Libertadores

O Galo despachou o River emendando golaços e evidenciando sua força, numa daquelas vitórias inesquecíveis de Libertadores

Com uma acrobacia perfeita de Zaracho e uma cavadinha marrenta de Hulk, o Galo venceu de novo o River Plate e deu ainda mais motivos para a torcida se empolgar

Há noites de Libertadores que já nascem eternas. Épicos que serão recontados por anos a fio pelos torcedores. Para o Atlético Mineiro, as quartas de final do torneio em 2013 ganharam ares mitológicos. O milagre de São Victor no Horto é um ponto de transformação ao clube, negando o impossível e rumando à inédita conquista do continente. Não dá para dizer que a atuação desta quarta-feira representará tanto à história atleticana, mas ela certamente será relembrada e celebrada pela massa durante muito tempo. O Galo, afinal, pulverizou o incensado River Plate de Marcelo Gallardo e eliminou o clube mais bem sucedido da competição durante os últimos anos. Se a vitória por 1 a 0 no Monumental de Núñez animava, os 3 a 0 do Mineirão eleva a confiança de verdade. Não foi só uma ótima partida dos mineiros, mas um triunfo pincelado por arte, com gols mágicos de Zaracho e Hulk. O Atlético passa embalado às semifinais, onde promete um jogaço com o Palmeiras, que igualmente se agigantou depois de amassar o São Paulo no clássico.

O Atlético Mineiro deu início ao jogo no Mineirão deixando bem claro como a vitória em Núñez não servia de garantia. O Galo tinha fome de bola e de outro triunfo, algo visível pela maneira como começou ameaçando os argentinos no ataque. A pressão logo pintou, com duas chances para Eduardo Vargas. O chileno forçou boa defesa de Franco Armani na primeira tentativa e, na segunda, quando o goleiro saiu caçando borboletas, a cabeçada do atacante lambeu a trave. Zaracho também testaria o arqueiro adversário, mas chutou em cima de Armani, que pegou em dois tempos. Era a postura agressiva que a torcida mineira esperava de sua equipe.

Depois de dez minutos imponentes do Atlético, o River Plate passaria a buscar mais o campo de ataque e a construir suas jogadas em velocidade. A equipe de Marcelo Gallardo contava com a subidas pelos lados e poderia ter aberto o placar aos 19. Não conseguiu porque Everson segue decisivo nesses mata-matas da Libertadores. Julián Álvarez passou para Matías Suárez, que fuzilou e viu o goleiro realizar uma defesa de agilidade. Neste momento, os millonarios cresciam e prometiam um duelo equilibrado. O Galo, então, esfriou os portenhos com um gol fantástico aos 22.

A jogadaça começou com Hulk. O veterano estava disposto a fazer um jogo grande e incomodava muito o lado esquerdo da defesa do River Plate. Após fintar a marcação, o atacante descolou um cruzamento cirúrgico. E a perfeição seria atingida por Zaracho. Você pode escolher se foi um voleio ou uma bicicleta: independentemente do nome, a acrobacia deixou muita gente boquiaberta e rendeu uma fotografia lindíssima. Terminou nas redes, como merecia. A pintura injetava confiança no Galo, que quase sempre investia pela direita.

O jogo, cabe dizer, não estava resolvido. E o Atlético Mineiro ainda dependeu de Everson. O goleiro faria outra defesa decisiva aos 28 minutos. Suárez serviu Álvarez, que finalizou de frente para o gol e o arqueiro, bem posicionado, conseguiu rebater. Os millonarios ainda pareciam acreditar no resultado e voltavam a se posicionar à frente. Sem que o sistema defensivo funcionasse, também, Gallardo tirou Jonathan Maidana para a entrada do volante José Paradela. E quando a equipe argentina se recompunha, o Galo deu outra estocada aos 34, no segundo golaço da noite.

Num contra-ataque iniciado por Everson, Savarino lançou a bola no capricho. Hulk ganhou na velocidade da marcação e, diante de Armani, resolveu brincar: deu um toque sutil por cobertura, que adicionou beleza à jogadaça e garantiu a bola nas redes. Ainda quase veio o terceiro na sequência, mas Armani estava atento para brecar Vargas no mano a mano. O River Plate se perdia no jogo e demorou a esboçar uma reação. Ainda teve algumas chegadas antes do intervalo, mas nada que aumentasse as esperanças diante de uma situação difícil, contra um adversário fatal.

O River Plate voltou para o segundo tempo com duas mudanças, mandando a campo Alex Vigo e Nicolás de la Cruz. As mudanças tiveram poucos efeitos práticos. Pelo contrário, Armani seria chamado a trabalhar logo nos primeiros minutos, de novo para evitar o gol de Vargas. De qualquer maneira, o Atlético se resguardava um pouco mais. Fechava os espaços e esperava o momento de contragolpear. As notícias ruins ficavam para os problemas físicos. Mariano e Jair precisaram sair depois de sentirem, dando lugar a Guga e Tchê Tchê.

Seguro em seu jogo, o Atlético Mineiro ainda parecia mais próximo do terceiro gol. Aos dez minutos, Zaracho desperdiçou uma oportunidade enorme. Hulk rabiscou novamente e entregou outro presente ao argentino, que isolou de frente para o crime. Aos 16, pelo menos, Zaracho se redimiria. O argentino balançou as redes de novo, para decretar o triunfo. Guga abriu com Savarino na linha de fundo e o venezuelano, além de evitar o tiro de meta, cruzou para o meia da área. Zaracho entrou rasgando, para anotar de peixinho.

A esta altura, a partida estava resolvida. O River Plate não deixava de lutar e de buscar o gol de honra. Braian Romero e Álvarez tentariam descontar por volta dos 20. Porém, não se via a qualidade e a fé necessárias para uma virada nestas proporções. Estava claro como o Galo era mais time no Mineirão e poderia impor um massacre maior. Hulk quase marcou outro por cobertura, em lance no qual estava impedido, antes de dar lugar a Keno. Até gritos de “olé” se ouviam no Mineirão. Com um pouco mais de concentração no passe final, o Galo causaria um estrago maior.

Num momento em que o Atlético baixou a guarda, já nos minutos finais, o River Plate teve sua melhor chance no segundo tempo. De la Cruz cobrou falta mirando o ângulo e Everson se esticou todo para mais um milagre. Jorge Carrascal bateria para fora pouco depois, o que acordou o Galo para tentar o quarto já após os 40. Armani faria uma ótima defesa em tiro de canhota de Guilherme Arana. O placar ficou mesmo inalterado, nada que mudasse a alegria entre os presentes, com o nome de Cuca gritado pelos atleticanos.

Pela maneira como Atlético Mineiro e Palmeiras avançaram nestas quartas de final, o confronto entre os dois brasileiros se promete eletrizante. São dois elencos com enormes recursos e jogadores dispostos a brilhar. Além do mais, o Brasil confirma pela primeira vez três semifinalistas numa edição de Libertadores, feito inédito. O Galo chega a esta fase do torneio pela terceira vez em sua história, repetindo o que ocorreu em 1978 e 2013. Já o River Plate se despede antes da semifinal pela primeira vez desde 2016, apenas na segunda das sete participações sob as ordens de Gallardo em que os millonarios não se colocam entre os quatro melhores do certame. Num momento de enfraquecimento do elenco e perdas significativas, o fôlego em Núñez parece se reduzir. O que não tira os méritos atleticanos, implacáveis numa noite em que o time se empenhou para tornar inesquecível.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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