Libertadores

O Galo ganhou e se classificou, mas foi vergonhosa a postura da Conmebol em manter o jogo com o caos ao redor

Jogo precisou ser paralisado cinco vezes, porque as bombas de gás lacrimogêneo atiradas contra manifestantes nas ruas próximas do estádio afetaram os jogadores

Não há clima para realizar a Copa Libertadores na Colômbia. O país ferve em meio aos protestos contra a reforma tributária realizada pelo governo, há confrontos em diferentes cidades, a polícia reprime manifestações e o número de mortos chega aos 50. Na última semana, a Conmebol não teve qualquer sensibilidade para deslocar as partidas a países vizinhos. Já nesta semana, a entidade fez pior, ao forçar os jogos em território colombiano, mesmo sem segurança. Os problemas já tinham ocorrido em Junior 1×1 River Plate e em Atlético Nacional 0x0 Nacional nesta quarta. Nesta quinta, também afetou América de Cali 1×3 Atlético Mineiro, em Barranquilla. Foram cinco paralisações para que os jogadores se recuperassem dos efeitos do gás lacrimogêneo lançado nos arredores do estádio, num jogo que não deveria ter ocorrido e, no mínimo, deveria ter sido suspenso por falta de condições. O árbitro uruguaio Andrés Cunha, todavia, não teve o mínimo de bom senso e, certamente recebendo ordens superiores, manteve a bola rolando. No fim, o Galo saiu com o triunfo que valeu a classificação às oitavas e até contou com um golaço de Vargas, mas em noite deplorável pelo contexto.

O jogo entre Junior e River Plate aconteceu primeiro em Barranquilla, na quarta. Também foi organizado no Estádio Romelio Martínez, palco de América x Galo, um estádio bem mais acanhado que o tradicional Metropolitano – onde os Tiburones costumam mandar suas partidas. Nos arredores da praça esportiva, aconteceram protestos que interferiram na realização do jogo. Centenas de torcedores se reuniram para tentar impedir que a bola rolasse. O gás lacrimogêneo lançado pela polícia contra os manifestantes chegou ao gramado e provocou a paralisação do embate por alguns minutos, afetando os jogadores. Era possível ouvir as explosões durante a transmissão. Uma cena que se repetiria um dia depois, quando a Conmebol insistiu no erro no compromisso de atleticanos e escarlatas.

O técnico Marcelo Gallardo foi afetado pelo gás lacrimogêneo. E criticou a realização do duelo: “Você não consegue abstrair do que está passando. Não é normal vir jogar uma partida de futebol em uma situação tão instável. Não foi normal a prévia e nem a partida, os que estiveram presentes tem que dizer que a partida se jogou com fumaça de gás lacrimogêneo. O resultado termina sendo justo, mas não deixa de ser anedótico, ninguém sai contente pela situação em que tivemos que jogar hoje”.

Mais tarde, em Pereira, outros entraves ocorreram antes de Atlético Nacional e Nacional de Montevidéu. O jogo precisou ser atrasado em uma hora, já que o Nacional se recusava a sair do hotel por falta de garantias, com protestos nos arredores do local. O deslocamento da equipe no ônibus, rumo ao estádio, aconteceu apenas 15 minutos antes do horário marcado para o pontapé inicial. Os uruguaios tomaram a decisão de seguir ao jogo por conta do silêncio da Conmebol, que não eximia os tricolores dos riscos de sofrerem punições e até mesmo uma exclusão da Libertadores.

Pereira é um dos focos das manifestações, sobretudo pela morte de Lucas Villa, professor de yoga que virou uma das faces dos protestos. Na cidade, os torcedores que tentaram barrar o jogo da Libertadores publicaram uma carta: “O futebol, o esporte mais popular e com mais seguidores no mundo, não pode servir para desviar ou silenciar a atenção do planeta sobre a situação que vive atualmente o povo colombiano. Condenamos energicamente a realização da partida em Pereira, enquanto em nossas ruas seguem assassinando a jovens que lutam por um futuro melhor a todas e todos colombianos. […] Avisamos, a partida não se joga, porque sem justiça não há futebol. Se não há pão, tampouco haverá circo”. As barras de Deportivo Pereira, Atlético Nacional e América de Cali participaram das ações.

Nesta quinta, os capitães dos clubes colombianos também assinaram um comunicado em que pedem para que as competições nacionais sejam paralisadas. “Enquanto não se resolver a situação atual de ordem pública que afeta todo país e põe em risco nossa integridade, não se programem as partidas das competições locais”, escreveram, após reunião. Há jogos adiados e sem data prevista nos mata-matas do Torneio Apertura do Campeonato Colombiano. Os capitães, além do mais, se posicionaram ao lado da população: “Manifestamos total apoio ao clamor expressado pelo povo colombiano em seu protesto e nos unimos a essas vozes que pedem um país mais justo, equitativo e inclusivo, em que nos garantam a todos, sem distinção, as condições mínimas para viver com dignidade”. A Libertadores, mesmo assim, ia em frente – como se ocorresse numa redoma de vidro alheia à realidade.

E com todo esse pano de fundo, a Conmebol manteve o silêncio antes que América de Cali x Atlético Mineiro acontecesse. Havia uma preocupação clara e os protestos se repetiram nos arredores do Estádio Romelio Martínez. Antes que a bola rolasse, já dava para ouvir o estouro de bombas nas ruas. As cenas eram terríveis, com manifestantes e polícia em confronto. A partida, ainda assim, começou almejando uma utópica normalidade. O Galo teve um gol anulado de Keno, mas já aos 11 minutos aconteceu a primeira paralisação para que os jogadores bebessem água e atenuassem os efeitos do gás lacrimogêneo. Quando o jogo voltou, os atleticanos seguiram melhores até o gol de Hulk, aos 20. Nacho Fernández cruzou e o atacante cabeceou para as redes. O empate do América aconteceu três minutos depois. Santiago Moreno recebeu na área e fintou a marcação, antes de mandar no cantinho.

Depois disso, o primeiro tempo mal aconteceu. Aos 27 minutos, se deu outra paralisação e a tensão era evidente. O ritmo do jogo era afetado, assim como as condições dos jogadores. A bola rolou por mais alguns minutos, até nova interrupção mais longa aos 40. Os atletas deixaram o campo e o árbitro Andrés Cunha conversava com os capitães, mas não havia bom senso das autoridades sobre a suspensão do duelo. No fim, a primeira etapa se arrastou por longos acréscimos, mas com pouco futebol. O goleiro Joel Graterol até evitaria o tento de Keno, mas ficava em xeque a própria validade do embate quando os jogadores não se mostravam bem. No fim, houve uma quarta paralisação e os times precisaram ficar no gramado. Então, o América apenas tocou a bola na defesa sem qualquer objetividade até que o apito final soasse.

O intervalo passou dos 20 minutos e dava a impressão de que o jogo não seria retomado. Ledo engano, quando o árbitro Andrés Cunha não tomava uma atitude, pressionado pelo delegado, e os jogadores precisaram disputar o segundo tempo. A visão era prejudicada, a respiração era prejudicada, a concentração era prejudicada. As informações até eram de que o clima nos arredores estava mais brando e o Atlético, melhor, anotou o segundo gol aos nove. Guilherme Arana, um dos jogadores que pareciam ter sentido o baque no primeiro tempo, dominou e bateu no alto da meta adversária. Na comemoração, mais barulho de bombas.

A quinta e última paralisação do jogo aconteceu aos 20 minutos, mais curta dessa vez. Graterol seguia trabalhando bastante para evitar o terceiro gol do Galo, mas o América também cresceu no fim em busca do empate. Luis Paz acertou a trave e o goleiro Everson faria uma boa defesa contra Pablo Ortiz. De qualquer maneira, sobravam espaços aos contra-ataques atleticanos nos acréscimos. Kevin Andrade também foi expulso, deixando os escarlatas com um a menos. Já o grand finale a uma noite que não merecia tanto ocorreu aos 51. Diego Tardelli disparou e passou a Eduardo Vargas. O chileno, então, chapelou Graterol antes de mandar às redes. Golaço que deu um mínimo de brilho a uma ocasião tão pesada.

O Atlético Mineiro cumpriu sua missão e precisou jogar diante da passividade do árbitro, bem como do delegado da Conmebol. Mas, sem tirar os méritos do Galo pelo ótimo resultado, há uma clara mácula pela forma como os dois times acabaram afetados. Não foi o que se espera de uma competição continental como Libertadores, com seu nível técnico claramente prejudicado. Além do mais, a maneira como as manifestações da população local foram ignoradas só mostra um distanciamento do povo. Num momento em que o futebol parece enfiado goela abaixo por um pretenso senso de normalidade, o caos é mais do que óbvio e torna ainda mais lamentável a postura da Conmebol. O Atlético, líder do Grupo H, se classifica com dez pontos. O América de Cali está próximo da eliminação, com apenas um ponto.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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