Libertadores

Grupo H: Atlético Mineiro, Cerro Porteño, América de Cali e Deportivo La Guaira

Galo chega badalado para a Libertadores, mas vai encarar três campeões nacionais em sua chave

O time a ser batido

América de Cali e Cerro Porteño possuem histórias extensas na Libertadores, mas apenas o Atlético Mineiro já conquistou o troféu entre os participantes do Grupo H. O Galo, além do mais, carrega enormes expectativas pelo investimento massivo desde a temporada passada. Conquistar o título continental é um dos objetivos, até para não permitir que a bolha estoure e cause estragos a longo prazo. O trabalho de Cuca é questionado neste retorno a Belo Horizonte, com futebol pouco convincente e derrota no clássico, mas o treinador conduziu os atleticanos ao topo das Américas em 2013 e vem também de uma campanha excepcional com o Santos. De qualquer maneira, as melhores credenciais dos alvinegros estarão em campo. O elenco é estreladíssimo, com muita experiência e apostas estrangeiras. Há a mescla de antigos ídolos (como Réver ou Diego Tardelli) ao lado de jogadores que se apresentaram bem no Brasileirão (a exemplo de Guilherme Arana ou Keno). A legião estrangeira é grande e talentosa, com Nacho Fernández, Eduardo Vargas, Matías Zaracho, Jefferson Savarino e ainda outros. Resta saber se haverá equilíbrio e, sobretudo, paciência em meio a tamanha badalação.

A possível surpresa

Teoricamente, o único time que poderia surpreender com uma classificação seria o Deportivo La Guaira, mas é difícil imaginar que os venezuelanos tenham sucesso na chave. Mesmo com o título nacional, o time perdeu vários nomes importantes. Os outros três concorrentes têm totais condições, mas, olhando por retrospecto, uma surpresa seria o retorno do América de Cali às oitavas de final. Os Escarlatas possuem quatro finais em sua história, além de 10 participações nos mata-matas nas primeiras 16 edições com o formato, a partir de 1988. Porém, lá se vão 18 anos da última vez que os Diabos Vermelhos pintaram nas oitavas. Tudo bem que o clube mal disputou o torneio depois disso, com uma ausência que durou 11 anos, enquanto sofriam na segundona. Mas a abertura à reconstrução acontece agora. Na edição passada da Libertadores, o América ficou na lanterna de um grupo difícil contra Inter, Grêmio e Universidad Católica. Agora, as condições parecem melhores. A equipe conquistou o Campeonato Colombiano em 2020, após a retomada da pandemia, mesmo sem vir bem no atual Apertura. Adrián Ramos é o principal medalhão e Yesus Cabrera dita o ritmo, mas vale olhar também o promissor Santiago Moreno. O treinador é o argentino Juan Cruz Real, que chegou ao comando após bons trabalhos em clubes menores na Colômbia.

Adrián Ramos ajuda Rodrigo Moledo a se levantar (Foto: Photo by Ernesto Guzmán/Getty Images/One Football)

O jogão

Atlético Mineiro e Cerro Porteño são velhos conhecidos na Libertadores, com seis partidas entre si. O Ciclón esteve no caminho em dois períodos emblemáticos do Galo, enfrentando os atleticanos na Libertadores de 1972 (quando os azulgranas se deram melhor) e também em 1981 (quando os alvinegros ganharam em Assunção). Já os embates mais recentes aconteceram na Libertadores de 2019, e foram bastante amargos ao Atlético. O Cerro ganhou por 1 a 0 em BH e goleou por 4 a 1 na Olla Azulgrana. Será uma chance de vingança para os mineiros, eliminados na ocasião, com o Ciclón passando ao lado do Nacional de Montevidéu para as oitavas. O time paraguaio ainda despachou o San Lorenzo, antes de sucumbir ao River Plate nas quartas.

Desafio geográfico

Por conta da crise econômica na Venezuela, as viagens dos clubes estrangeiros para o país durante as Libertadores recentes acabaram marcados por entraves logísticos. O abastecimento na região é uma questão, embora o Deportivo La Guaira mande seus jogos em Caracas. Além disso, ocorreram outros problemas nas últimas edições do torneio, incluindo falta de energia que provocou a remarcação de partidas. O acesso de companhias aéreas no país é limitado e, em meio à pandemia, a complicação é maior – até pelos atritos diplomáticos com o Brasil. Quem ainda pode ajudar o La Guaira a dificultar em campo é o técnico Daniel Farias, irmão de César Farias, histórico treinador da seleção local. Daniel possui um histórico vitorioso no Campeonato Venezuelano, mesmo com apenas 40 anos, e conduziu sua equipe à taça nacional em 2020.

O Cerro campeão (Foto: Divulgação)

Señor Libertadores

Nacho Fernández não é o jogador com mais partidas por Libertadores no Atlético Mineiro. O argentino soma 52 jogos, sete a menos que o veterano Réver. No entanto, é preciso respeitar tudo o que o meio-campista construiu no torneio ao longo dos últimos anos. Seu lugar na história está gravado pela maneira como protagonizou o River Plate. Nacho disputou sua primeira Libertadores com o River em 2016, ganhando importância mesmo em 2017, apesar da campanha encerrada nas semifinais. A partir de então, se consagrou como um dos maiores talentos das América, sempre liderando os ótimos desempenhos dos Millonarios. O título em 2018 tem enorme influência do maestro, que jogou um bolão na final contra o Boca Juniors, assim como a campanha do vice em 2019. Já em 2020, apesar da queda contra o Palmeiras, o argentino quase reavivou as esperanças do time de Marcelo Gallardo. As chances do Galo nesta edição passam por seus pés, com o brilho já notado nas primeiras partidas pelo Campeonato Mineiro.

O técnico

Francisco Arce foi um dos maiores símbolos da Libertadores nos anos 1990. O lateral disputou o torneio com o próprio Cerro Porteño, embora tenha chegado às glórias com Grêmio e Palmeiras – como uma peça fundamental nas engrenagens de Felipão, graças à qualidade de seus cruzamentos. O Arce treinador não é tão bom quanto o jogador, mas possui uma série de trabalhos importantes. Foi campeão nacional à frente dos dois grandes rivais da capital, embora o troféu com o Cerro em 2020 tenha sido o mais simbólico, ao encerrar a hegemonia de um Olimpia que vinha do tetracampeonato. Dentro de campo, o Ciclón não é uma equipe tão inventiva e faz uma campanha irregular na atual edição do Campeonato Paraguaio. Mesmo assim, é preciso respeitar um treinador que conhece tão bem os atalhos da Libertadores. O lateral Santiago Arzamendia, o volante Mathias Villasanti e o atacante Robert Morales são alguns dos jogadores notáveis aos azulgranas. Já nesta temporada, a diretoria se voltou ao Brasil. Mauro Boselli acumula seus gols no ataque, após deixar o Corinthians, enquanto Matheus Gonçalves é outro nome recorrente no setor, trazido do Ceará. O goleiro Jean, ex-Atlético Goianiense, é reserva do experiente Rodrigo Muñoz.

O repatriado

Hulk mal fez carreira no Brasil, deixando o Vitória ainda na adolescência. A trajetória do atacante foge um tanto do costumeiro, ao rodar por Japão, Portugal e Rússia, antes de fazer fortuna na China. Em 2021, o ponta resolveu retornar ao Brasil e aceitou a vantajosa proposta do Atlético Mineiro. Mesmo aos 34 anos, gera expectativas por suas famosas bombas e pela força física. Porém, a realidade é que o início do veterano no Galo decepciona, mais marcado por trombadas que os árbitros deixam passar do que propriamente por gols. Não à toa, pelo elenco recheado à disposição de Cuca, pode ficar no banco. Ainda falta ritmo, e sua readaptação é uma incógnita depois de tanto tempo limitado a um nível mais baixo na China. É ver se Hulk engrena pelo menos antes dos momentos decisivos da competição continental.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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