Libertadores

O Furacão arranca o empate no final, encerra o reinado do Palmeiras e volta à decisão da Libertadores após 17 anos

O Athletico Paranaense via a classificação escapar com a vantagem inicial do Palmeiras, mas melhorou a partir das alterações e se impôs com um homem a mais

O Athletico Paranaense se consolidou como um clube de relevo nas competições continentais durante os últimos anos, com a conquista de dois títulos na Copa Sul-Americana. E o passo além do Furacão veio nesta terça-feira, com o retorno do time à final da Copa Libertadores depois de 17 anos. Felipão, velho conhecedor dos atalhos além das fronteiras, lidera uma campanha em que os rubro-negros superam suas limitações. Foi um feito enorme nestas semifinais, com a classificação em cima do Palmeiras, capaz de encerrar o reinado dos atuais bicampeões continentais. A vitória por 1 a 0 na Arena da Baixada se provou fundamental. Já dentro do Allianz Parque, o empate por 2 a 2 garantiu a façanha dos athleticanos. O gol precoce dos palmeirenses indicava uma reviravolta e o time foi amplamente superior no primeiro tempo. Todavia, a expulsão de Murilo condicionou a partida. Mesmo com o segundo gol, os alviverdes viram os paranaenses crescerem a partir das mudanças. Com os heróis saindo do banco, evitaram até os pênaltis, em gol tardio de Terans que valeu um momento histórico ao Athletico.

O Palmeiras sente a eliminação. Os desfalques tiveram seu preço, assim como parte da torcida questiona os critérios da arbitragem nos cartões. Todavia, a equipe ainda teve o resultado para a classificação nas mãos em parte do tempo e não conseguiu evitar o empate dentro de casa. Méritos também do Athletico, dentro das circunstâncias, com uma melhora substancial após o primeiro tempo ruim. Nomes como Bento e Fernandinho seriam fundamentais na etapa final. Entretanto, os protagonistas vieram mesmo do banco, em alterações agressivas diante da situação adversa. Pablo serviu de talismã com gol e assistência, enquanto Terans cravaria a classificação com seu tento tardio. O Furacão já reserva passagens a Guayaquil, no aguardo de Flamengo ou Vélez para a decisão. Felipão tentará buscar o seu terceiro título continental, justo naquele que promete ser o último trabalho da carreira.

O Palmeiras contava com a volta de Gustavo Scarpa na equipe titular. Outra novidade era Bruno Tabata na armação, diante da lesão de Raphael Veiga. Rony e Dudu completavam o setor ofensivo. Enquanto isso, Zé Rafael e Gabriel Menino fechavam o meio. O Athletico Paranaense mais uma vez precisaria contar com o bom trabalho dos laterais, Khellven e Abner Vinícius. O meio-campo tinha a sustentação de Fernandinho, Erick e Alex Santana. Já na frente, Vítor Roque contava de novo com o apoio de Canobbio e Vitinho.

O Palmeiras entrou em campo com enorme energia. Firme nas divididas, a equipe conseguiu igualar o confronto logo aos três minutos, quando abriu o placar. Bruno Tabata fez o desarme em cima de Canobbio, antes de Zé Rafael girar em cima de Fernandinho e acelerar. A zaga teve chances de cortar o cruzamento, mas a bola ficou viva na área e Gustavo Scarpa guardou. A torcida alviverde vibrava ainda mais, com a equipe postada no campo de ataque e o Athletico recuado. Bento precisaria intervir para evitar o segundo aos nove, se esticando para espalmar a batida de Scarpa. Cada chegada dos palmeirenses era um perigo.

Depois de dez minutos mais difíceis, o Athletico começou a se soltar mais e se apresentou ao campo de ataque. Acabava, porém, travado pela defesa do Palmeiras. E os alviverdes voltaram a arriscar aos 16, em ataque rápido no qual Dudu chutou e Bento defendeu. Quem aparecia um pouco mais também era Vítor Roque, mas quase sempre bloqueado. O Furacão acabava dependente das investidas do garoto. Os rubro-negros criavam pouco, com a defesa palmeirense muito segura. A equipe ainda correu o risco de ficar com um a menos, quando Alex Santana deixou o cotovelo na área e viu apenas o amarelo.

Depois dos 30 minutos, o Palmeiras voltou a impor uma pressão maior no campo de ataque. A equipe fluía pelos lados do campo, principalmente pela direita, e conseguia invadir a área, mas a defesa do Athletico abafava. Rony seria travado providencialmente aos 36, enquanto Bento exibia muita firmeza em suas defesas. Bruno Tabata também poderia fazer melhor num lance com espaço, mas a tentativa acabou bloqueada. Já aos 45, Murilo se complicou num lance desnecessário na intermediária. Deu uma solada em Vítor Roque e, depois de receber apenas o amarelo, o árbitro revisou o lance no monitor para dar o vermelho. Mais uma vez, os alviverdes precisariam se virar com um a menos.

Bruno Tabata fez um bom primeiro tempo, mas deixou o campo no intervalo, para Luan recompor a zaga. Já o Athletico vinha com três mudanças: Pedrinho, Terans e Rômulo, com as saídas de Abner, Alex Santana e Canobbio. O Palmeiras recomeçou a segunda etapa mais à frente e investia nas bolas paradas, com uma sequência de escanteios. Mas o Athletico também vinha com uma postura mais ofensiva, adiantando sua equipe ao campo de ataque para aproveitar a vantagem numérica. Nada que desse resultado, numa equipe que sofria pela falta de criatividade no meio.

O Palmeiras confiava nas jogadas ensaiadas. O segundo gol aconteceu assim, aos dez minutos. Marcos Rocha aproveitou a cobrança de lateral para alçar a bola na área, numa jogada tão característica do defensor. A zaga do Athletico bateu cabeça e Gustavo Gómez estava atento para dar uma casquinha na bola. Conseguiu mandar longe do alcance de Bento e balançar as redes. O Allianz Parque voltava a contar forte e a necessidade do Furacão em busca do ataque se tornava maior. O tempo ficava a favor dos alviverdes.

O Athletico arriscava um pouco mais os chutes, sem direção. Uma alteração mais ofensiva veio com Pablo no lugar de Erick, aos 17. Não demorou para que o centroavante aparecesse, com o gol aos 19. Fernandinho deu um lançamento de alta categoria para Vitinho, que escapou nas costas de Marcos Rocha e deu um tapa para o meio. Vitor Roque aparou no segundo pau e Pablo estava no lugar certo para escorar. O duelo voltava a se abrir e o nervosismo ficava evidente. Scarpa tentou de longe, antes de Vitinho bater com perigo do outro lado. E os alviverdes lamentaram o terceiro não ter vindo aos 27, numa grande jogada de Dudu. Gabriel Menino mandou um foguete de dentro da área e Bento fez uma defesa monumental.

O Palmeiras conseguia jogar com mais velocidade, pelos espaços que a marcação do Athletico concedia. Dudu fazia ótimo papel nessa transição. O Furacão tinha mais presença de área e enfiava seus homens na defesa alviverde, em busca de bolas longas. O duelo se tornava imprevisível para os 15 minutos finais. O desgaste também pesava contra os palmeirenses, mais recuados, com as trocas de Marcos Rocha e Rony por Mayke e Wesley aos 34. E o perigo cada vez mais constante aos anfitriões, com o time limitado ao redor de sua área, teria um alto custo aos 40 minutos. O Athletico anotou o gol de empate numa bola bem trabalhada na entrada da área. Pablo acionou Terans e o meia encheu o pé, num chute com desvio que tirou Weverton da jogada e terminou nas redes. O sonho do terceiro título consecutivo ficava por um fio.

Não restava outra alternativa para Abel Ferreira a não ser mexer no Palmeiras. E não que o banco de reservas oferecesse tantas opções assim. Atuesta e Merentiel entraram aos 43, nos lugares de Gabriel Menino e Piquerez. Já o Athletico trancava o meio, com Matheus Fernandes suplantando Vitor Roque. Restavam apenas os acréscimos para os alviverdes tentarem um milagre e buscarem os pênaltis. A equipe bem que tentava, mas pareciam faltar pernas e também alternativas melhores, diante das ausências. Gustavo Gómez já tinha virado atacante neste momento e até Weverton tentou a cabeçada no escanteio, sem conectar. O desespero batia e o Furacão tratava de gastar o tempo. A comemoração seria em vermelho e preto ao apito final.

Se o Palmeiras vinha de uma classificação repleta de superação, desta vez não conseguiu driblar as circunstâncias e limitações. A equipe jogou bem e poderia ter construído um resultado superior no primeiro tempo. A expulsão desnecessária de Murilo teve seu preço e, mesmo com a vantagem ampliada, a equipe não conseguiu segurar o resultado sequer para ir aos pênaltis. O lugar na história está garantido com o bicampeonato recente, mas também fica o questionamento sobre as condições do atual time. Alguns protagonistas se veem sobrecarregados, caso de Dudu nesta terça, e as reposições de desfalques não foram à altura. Isso pesou tanto quanto a expulsão. Vale lembrar também que, na Baixada, quando teve um a mais, o time não tirou proveito.

Já o Athletico Paranaense avança com uma equipe bastante competitiva, ainda que não encha os olhos. Se Felipão não pôde ficar à beira do campo desta vez, não se nega sua influência no estilo de jogo e no copeirismo expresso. Foi uma noite em que o Furacão, inicialmente pobre em ideias, conseguiu aproveitar as mudanças para lutar até o fim e encontrar o caminho da classificação. É a história que se amplia numa campanha marcante para o clube na Libertadores. Agora, com a chance de buscar um troféu ainda maior aos rubro-negros.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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