Libertadores

Herói tão improvável quanto predestinado, Deyverson sai do banco e dá o tri da Libertadores ao Palmeiras

O Flamengo era o favorito, dominou as ruas e as arquibancadas de Montevidéu, mas o Palmeiras foi superior taticamente e contou com um gol iluminado de Deyverson para conquistar o título na prorrogação

* Direto de Montevidéu

Diante da informação de que Deyverson entrou na prorrogação de uma final de Libertadores, em meio a uma grande tensão, se o palmeirense tivesse que apostar, a maioria provavelmente diria que ele não demorou muito a arranjar uma confusão ou até mesmo ser expulso. Poucos teriam confiança de que o atacante que marcou o gol do título brasileiro de 2018 também faria o do tricampeonato da Libertadores. Mas foi isso que aconteceu. No começo do tempo extra, o tão controverso e estranho atacante do Palmeiras roubou a bola de Andreas Pereira, entrou na área e marcou o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Flamengo no Estádio Centenário de Montevidéu.

O otimismo era todo do Flamengo. A maioria nas ruas e nas arquibancadas também. A superioridade técnica do elenco era consenso entre especialistas. Faltou, no entanto, se portar como favorito. Foi anulado pelo sistema defensivo do Palmeiras no primeiro tempo e conseguiu encaixar algumas jogadas no segundo apenas quando o nível do adversário deu uma baixada. Gabigol empatou, em uma rara falha de Weverton, e Michael teve a chance de se consagrar com um chute cruzado de dentro da área. Mas mandou para fora.

Depois de sofrer o segundo gol, na prorrogação, não conseguiu fazer mais do que lançar e cruzar, o sonho para uma defesa que ninguém passa, liderada pelo colossal Gustavo Gómez. Deyverson teve tempo de arranjar uma confusão na bandeirinha de escanteio, o seu local favorito do gramado para arranjar confusões, enquanto o tempo passava. A torcida do Palmeiras há muito tempo havia superado a do Flamengo no barulho, embora estivesse em inferioridade numérica, quando o árbitro Nestor Pitana apitou pela última vez.

Desconfiados, os palmeirenses vieram em menor número para Montevidéu. Havia muitos cenários possíveis e poucos deles dariam o título ao Palmeiras, diante do que foi esta temporada. Mas quem diria que um desses cenários era Deyverson saindo do banco de reservas para marcar um dos gols mais importantes da história do Palmeiras. O gol da vitória sobre o clube com o qual foi criada uma enorme rivalidade nos últimos cinco anos. O gol do tricampeonato da Libertadores.

O pôster do Palmeiras (Ernesto Ryan/Getty Images)

Escalações 

Sem Marcos Rocha, suspenso, Abel Ferreira começou o jogo com Mayke na lateral direita. Felipe Melo sentiu dores ao longo da semana e ficou no banco de reservas. Danilo formou a dupla de volantes com Zé Rafael. Gustavo Scarpa, Raphael Veiga, Dudu e Rony foram o quarteto de ataque. No Flamengo, a principal dúvida era entre Michael e Arrascaeta, retornando de lesão. Renato Gaúcho confirmou o uruguaio desde o início, com Mauricio Isla na lateral direita e David Luiz na defesa ao lado de Rodrigo Caio. O resto do ataque rubro-negro teve Éverton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol.

Clima

Cerca de uma hora antes do pontapé inicial, as torcidas trocaram gritos de guerra. Os flamenguistas, em maior volume, prevaleceram. A superioridade numérica ao longo da semana na cidade foi vista também no estádio. Cerca de seis mil ingressos palmeirenses não foram vendidos, mais um buraco na estratégia de preços da Conmebol e na ideia de final única em campo neutro. Os rubro-negros lotaram o seu setor atrás de um dos gols do Centenário, mas havia clarões no lado alviverde. As arquibancadas do meio, teoricamente neutras, foram tomadas por flamenguistas, em uma proporção de três ou quatro para um. Os palmeirenses subiram o som durante o show da Anitta.

Primeiro tempo

Raphael Veiga, do Palmeiras (Ernesto Ryan/Getty Images)

O Palmeiras controlou os 45 minutos iniciais. E nem teve tanta dificuldade para fazer isso. Além de organizado, foi o time mais ligado e concentrado em campo. Não cometeu erros bobos, conseguiu interceptar passes e antecipar as jogadas do Flamengo, que teve 65% de posse de bola, mas trocava passes com lentidão, sem criatividade ou movimentação. Abel Ferreira fechou a defesa alviverde com Gustavo Scarpa pela esquerda, quase uma linha de cinco. Com a bola, ele se projetava entre a ala e o ataque, com Mayke um pouco mais adiantado pelo lado direito.

Foi nas costas de Filipe Luis que o Palmeiras teve a primeira chegada. Dudu recebeu atrás das linhas, avançou e rolou para o cruzamento de Rony. A defesa do Flamengo afastou para escanteio. Mas, aos cinco minutos, Gustavo Gómez acionou o lateral direito palmeirense com um lindo lançamento. David Luiz tentou adivinhar o cruzamento com um carrinho no meio da área. O passe, porém, foi para trás. Ninguém acompanhou Raphael Veiga, que chegou batendo rasteiro.

Abrir o placar tão cedo era tudo que um time como o do Palmeiras, muito mais confortável no contra-ataque, poderia desejar. A dinâmica que já seria esperada se acentuou. Na recuperação, os paulistas tentavam esticar com Rony ou Dudu. O Flamengo sofria para criar. Aos 18 minutos, teve um cruzamento de Arrascaeta para Gabigol cabecear por cima. O toque de bola lento começava a gerar impaciência em sua torcida, enquanto a palmeirense aproveitou o momento para fazer sua voz ser ouvida mais alta no Centenário. Dominou as vias aéreas do primeiro tempo.

Filipe Luis estava com problemas na defesa e passou a ter problemas físicos também, substituído aos 32 minutos por Renê. Pelo outro lado, Veiga interceptou um passe errado e avançou até a entrada da área, de onde desferiu o chute rasteiro, sem problemas para Diego Alves. A única grande chance do Flamengo saiu aos 43 minutos. Bruno Henrique ajeitou de cabeça para Arrascaeta, que matou com o corpo e bateu à queima-roupa. Grande defesa de Weverton.

Segundo tempo

Gabigol, do Flamengo (Ernesto Ryan/Getty Images/One Football)

O Flamengo, sem alterações, voltou melhor para o segundo tempo. A defesa do Palmeiras passou a dar um pouco mais de espaço, especialmente quando o adversário dominava a bola de frente. Mas havia Gustavo Gómez para compensar. Bloqueou a chegada de Gabigol pela direita, logo no primeiro minuto. O atacante flamenguista demorou para definir. Na cobrança de escanteio, Willian Arão desviou com perigo na primeira trave e Gabigol não alcançou na pequena área. Arão, aliás, retornou um pouco mais recuado quando o Flamengo tinha a bola, liberando os dois laterais.

Rony também assustou. Recebeu na entrada da área, abriu à perna direita e mandou no ângulo. Diego Alves foi buscar de mão trocada e mandou a escanteio com uma linda defesa. A resposta rubro-negra foi uma cobrança de falta para David Luiz na segunda trave. Cara a cara, ele jogou para o meio, mas Weverton abafou e conseguiu mandar para escanteio. Aos 15 minutos, Gabigol tentou o chute pela esquerda. Outro bloqueio perfeito de Gómez.

A torcida do Flamengo, entre a insatisfação e o silêncio desde o gol de Raphael Veiga, pediu a entrada de Michael. Foi prontamente atendida por Renato Gaúcho, que colocou o atacante no lugar de Éverton Ribeiro, muito apagado. Danilo também sentiu dores e precisou ser substituído, uma grande perda ao Palmeiras porque o garoto era o melhor do seu meio-campo. Patrick de Paula entrou e sem muita demora iniciou uma transição que terminou com jogada individual de Dudu pela direita. Chute torto, para fora.

O Flamengo conseguiu o empate aos 27 minutos. Em um dos espaços que o Palmeiras passou a conceder no segundo tempo e que não apareciam no primeiro. Gabigol tabelou com Arrascaeta pela esquerda, não foi acompanhado por Mayke e entrou na área. Soltou o chute rasteiro na trave mais próxima, em um pequeno espaço equivocadamente concedido por Weverton, que não poderia ter tomado um gol como esse em um momento tão importante.

Os treinadores se mexeram para preparar a reta final da partida. Abel Ferreira tomou a controversa decisão de trocar Dudu por Wesley. Matheuzinho entrou na vaga de Isla, e Danilo Barbosa se juntou a Patrick de Paula no meio-campo. Zé Rafael saiu. A virada ficou próxima de acontecer, aos 40 minutos, quando Michael recebeu o lançamento pela direita de Arrascaeta, ganhou da marcação e ficou em excelente situação. Bateu cruzado, rente à trave. Àquela altura, o Palmeiras não conseguia mais sair em contra-ataque e manter a bola. Parecia nervoso. Os minutos finais tiveram o Flamengo um pouco mais recuado, e o Palmeiras com a posse de bola, sem saber o que fazer com ela.

Prorrogação

Deyverson, do Palmeiras (Buda Mendes/Getty Images)

Novas substituições. Kennedy no lugar de Bruno Henrique, Deyverson na vaga de Raphael Veiga. Abel Ferreira arriscou tirando os dois jogadores mais técnicos do setor ofensivo. E principalmente colocando Deyverson, muitas vezes uma bomba-relógio que poderia explodir em meio de tanta tensão. Ou como também já fez no passado, decidir. Aos quatro minutos do primeiro tempo, Andreas Pereira errou o domínio na saída de bola, Deyverson recuperou, avançou sozinho pela direita e bateu rasteiro. Diego Alves desviou com os pés, mas não conseguiu evitar o gol.

O Palmeiras estava de volta à frente no placar. Ainda tinha que aguentar mais 25 minutos. O jogo passou a ficar mais feio. O Flamengo mais tempo com a bola, naturalmente, mas sem encaixar boas jogadas, enquanto os palmeirenses afastavam de qualquer jeito e buscavam Deyverson com lançamentos longos. A famosa casquinha servindo como válvula de escape na prorrogação da final da Libertadores. A torcida do Flamengo permanecia calada.

O outro lado vibrou com a entrada de Felipe Melo e a saída de Piquerez, o uruguaio do Palmeiras. O segundo tempo da prorrogação foi ataque contra defesa, quase todo disputado em apenas uma metade do Centenário. O Flamengo lançava, e o Flamengo cruzava, e o Palmeiras afastava. Felipe Melo entrou bem pelo alto. Rony tentou um último pique em contra-ataque e depois mal conseguiu caminhar. Diego Alves foi à área para o escanteio, no momento em que os palmeirenses pediam o fim da partida. O Palmeiras quase ampliou no contra-ataque sem goleiro, mas, na hora que o Flamengo tentava uma última investida, não havia tempo para mais nada.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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