Libertadores

O “defesa que ninguém passa” do hino fez mais de sentido ao Palmeiras campeão no Maracanã

O hino do Palmeiras ressoará infinitas vezes nesta noite eterna aos torcedores alviverdes. E infinitas vezes bradará sobre a “defesa que ninguém passa”, numa das frases mais fortes da composição. Ter uma defesa intransponível era fundamental para almejar a reconquista da Libertadores. Ter uma defesa instransponível seria ainda mais preponderante numa final tão truncada, em que o trabalho sem a bola prevaleceu por 90 minutos. E no título garantido pelo agônico tento de Breno Lopes no Maracanã, a defesa do Palmeiras, aquela que ninguém passou, também merece aplausos pela maneira como travou o Santos.

O encaixe defensivo era um ponto de inflexão ao Palmeiras, diante do que aconteceu na semifinal contra o River Plate. A concentração que faltou no Allianz Parque precisava ser máxima no Maracanã. A correção dos problemas era essencial. Não havia margem aos descuidos, especialmente contra um adversário com tanta qualidade individual. O Santos tinha Soteldo e Marinho para causar estragos, tinha Kaio Jorge para incomodar. As vitórias elásticas contra Grêmio e Boca Juniors indicavam o tamanho dos cuidados. Até por isso, a vitória palmeirense passava necessariamente pela proteção de sua própria área.

No fim das contas, a decisão seria marcada por duas equipes cautelosas. Palmeiras e Santos se viram mais preocupados em se defender. Ainda assim, os alviverdes se sobressaíam exatamente pelo encaixe. O Santos mal conseguiu se aproximar da meta de Weverton ao longo da primeira etapa. Os lados do campo estavam muito bem trancados. Viña fazia uma partida bem mais contida que de costume, para segurar Marinho. Do outro lado, o criticado Marcos Rocha dava conta do recado e Soteldo mal aparecia. Além disso, nem na cabeça de área os santistas viam brechas para arriscar chutes de longe. Danilo era o dono do pedaço.

Weverton seria um mero espectador durante o primeiro tempo. E, quando precisaram ser acionados, Gustavo Gómez e Luan também realizaram os cortes necessários. O Santos ainda parecia ter capacidade para desequilibrar, mas faltava algo. O lance mais perigoso aconteceu num cruzamento que atravessou a área e Marinho não completou. No mais, a principal preocupação ficava para o cartão amarelo a Gustavo Gómez, numa entrada um pouco desnecessária. A advertência poderia cobrar seu preço, caso o zagueiro ficasse exposto.

Durante o segundo tempo, o jogo se abriu um pouco mais. Era o cansaço, era o nervosismo, era o ímpeto de ser campeão. Uma desatenção mínima poderia decidir a final no Maracanã. O Palmeiras começou mais interessando em sair ao ataque. O Santos melhorou apenas com o passar dos minutos. De qualquer maneira, ficava claro que o gol poderia sair no limite. E um aviso enorme veio num breve cochilo alviverde na bola aérea. Por sorte, Lucas Veríssimo não conseguiu cabecear em cheio, ao aparecer livre no segundo pau. Weverton, ao menos, fechava o ângulo junto à trave.

Apesar do susto, o Palmeiras resistia bem. A marcação seguia muito firme. Marinho não tinha muitas chances com Viña, mesmo arrancando o amarelo do lateral. Quando o craque santista tentou cair pelo meio, Danilo realizou dois desarmes excepcionais, na bola. Soteldo também seguia silencioso, mesmo quando Marcos Rocha não o acompanhava tão de perto. E quando Lucas Braga entrou, provocando a melhora do Peixe, os alviverdes ainda se seguravam bem. Weverton realizou apenas duas defesas, não muito difíceis, num cruzamento venenoso de Pituca e numa bicicleta prensada de Kaio Jorge. Felipe Jonatan também assustou com uma pancada para fora, mas era uma noite bastante aquém do potencial ofensivo dos alvinegros.

O erro flagrante que o Palmeiras não cometeu acabaria ocorrendo do outro lado. O lance do tento começou a partir de Danilo, com uma inversão soberba da defesa. A bola atravessou o campo e já superou a primeira linha do Santos. Rony recebeu com espaço, um espaço que os alviverdes não deram ao Peixe. Naquele momento, o atacante era marcado à distância pelo garoto Wellington Tim, escalado na fogueira após a saída de Felipe Jonatan. Breno Lopes subiu muito mais alto que Pará para completar o cruzamento e a cabeçada certeira não deu chances a John. O gol do título. O gol que premiou os 90 minutos impecáveis do sistema defensivo palmeirense.

A defesa do Palmeiras conta com alguns dos melhores jogadores em atividade no continente. Weverton é o melhor goleiro do Brasil na temporada, com certas sobras, e consolida com essa conquista a excelente forma desde os tempos de Athletico Paranaense. Fez a diferença durante toda a Libertadores. Gustavo Gómez também merece ser considerado como o melhor zagueiro do futebol nacional. Une segurança e qualidade, além da liderança, com sua mera presença já contando demais aos alviverdes. Na lateral esquerda, Matías Viña também chegou para brilhar, ótimo no apoio, mas mostrando também a capacidade na contenção durante a final. Luan justificou sua escalação com um bom jogo e, mesmo Marcos Rocha, visto como “elo fraco” no sistema, acabou saindo como um dos melhores em campo.

Danilo, ainda assim, merece menção destacada. O volante pensou em largar a carreira quando foi dispensado pelo Bahia e se manteve na ativa graças a um projeto social. Foi descoberto na segunda divisão do Campeonato Baiano pelo Palmeiras, acabou levado à Academia e se tornou mais um dos prodígios da base. Quando precisou estrear no profissional, o garoto de 19 anos não sentiu o peso da responsabilidade e virou um dos jogadores mais regulares do time. Não sentia o fardo de substituir Felipe Melo, e dá para dizer que o veterano não fez tanta falta assim. O camisa 28 desempenhou uma final muito limpa na marcação e ainda deu sua contribuição ao gol. Deve receber tanta atenção quanto Gabriel Menino, Gabriel Verón ou Patrick de Paula.

O Palmeiras sofreu míseros seis gols em seus 13 jogos pela Libertadores, média inferior a um tento a cada duas partidas. O trabalho defensivo também fez toda a diferença ao sucesso da campanha, mesmo sem ficar tão em evidência. A derrota para o River Plate criou necessários questionamentos e fez a figura de Weverton ser mais exaltada, com razão. No entanto, as glórias alviverdes nos últimos anos quase sempre se calcaram na segurança atrás. Não seria diferente na maior das conquistas. E, na final jogada sem a bola, a defesa que ninguém passa fica na mente, não só cantarolada, mas vista em grande forma.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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