Libertadores

Grêmio e Guaraní também se enfrentaram nas oitavas da Libertadores em 1997, com um dramalhão de sete pênaltis perdidos

O Grêmio recebe o Guaraní nesta quinta-feira de Libertadores com sua classificação encaminhada. Depois da vitória por 2 a 0 no Defensores del Chaco, é muito difícil de acreditar em uma reviravolta na Arena. A situação é bastante diferente de 1997, quando tricolores e aurinegros também se encararam pelas oitavas de final da competição continental. Os gremistas voltaram ao Olímpico Monumental precisando reverter a derrota por 2 a 1 em Assunção. A equipe treinada por Evaristo de Macedo devolveu o placar de 2 a 1, forçando os pênaltis. E, por incrível que pareça, os 2 a 1 também se repetiram na marca da cal, em disputa de baixíssima qualidade que garantiu os gaúchos na etapa seguinte da Libertadores.

Evaristo de Macedo treinava parte da base que foi campeã continental em 1995 e brasileira em 1996. Danrlei, Arce, Rivarola, Roger, Dinho, Goiano, Carlos Miguel e Paulo Nunes eram os remanescentes do título continental. Obviamente, nomes como Adílson e Jardel faziam falta ao Grêmio. Mas algumas reposições eram bem interessantes, a exemplo do capitão Mauro Galvão ou de Emerson, que na época atuava com a camisa 10 tricolor. Na fase de grupos, os gremistas venceram quatro partidas e perderam duas, terminando na liderança da chave na qual também avançaram Cruzeiro e Sporting Cristal – curiosamente, os futuros finalistas daquela edição.

O Guaraní tinha como grande figura seu treinador, o lendário Luis Cubilla, responsável por levar o Olimpia ao topo da América do Sul em 1979 e 1990 – nesta segunda, chegando a derrotar o próprio Grêmio na fase de grupos. Os aborígenes, porém, não desfrutavam de muitas estrelas que alavancaram a seleção paraguaia naquela metade final dos anos 1990. Os aurinegros contavam com nomes antigos da Albirroja, como Eumelio Palacios, Teofilo Barrios e Julio César Franco. O goleiro Derlis Gómez era outra figura importante do futebol local e, já veterano, seria reserva na Copa de 2006. Já os destaques ficavam a Derlis Soto e Hugo Ovelar, que chegaram a disputar a Copa América em 1997. Ovelar, sobretudo, era considerado um dos melhores atacantes do país e causaria problemas ao Grêmio.

Dentro do Defensores del Chaco, o Guaraní não demorou a construir sua vitória por 2 a 1, contra um Grêmio repleto de desfalques no setor ofensivo. Ovelar abriu a contagem aos seis minutos, em posição irregular que a arbitragem não viu, cabeceando após cobrança de escanteio desviada no meio da área. Não bastasse a situação no placar, os gaúchos perderam Emerson, lesionado aos 28. O Tricolor empatou aos 16 do segundo tempo. Zé Alcino cruzou e o goleiro Gómez bateu roupa. O atacante Maurício Pantera tocou para trás no rebote e André Silva guardou. A definição da vitória paraguaia aconteceu apenas aos 37 do segundo tempo. Toribio Caballero levantou a bola e Ovelar passou às costas da zaga, saindo livre diante de Danrlei. Não teve problemas para mandar às redes.

O gol gerou polêmica. Ovelar estava em posição legal, mas os impedimentos costumavam ser marcados na época inclusive por conta de jogadores que não participavam diretamente da jogada – o que aconteceu. A validação do lance revoltou os gremistas. Evaristo de Macedo foi expulso por reclamação, assim como Rivarola. O treinador ainda seria agredido por policiais paraguaios durante a saída de campo. Com um a menos, os tricolores não conseguiram buscar o empate e precisariam reverter a situação dentro do Olímpico, duas semanas depois. Enquanto Luciano entrava na zaga, as boas notícias ficavam para os retornos de Paulo Nunes e Carlos Miguel, ausências importantes em Assunção.

Mesmo com os reforços, o Grêmio viveu uma noite dramática em Porto Alegre. A partida se resumia num ataque contra defesa, sem que os tricolores rompessem a retranca do Guaraní. Durante o primeiro tempo, Dinho acertou a trave, enquanto o goleiro Derlis Gómez acumulava ótimas defesas. Só que a missão dura dos gremistas se tornou ainda pior aos 28, quando o zagueiro Luciano foi expulso com o segundo amarelo. Apesar do cartão, Evaristo não recomporia a zaga.

O Grêmio só abriu o placar aos 18 do segundo tempo. Carlos Miguel tabelou com Roger pela esquerda e passou a Paulo Nunes. O atacante fintou a marcação dentro da área e achou espaço para mandar às redes. Sem gol qualificado, o resultado ainda levava aos pênaltis. Isso até os 41 do segundo tempo, quando o Guaraní empatou. Num contra-ataque, Lorenzo Ojeda arrancou pela direita e passou para Ovelar maltratar os gremistas de novo. Ao menos desta vez, o Tricolor reagiu. O gol da salvação veio apenas aos 47, graças ao prodígio Rodrigo Gral. Num chutão de Roger, a bola pipocou na entrada da área, até o atacante se infiltrar e definir diante do goleiro.

O resultado forçou os pênaltis e os times começaram bem na marca da cal. Dinho abriu a contagem ao Grêmio, Gustavo Sotelo empatou ao Guaraní e Arce recolocou os tricolores em vantagem, até furando as redes. A partir de então, aconteceria um festival de erros, com sete cobranças consecutivas desperdiçadas. Mauro Galvão, Carlos Miguel e Rodrigo Gral perderam entre os gremistas. Por sorte, Danrlei estava inspirado, pegando os chutes de Luis Romero e Darío Delgado. Além disso, Derlis Soto e Almada mandaram para fora, dando a classificação aos gaúchos.

O Grêmio não iria tão longe naquela Libertadores. Nas quartas de final, aconteceu o reencontro com o Cruzeiro. Os celestes venceram por 2 a 1 no Mineirão, tornando insuficiente o triunfo gremista por 2 a 1 no Olímpico. Como consolo, os gaúchos faturaram semanas depois a Copa do Brasil, em cima do Flamengo no Maracanã. Já as partidas posteriores contra o Guaraní foram na fase de grupos da Libertadores de 2017, com empate por 1 a 1 em Assunção e goleada por 4 a 1 na Arena. Aquela vitória, aliás, marcaria o embalo do time de Renato Portaluppi. Uma arrancada que culminaria em taça.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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