Libertadores

Mesmo em suas vitórias mais incontestáveis na Libertadores, o Santos não deixou de provar a qualidade de seus novos goleiros

O torcedor santista, que tanto se orgulha de suas categorias de base, tem motivos enormes para exaltar os goleiros que surgem de lá. Afinal, a meta do Santos esteve bem guardada a quatro mãos durante esta Libertadores. João Paulo e John se reversaram na posição ao longo dos últimos meses e não deixaram o nível cair em nenhum momento. Mesmo com a vitória por 3 a 0 sobre o Boca Juniors, um dos melhores jogadores alvinegros foi seu arqueiro. João Paulo tinha saído do clássico contra o São Paulo como o melhor em campo e, desta vez na Vila Belmiro, operou seus milagres para não deixar os argentinos sequer anotarem o gol de honra.

Ter um bom goleiro da base brilhando na Libertadores relembra o último título do Santos na competição continental. Rafael pode não ter estourado como se esperava depois de sair da Vila Belmiro, mas permanece como um personagem central para se narrar aquela campanha. O goleiro viveu grandes momentos no tricampeonato continental, talvez o maior diante do América do México nas oitavas de final. Na véspera da quarta-feira em que os outros quatro representantes brasileiros caíram juntos, o camisa 1 evitou que o fatídico destino atingisse o Peixe, com uma série de defesaças no Estádio Azteca.

Nos últimos anos, Vanderlei caiu nas graças da Vila Belmiro e foi um dos principais jogadores do Santos. A troca por Éverson aconteceu pela insistência de Jorge Sampaoli em contar com um goleiro que jogasse bem com os pés, mas o novo titular deixava a desejar pela irregularidade sob os paus. Assim, a maioria dos torcedores santistas não achou ruim quando Sampaoli resolveu levar seu pupilo ao Atlético Mineiro. Vladimir, que nunca foi 100% confiável apesar da longa passagem como reserva do clube, lesionou-se no início do Brasileirão. E o que poderia parecer um problema ao Peixe se transformaria em dupla descoberta.

Quando João Paulo precisou jogar, impressionou pela consistência e se colocou como um dos melhores goleiros em atividade no futebol brasileiro logo de cara. Não eram só as boas defesas, mas a segurança que transmitia – em virtudes visíveis desde a fase de grupos da Copa Libertadores. O arqueiro titular acabou se tornando um desfalque ao contrair COVID-19. E o reserva John, um ano mais jovem, foi de quarta opção do clube a novo titular incontestável. Manteve um nível tão ou mais alto que o de João Paulo, tanto que não perdeu a posição com a volta do companheiro. Na goleada sobre o Grêmio na Libertadores, realizou defesas cruciais, que facilitaram o caminho do Peixe.

John encarou o Boca Juniors na Bombonera, mas a COVID-19 também o barrou da equipe. E a volta de João Paulo não poderia ser mais emblemática. Pôde recuperar seu ritmo contra o São Paulo no Brasileirão e, num jogo no qual o time reserva do Santos não tinha grande responsabilidade, o arqueiro garantiu a vitória de sua equipe. Ganhou confiança para encarar o Boca Juniors e, mesmo sem ser imprescindível ao resultado construído por seus companheiros de frente, negou qualquer chance de reação aos xeneizes na Vila Belmiro.

Durante o primeiro tempo, João Paulo seria mais exigido em antecipações e saídas pelo alto. Mantinha a segurança. Sua ponta de destaque viria no segundo tempo, quando o jogo estava 3 a 0. Num chute rasteiro de Eduardo Salvio, João Paulo fez uma defesaça ao buscar a bola rasteira e evitar a reação após a expulsão de Frank Fabra. Mas aquele lance não foi mais sensacional que a intervenção na falta cobrada por Sebastián Villa. A bola venenosa não foi desviada por ninguém e, na pura agilidade, o jovem conseguiu afastar o perigo de maneira impressionante. A noite seria mais perfeita ao Peixe graças ao seu goleiro.

Um nome fundamental a este sucesso do Santos, além dos próprios goleiros, é Arzul. O preparador dos arqueiros santistas começou trabalhando nas categorias de base até ser promovido aos profissionais há uma década. Trabalhou com Rafael na Libertadores de 2011 e aprimoraria todos os guardiões alvinegros depois dele. João Paulo e John são seus dois últimos pupilos. Independentemente de quem for o escolhido para atuar no Maracanã, parece certo que o Peixe terá um goleiro para confiar na final da Libertadores, mesmo que sem tanta bagagem. O mesmo aconteceu há dez anos, e deu certo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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