempo. Eu sei que todos nós queremos resultados de um dia para o outro, mas não é assim que funciona. Tem que ter paciência comigo, porque hoje sou eu que ganhei, mas amanhã, quando perder, vão me mandar embora. Essa é a lei da vida. Quem lidera isso são os dirigentes. Eles precisam ter a mesma coragem que os treinadores têm para enfrentar as coisas quando não estão bem, e seguirem firmes em seu trabalho. É a mesma coragem que os presidentes precisam ter. Dizer que ‘é neste treinador que eu acredito, é ele que vai até o fim’. É assim que se trabalha no futebol. Vocês aqui precisam valorizar mais seus treinadores, porque eles são muito competentes”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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