Libertadores

O grande duelo entre o São Paulo de Telê e o Palmeiras de Luxemburgo nas oitavas da Libertadores de 1994

Os adversários desta terça-feira se enfrentaram nos anos noventa em momentos diferentes: o Palmeiras impulsionado pela Parmalat, e o São Paulo em fim de ciclo

O Palmeiras conquistou dois títulos da Libertadores, mas nenhum quando mais se esperava que o fizesse nos últimos 30 anos. O esquadrão montado pela Parmalat para encerrar a fila bateu duas vezes na trave, em 1994 e 1995, antes de, já mais para o fim do projeto (mas ainda com um time abastado), finalmente levantar o troféu da “obsessão”. E na primeira dessas tentativas, esbarrou nas oitavas de final em um São Paulo que percorria a trajetória inversa, no canto do Cisne do timaço de Telê Santana bicampeão sul-americano.

O clube de Palestra Itália ficou 15 anos longe da Libertadores. Garantiu a vaga, em uma época na qual a participação era mais restrita, com o título brasileiro de 1993, ano em que encerrou a seca de conquistas. Era um time que contava com Edílson, César Sampaio, Cléber, Mazinho, Zinho, Evair, Roberto Carlos e Edmundo. Não foi nada fácil passar da fase de grupos, mas o Palmeiras fez valer a força do seu estádio, com três vitórias como mandante, incluindo aquele 6 a 1 sobre o Boca Juniors.

O São Paulo havia conquistado duas vezes seguidas tanto a Libertadores quanto o Mundial de Clubes, e ainda mantinha alguns pilares daqueles times, como Cafu, Palhinha e Müller. Mas Raí havia ido embora, Telê aproximava-se do fim da sua carreira, e o clube entraria em breve em uma década com poucas alegrias antes de chegar ao tricampeonato em 2005. Aquela campanha, que terminou na final contra o Vélez Sarsfield, foi uma espécie de último suspiro.

Houve outros dois duelos importantes entre os rivais naquele ano. Pelo Paulistão, em um dia de homenagens à morte de Ayrton Senna, o Palmeiras venceu por 3 a 2 e encaminhou o bicampeonato estadual. Depois, no Brasileirão, Edmundo roubou a cena em uma confusão no “Clássico da Paz”, que terminou empatado por 2 a 2. O da Libertadores foi naturalmente o mais importante e que teve mais consequência.

O ano futebolístico no Brasil foi interrompido para a disputa da Copa do Mundo. O primeiro jogo foi realizado no final de abril, no Pacaembu, com mando do Palmeiras, e terminou empatado por 0 a 0, graças a Zetti. Foi, segundo ele próprio, o melhor jogo da sua carreira.

“Eu fui um dos melhores em campo naquele 0 a 0 no Pacaembu. Essa partida marcou muito para mim e, sem dúvida, foi minha melhor atuação em um único jogo”, afirmou, em depoimento ao site SPFC.net. “Foi uma partida muito movimentada principalmente para mim ali atrás. A pressão que a gente sofreu foi enorme. Só deu Palmeiras. A gente ficou o tempo todo se defendendo, tentando não tomar gol. Críamos pouquíssimas oportunidades. Eu batia o tiro de meta e não dava um minuto para o Palmeiras já estar dentro da nossa área de novo. Foi muito intenso”.

“A defesa mais difícil foi depois de uma cabeçada do Evair. O Mazinho cruzou, e o Evair cabeceou com força. Eu fiz a defesa em cima da linha, sem soltar a bola, segurando firme. Foi uma situação muito rápida. A bola poderia ir para qualquer lugar e acabou vindo na altura de eu fazer um encaixe. Sem dúvida, essa foi uma das minhas defesas mais importantes naquele jogo, uma defesa segura que eu sempre lembro como a principal daquele jogo. Foi impressionante o que a gente fez para segurar o Palmeiras”, completou.

Houve um hiato de três meses até o jogo de volta. O Palmeiras alega – inclusive em seu site oficial – que uma excursão pela Europa e pela Ásia organizada pela diretoria, sob protesto do técnico Vanderlei Luxemburgo, custou muito em condicionamento físico aos seus jogadores.

As escalações para o jogo no Morumbi foram praticamente as mesmas. No Palmeiras, apenas Edílson entrou no lugar de Rincón, com Evair recuando ao meio-campo: Fernández; Cláudio, Antônio Carlos, Cléber e Roberto Carlos; César Sampaio, Mazinho, Evair e Zinho; Edmundo e Edílson.

No São Paulo, Cafu foi deslocado ao meio-campo, Válber entrou na vaga de Doriva, e Palhinha na de Leonardo. Vítor ocupou a lateral direita. O resto da defesa e a dupla de ataque permaneceram intactas: Zetti, Vítor, Júnior Baiano, Gilmar e André Luiz; Válber, Axel, Cafu e Palhinha; Euller e Müller.

A dinâmica do primeiro tempo foi muito clara. O Palmeiras estava com dificuldades para furar a defesa são-paulina e levou algum perigo apenas com chutes de média distância. Os donos da casa contra-atacavam com velocidade e, em uma dessas jogadas, Palhinha tabelou com Axel e lançou Müller pela esquerda. Euller apareceu para completar o cruzamento rasteiro e fazer 1 a 0. O lance mais relevante do Palmeiras foi uma tentativa sem vergonha de Edmundo de fazer um gol de mão à Maradona.

No começo do segundo tempo, Palhinha descolou outro lançamento, ainda mais bonito, para encontrar Euller no outro lado do gramado. O Filho do Vento dominou e estufou o teto da rede para fazer 2 a 0. Cléber foi expulso dez minutos depois, e a velocidade de Euller continuou sendo uma ameaça no contra-ataque. O Palmeiras parou novamente em Zetti – e logo depois em um corte em cima da linha de Jean Carlo. Evair, já nos minutos finais, chegou a descontar de falta, tarde demais para as ambições palmeirenses.

No ano seguinte, outra decepção ao Palmeiras, bicampeão brasileiro, naquele épico contra o Grêmio pelas quartas de final: 5 a 0 em Porto Alegre, 5 a 1 em casa. O clube paulista teria que esperar mais quatro anos para finalmente conquistar a América, sob o comando de Felipão e com Marcos debaixo das traves. O São Paulo derrotou o Unión Española e o Olimpia antes de fazer a decisão contra o Vélez Sarsfield. Perdeu a chance do tricampeonato em sequência nos pênaltis. O ponto final de um grande time.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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