No único encontro oficial até esta Libertadores, Flamengo e Racing protagonizaram dois jogos quentes pela Supercopa de 1992

Flamengo e Racing possuem um número razoável de encontros anteriores, ainda que esta seja apenas a primeira vez que ambos se cruzam na Copa Libertadores. As duas equipes se enfrentaram 13 vezes no passado, 11 delas em amistosos. Os embates foram recorrentes nas décadas de 1950 e 1960, numa série de grandes partidas sobretudo por torneios amistosos – sobre os quais falaremos mais detalhadamente na próxima semana. Ainda assim, as únicas partidas oficiais aconteceram em 1992, pela extinta Supercopa, que reunia apenas os clubes que já tinham faturado a Libertadores. Aquela ocasião valeu uma vaga à final.
A Supercopa tinha um valor especial ao Racing, ao resgatar o moral do clube nos anos 1980. A Academia havia sido rebaixada no Campeonato Argentino em 1983, conquistando o acesso em 1985, e atravessava um jejum de títulos desde as glórias acumuladas no final da década de 1960. Em meio à recuperação, os albicelestes conquistaram a primeira edição do torneio continental em 1988. Assim, botaram fim à seca e recobraram seu protagonismo no futebol local. Ainda levaria mais um tempo até que os racinguistas recuperassem a taça na liga nacional, só erguida novamente em 2001. De qualquer forma, costumavam fazer campanhas de meio de tabela na competição e inspiravam certos cuidados além das fronteiras.
Já o Flamengo atravessava um momento relevante em sua história, pouco depois de levar o seu quinto título no Campeonato Brasileiro em 1992. Os rubro-negros vinham ainda das conquistas na Copa do Brasil em 1990 e no Campeonato Carioca em 1991. Voltavam a figurar na Libertadores, com a campanha até as quartas de final em 1991, e tinham a Supercopa para preencher um pouco mais o calendário internacional. Os rubro-negros haviam alcançado as quartas na edição inaugural do torneio da Conmebol em 1988, eliminados pelo Nacional de Montevidéu, e também foram às quartas em 1991, desbancados pelo River Plate. Em 1992, superaram a barreira rumo à semifinal.
Flamengo e Racing vinham embalados na Supercopa de 1992. Os rubro-negros eliminaram Grêmio e Estudiantes, com roteiros parecidos. O Fla empatou os compromissos fora de casa por 1 a 1 e venceu ambos como mandante por 1 a 0. O zagueiro Rogério foi o algoz dos gremistas, enquanto Gaúcho despachou o Estudiantes. Já o Racing superou o rival Independiente nas oitavas de final, com o triunfo por 2 a 1 no Cilindro abrindo caminho à classificação antes do empate sem gols na Doble Visera. Já nas quartas, a Academia avançou sem precisar entrar em campo contra o Nacional de Montevidéu, aproveitando o WO dos tricolores por conta da greve de jogadores no futebol uruguaio.
O Racing chegou ao confronto em crise, contudo. Os albicelestes ocupavam a antepenúltima colocação no Campeonato Argentino e se agarravam à Supercopa para se reerguer. O protagonismo cabia aos uruguaios do elenco, o meia Rubén Paz e o atacante Gustavo Matosas. Entre os argentinos, o zagueiro Jorge Borelli e o atacante Claudio “Turco” García faziam parte da seleção naqueles tempos. Quem depois despontaria era o goleiro Carlos Roa. No comando técnico estava Humberto Grondona – filho do presidente da AFA, Julio Grondona. Já o Flamengo conciliava a Supercopa com o Campeonato Carioca, tentando perseguir o Vasco pela liderança da Taça Rio. Júnior era a referência técnica da equipe treinada por Carlinhos Violino, que também contava com a estrela de Gilmar Rinaldi e de Gaúcho. Além deles, estouravam garotos como Júnior Baiano, Djalminha e Paulo Nunes.
O Flamengo decidiu mandar a ida das semifinais fora do Rio de Janeiro. Os rubro-negros não podiam usar o Maracanã, interditado após a tragédia que matou três torcedores na final do Brasileirão. O clube precisava apresentar um estádio para 30 mil espectadores e São Januário estava fora de cogitações. Depois de flertar com o Castelão de Fortaleza, acabou escolhendo o Pacaembu, por sugestão do Maestro Júnior. “Acho que o Flamengo está sendo inteligente. Mesmo com o início da decisão do Campeonato Paulista, existe sempre um grande interesse pelo Flamengo, que tem certamente a quinta torcida em São Paulo”, declarou Luis Roberto de Múcio, que então era diretor do Pacaembu, além de narrador pela Rádio Globo de São Paulo.
O Flamengo pretendia encaminhar a classificação logo no primeiro jogo. Nas entrevistas ao Jornal dos Sports, Gilmar e Gaúcho chegavam até mesmo a projetar uma decisão contra o Cruzeiro, que pegava o Olimpia na outra semifinal. “Tenho raiva dos argentinos pelo que fazem com os jogadores brasileiros. Por isso estou com a maior gana de derrotá-los”, diria ainda Gaúcho, ao Jornal do Brasil. Em tempos nos quais o Campeonato Carioca não rendia muito dinheiro ao clube, sem a bilheteria do Maracanã, o Fla buscava faturar com as premiações da Supercopa e os direitos de TV. O Racing, todavia, se provou muito mais forte que as previsões iniciais.
A partida no Pacaembu veria um dramático empate por 3 a 3. O Flamengo até começou melhor, dominando o primeiro tempo. A equipe partia para cima e criava várias chances, sem medo de arriscar. Ainda assim, o Racing teve uma oportunidade clara em contra-ataque que não definiu. O placar seria aberto aos 28 minutos. Em uma cobrança de falta pelo esquerdo, perto da linha de fundo, Júnior resolveu bater direto e surpreendeu Roa. O tiro com efeito encobriu o goleiro e morreu na lateral da rede. Determinaria a vantagem parcial rumo ao intervalo.
O duelo pegou fogo de vez durante o segundo tempo. O Racing empatou aos 14, num cruzamento de Turco García pela direita, para Alfredo Graciani desviar de cabeça. Dois minutos depois, viria a virada. Rubén Paz descolou uma linda enfiada e García disparou livre pela direita. O camisa 7 driblou Gilmar, antes de empurrar à meta vazia. Pelo menos a reação do Flamengo não demorou. Aos 18 minutos, após cobrança de escanteio, Roa até defendeu a primeira cabeçada, mas Rogério marcou no rebote.
O jogo quente descambaria à violência, com uma confusão rendendo as expulsões de Rogério e Jorge Reinoso na hora de buscar a bola no fundo das redes. Além disso, Luís Antônio também recebeu o vermelho por uma agressão e deixou o Fla com nove, antes que Abelardo Vallejos fosse ao chuveiro mais cedo. O Racing voltou à dianteira aos 39, depois que Júnior Baiano segurou Juan Distefano no limite da grande área. Pênalti, que Matosas converteu enchendo o pé no meio do gol. O responsável por livrar a pele do Fla foi Djalminha. Roa derrubou Paulo Nunes na área, quando o atacante invadia livre. Outra penalidade, que Djalminha bateu no canto.
Depois da partida, Carlinhos ainda avaliou o empate como um bom resultado. Segundo o treinador, o time relaxou após o bom primeiro tempo e não soube administrar o resultado, dando muitos espaços no meio-campo. “O empate nos livrou de coisa pior no jogo de volta. Acredito na força de nosso time e vamos partir para a vitória na Argentina”, afirmou, ao Jornal dos Sports. Júnior complementava: “O resultado foi injusto. Não soubemos aproveitar as oportunidades numa partida que poderíamos ter decidido no primeiro tempo. Nosso time se entusiasmou com tanta facilidade e o adversário se aproveitou dos contra-ataques para surpreender. Fizemos tudo para perder e nem assim conseguimos. Temos de rezar dez pai-nossos e cinquenta ave-marias”.
Em suas avaliações, o Jornal dos Sports elogiava principalmente Júnior: “Foi o comandante que ontem não conseguiu ser o grande capitão de outras oportunidades. De qualquer maneira, apareceu no lance do primeiro gol, cobrando a falta com grande categoria. Fez o que pôde”. Entre os racinguistas, Rubén Paz era exaltado por “comandar o ritmo do time”, enquanto Turco García também recebia destaque pela participação nos dois primeiros gols.
Para a volta em Avellaneda, o Flamengo reconhecia o cansaço da maratona de jogos e Carlinhos pedia o último esforço pela conquista da Supercopa. O time vinha de derrota na Taça Rio para o Botafogo, com o estadual mais distante. Além disso, a equipe acreditava ser possível uma vitória no Cilindro. “O time deles é superior ao do Estudiantes. Mas também não é nenhum bicho-papão. Vamos desossar, ainda mais que eles terão que sair para o jogo e criarão espaços”, disse Júnior, ao Jornal do Brasil. Além dos suspensos Rogério e Luis Antônio, Marquinhos se lesionou e virou desfalque sentido no meio.
O Racing, por sua vez, lidava até mesmo com uma nova crise. A equipe perdeu por 3 a 0 para o River Plate, ampliando o péssimo desempenho no Campeonato Argentino. Além disso, surgiu um racha interno entre jogadores e dirigentes, por conta do prêmio a ser pago pela classificação na Supercopa. Apesar de tudo, o discurso era de se entregar ao máximo. “Só nos resta jogar a vida contra o Flamengo. Nossa torcida não merece o sofrimento que estamos causando. Temos que chegar à decisão da Supercopa e conquistá-la a qualquer preço. Seria a única maneira de terminar bem um ano péssimo”, dizia Graciani, ao Jornal dos Sports na véspera da partida.
Empurrado pela torcida, o Racing abriu o placar aos 17 minutos. Depois de um escanteio curto, o cruzamento de Turco García veio da direita. Houve um desvio no primeiro pau, até que Graciani aparecesse sozinho do outro lado para completar às redes. Com a vantagem, a Academia se fechou atrás e deixou a posse de bola com o Flamengo. Os rubro-negros tinham dificuldades para criar, mas quase empataram com uma grande jogada individual de Júnior, que falhou apenas na conclusão.
No segundo tempo, o Flamengo pressionou, enquanto o Racing buscava os contra-ataques. Os cariocas ficaram na bronca por um possível pênalti sobre Júlio César que o árbitro não marcou logo no início. As entradas de Djalminha e Nélio melhoraram o time, mas os visitantes perderam boas oportunidades. Paulo Nunes desperdiçaria duas vezes, enquanto Roa também faria a diferença com suas intervenções. Ao final, os albicelestes comemoraram a classificação à final, reeditando a decisão de 1988 com o Cruzeiro.
No Jornal do Brasil, nenhum jogador do Flamengo mereceu nota maior que 6 por suas atuações. Do lado do Racing, Turco García era elogiado pelo periódico: “Ele criou várias jogadas perigosas na frente e dos seus pés saiu o cruzamento para o gol do time argentino. García esteve em todos os setores e mostrou sempre disposição. Roa teve um desempenho seguro, mas também contou com a sorte em alguns lances fundamentais”.
García afirmaria, na saída de campo: “Merecemos a vitória. Nosso time lutou durante os 90 minutos e não deu espaço ao Flamengo para reagir. Precisávamos desta classificação para retribuir todo o carinho e confiança da torcida do Racing, que fez uma festa maravilhosa. O importante é continuarmos unidos e concentrados na Supercopa. Enfrentamos e superamos muitas dificuldades para chegar a esta final. Vamos disputar cada jogada como se fosse uma final de Copa do Mundo. Nosso grupo suportou muitas hostilidades e humilhações até de nossa própria torcida durante o Campeonato Argentino. Vamos provar que estamos numa nova fase com a conquista do título da Supercopa”.
Carlinhos preferia elogiar sua equipe, reclamando dos jogos encavalados com o estadual: “É desumano o que estão fazendo com os clubes do Rio. Não há tempo para treinos técnicos e táticos. Temos vários jogadores contundidos. O Flamengo sofre ainda mais, pois disputou a Supercopa ao mesmo tempo que o Carioca. Prefiro avaliar o lado bom do time. Afinal, lutamos bravamente contra tudo e contra todos para chegar às semifinais desta competição”.
Na volta ao Rio, o Flamengo contabilizava que deixou de faturar US$500 mil com a eliminação. Os jogadores estavam insatisfeitos com os atrasos salariais e passaram a reclamar publicamente dos dirigentes, bem como das escolhas táticas feitas por Carlinhos. O clube ainda apresentou um protesto à CBF, se queixando de objetos atirados contra o ônibus na chegada ao Cilindro, assim como apontando ameaças dos torcedores argentinos ao trio de arbitragem – incluindo uma coronhada sobre o bandeirinha no intervalo. Os cariocas solicitavam a anulação do resultado, o que não foi acatado pela Conmebol.
“A bomba já estava engatilhada há mais de um ano. Já sabíamos disso. Mas vencemos as duas últimas competições e isso deu um refresco. Mesmo assim, foi preciso se desfazer de um jogador da importância do Zinho, que talvez fosse, dentro do elenco, aquele de melhor cotação no mercado. Não adianta ficar falando de arbitragens. Numa competição desse tipo, todos sabem que eles se corrompem mesmo. Temos é que nos prevenir quanto a isso. Não tenho reclamações contra o Carlinhos, porque sempre foi justo. Todo mundo teve chance com ele e não foi uma só não. Portanto, quem talvez não a tenha aproveitado é que esteja reclamando”, finalizaria Júnior, ao Jornal do Brasil.
O Racing, porém, deixaria a taça da Supercopa escapar na decisão. O Cruzeiro goleou por 4 a 0 na primeira partida, com grande atuação de Roberto Gaúcho no Mineirão, além de duas expulsões entre os argentinos. Dentro do Cilindro, apesar do gol de Turco García no triunfo por 1 a 0, a Raposa ergueu a taça inédita e saboreou a revanche pela derrota em 1988.



