Libertadores

Maurício Noriega: ‘Arrogante’ CBF quer expulsar a Libertadores da América do Sul em ato de ‘total desprezo’

Incapaz de lidar com problemas cotidianos como a péssima arbitragem nacional, entidade ainda demonstra desprezo pelas federações vizinhas

Li na coluna do Rodrigo Mattos, no UOL, sobre um dos maiores absurdos dos últimos tempos: uma proposta enviada pela CBF à Conmebol para que a final da Copa Libertadores da América de 2024 seja nos Estados Unidos. De onde parte tamanha insanidade? A CBF quer expulsar a Libertadores da América? Pode isso, Arnaldo

Incapaz de lidar com problemas de seu dia-a-dia, como o péssimo nível da arbitragem nacional, ou fazer o casamento adequado de seu calendário como o da entidade sul-americana, a CBF demonstra, com essa proposta, total desprezo pelas confederações e federações coirmãs da América do Sul. Sob o eterno argumento de que pode haver arrecadação maior e exposição idem ao realizar a final no maior mercado consumidor de esportes do mundo – os EUA -, a CBF adota postura arrogante. Ao abrir mão de realizar a decisão em território brasileiro, a CBF sinaliza que não existe outro país sul-americano capaz de receber a decisão.

CBF mostra que o dinheiro está acima do futebol para ela

Registre-se que a decisão da Libertadores de 2018 foi realizada em Madri, na Espanha, em virtude dos graves incidentes ocorridos na tentativa de fazer o jogo de volta no estádio do River Plate. Na ida houve empate entre Boca e River, e na Espanha o River venceu por 3 a 1. Quando equipes mexicanas disputavam a Libertadores – comprando inicialmente vagas da Venezuela – houve jogos das finais realizados no México. Mas a partida decisiva sempre era disputada em solo sul-americano. Ainda hoje a Conmebol discute a hipótese de fazer a final da Libertadores longe da América do Sul.

A sedução do mercado dos Estados Unidos e o dinheiro das grandes redes de TV do México sempre mexeram com a cabeça da Conmebol. Quando foi criada a empresa TyT, uma parceria entre a Torneos y Competências, da Argentina, e a Traffic, do Brasil, chegou a ser debatida a criação da Copa Pan-americana de Clubes. A ideia seria fazer uma competição que reunisse clubes das três Américas e fosse uma concorrente esportiva e econômica da Libertadores. Ainda que a TyT tivesse negócios com a Conmebol, a ideia naufragou em meio a uma enxurrada de escândalos de corrupção envolvendo as empresas.

Sim, o Brasil é o país com mais condições no continente, mas isso não é motivo para tirar a Libertadores daqu

Não se discute que o Brasil tem muito mais condições econômicas e de logística para receber a final da Libertadores em jogo único – modelo que será adotado, pelo menos, até 2026. Isso não significa que seja a única opção. Buenos Aires, por exemplo, pode tranquilamente receber a final no Monumental. Ou ainda La Plata, que fica perto da capital federal argentina, e tem um estádio bom e moderno. O Uruguai recebe finais com alguma frequência, embora tenha problemas de logística aeroportuária e hoteleira para tal volume. Santiago do Chile é uma cidade moderna e cosmopolita e seu estádio Nacional, ainda que antigo, tem boa estrutura.

Há bons estádios no Peru, no Equador, na Colômbia. O Paraguai vive a expectativa de a Conmebol construir ali seu estádio próprio, com capacidade para até 60 mil pessoas. Teoricamente, se estão habilitados a receber jogos das etapas que levam à final, todos os terrenos de jogo aprovados pela Conmebol deveriam estar aptos a receber a decisão. Mas existem algumas questões como, por exemplo, a altitude de La Paz ou Quito, e as dificuldades de logística em algumas regiões da Venezuela. Além da eterna insegurança política sul-americana. Basta recordar que em março 1999 o vice-presidente do Paraguai, Luís Maria Argaña, foi assassinado e o país viveu dias de guerra civil em meio a datas da Libertadores, inclusive envolvendo Corinthians e Palmeiras. Jornalistas brasileiros enviados para cobrir os jogos tiveram que retornar ao Brasil e outros ficaram sem poder deixar o Paraguai.

Ao optar pela final em jogo único, a Conmebol imita a Uefa, mas sem fazer uma análise correta das diferenças geográficas e econômicas entre América do Sul e Europa. A Uefa tem 55 federações afiliadas e a Conmebol, dez. Viajar de trem e avião pela Europa é fácil e barato para o padrão de lá. As viagens aéreas internacionais dentro da América do Sul são geralmente caras, há poucas opções de voos e a opção ferroviária é inviável.

O que intriga na proposta da CBF é o real motivo. Seria o medo de incrementar o problema político com o Flamengo por causa da gestão do Maracanã? Ou a falta de uma costura política com outras federações e clubes para que cidades que não sejam o Rio de Janeiro, onde fica a sede da CBF, possam receber uma decisão de Libertadores?

De qualquer forma, é inaceitável que a maior confederação de futebol do continente esteja trabalhando para expulsar a Libertadores da América.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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